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Lelê Teles

Jornalista, publicitário e roteirista

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O papudim na Papudinha

O infeliz está no fundo do poço, buraco que ele cavou com as próprias unhas

Representação de Jair Bolsonaro (Foto: Reprodução)

"Se você olhar profundamente para o abismo, o abismo olha de volta pra você", Nietzsche

Acabou.

Finalmente, o papudim foi recolhido à papudinha. 

Nesse momento, encontra-se, solitário, encolhido no canto da cela, liso como uma lesma: as mãos trêmulas, as canelas finas, o olhar acabrunhado, distante, perdido, exalando o sombrio desespero daqueles que têm a má sorte de enxergar o grande olho abismal lhe encarando. 

O infeliz está no fundo do poço, buraco que ele cavou com as próprias unhas.

Enquanto estava vivo, foi um homem mal: zombou dos que morriam e infernizou a vida dos viventes. 

Caçoou das leis, ameaçou magistrados, exaltou torturadores, desprezou e empobreceu os miseráveis, amou e armou os mais ricos...

Encarnou o espírito do leviatã. 

Malvadão, soltou brasa pelas ventas e cuspiu fogo como uma besta-fera.

Outrora, vestia uma capa de super-homem. hoje, derrotado, traja os andrajos listrados do sub-homem enterrado em pé.

Despede-se dessa vida como o prefeito de serra verde, montado no lombo de um burrinho bufante: só de cuecas, vestindo uma máscara horrenda, o corpo peludo como o de um lobisomem, sendo tragado pela caatinga, a pele rasgada pelos gravetos secos e espinhudos de facheiros, favelas, xique-xiques e mandacarus.

O alto falante gritando: vatimbora, carniça, "pai da mentira, angu-de-caroço… causou muita dor e sofrimento aqui para nossa comunidade. nesse dia, a gente de bacurau dá adeus a esse demônio, que ele não retorne nunca mais para essa terra aqui."

O trompetista toca a marcha fúnebre e o diabo entra na gruta escura, recolhendo o rabo de seta em brasas.

O mito morre aqui.

E aqui mesmo nasce o mártir.

A desmitificação do papudim é um projeto da família.

Imprestável, condenado a mais de vinte e sete anos de xilindró, o sujeito vale mais morto do que vivo.

Por isso, fazem dele um morto-vivo.

Creem que o cheiro de enxofre do cadáver insepulto atrairá votos.

Michelle, dissimulada, no papel de viúva de um homem vivo, passou a chamá-lo de meu amor.

Veja você.

Carluxo, o biguerréde, fala a todo tempo que o pai pode morrer a qualquer momento, disse, inclusive, que o velho está em iminente risco de morte súbita. 

Veja onde chegamos!

Flávio, ungido antes da extrema unção do pai, se apresenta como o filho pródigo, aquele que foi escolhido pelo patriarca para levar adiante o seu legado. 

Eduardo, cínico e cênico, chora o exílio voluntário e alega que os netos correm o risco de não poderem ir ao enterro do avô. 

Percebem?

Tudo isso tem um único propósito: a comoção social,  o convulsivo chororô dos xororós. 

O apelo rasteiro à piedade cristã.

É por essa razão que estão a montar um presépio macabro em torno do papudim.

Sim, estão a armar o velório de um homem vivo e usarão carpideiras como cabos eleitorais.

Ontem à noite, o papudim teve um pesadelo, sonhou com uma grande conspiração palaciana.

Um corvo urubusservava, o vento farfalhava as cortinas diáfanas, uma névoa seca e insípida bailava nos aposentos que era invadido por homens vestidos em togas negras, mascarados, empunhando adagas afiadas e archotes acesos.

Aproximavam-se da cama do papudim e o apunhalavam impiedosamente, uma, duas, sete vezes...

Na penumbra, o moribundo, já quase sem ar, reconhece entre os mascarados os olhos macabros de um dos filhos: o cutelo erguido, em movimento descendente para o golpe final.

Ao que papudim, aterrorizado, balbucia, juliocésicamente: "até tu, brutos, meu filho?"

E tudo escurece.

Na manhã seguinte, manchetes manchadas de sangue, gritam em letras garrafais: "morre um homem, nasce um mártir."

Esse é o plano. 

Quem tem olhos pra ver que veja.

E nunca é demais lembrar, a morte de um messias pode fazer nascer uma religião.

Mesmo que o morto esteja vivo!

Palavra da salvação.

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.