O papudim na Papudinha
O infeliz está no fundo do poço, buraco que ele cavou com as próprias unhas
"Se você olhar profundamente para o abismo, o abismo olha de volta pra você", Nietzsche
Acabou.
Finalmente, o papudim foi recolhido à papudinha.
Nesse momento, encontra-se, solitário, encolhido no canto da cela, liso como uma lesma: as mãos trêmulas, as canelas finas, o olhar acabrunhado, distante, perdido, exalando o sombrio desespero daqueles que têm a má sorte de enxergar o grande olho abismal lhe encarando.
O infeliz está no fundo do poço, buraco que ele cavou com as próprias unhas.
Enquanto estava vivo, foi um homem mal: zombou dos que morriam e infernizou a vida dos viventes.
Caçoou das leis, ameaçou magistrados, exaltou torturadores, desprezou e empobreceu os miseráveis, amou e armou os mais ricos...
Encarnou o espírito do leviatã.
Malvadão, soltou brasa pelas ventas e cuspiu fogo como uma besta-fera.
Outrora, vestia uma capa de super-homem. hoje, derrotado, traja os andrajos listrados do sub-homem enterrado em pé.
Despede-se dessa vida como o prefeito de serra verde, montado no lombo de um burrinho bufante: só de cuecas, vestindo uma máscara horrenda, o corpo peludo como o de um lobisomem, sendo tragado pela caatinga, a pele rasgada pelos gravetos secos e espinhudos de facheiros, favelas, xique-xiques e mandacarus.
O alto falante gritando: vatimbora, carniça, "pai da mentira, angu-de-caroço… causou muita dor e sofrimento aqui para nossa comunidade. nesse dia, a gente de bacurau dá adeus a esse demônio, que ele não retorne nunca mais para essa terra aqui."
O trompetista toca a marcha fúnebre e o diabo entra na gruta escura, recolhendo o rabo de seta em brasas.
O mito morre aqui.
E aqui mesmo nasce o mártir.
A desmitificação do papudim é um projeto da família.
Imprestável, condenado a mais de vinte e sete anos de xilindró, o sujeito vale mais morto do que vivo.
Por isso, fazem dele um morto-vivo.
Creem que o cheiro de enxofre do cadáver insepulto atrairá votos.
Michelle, dissimulada, no papel de viúva de um homem vivo, passou a chamá-lo de meu amor.
Veja você.
Carluxo, o biguerréde, fala a todo tempo que o pai pode morrer a qualquer momento, disse, inclusive, que o velho está em iminente risco de morte súbita.
Veja onde chegamos!
Flávio, ungido antes da extrema unção do pai, se apresenta como o filho pródigo, aquele que foi escolhido pelo patriarca para levar adiante o seu legado.
Eduardo, cínico e cênico, chora o exílio voluntário e alega que os netos correm o risco de não poderem ir ao enterro do avô.
Percebem?
Tudo isso tem um único propósito: a comoção social, o convulsivo chororô dos xororós.
O apelo rasteiro à piedade cristã.
É por essa razão que estão a montar um presépio macabro em torno do papudim.
Sim, estão a armar o velório de um homem vivo e usarão carpideiras como cabos eleitorais.
Ontem à noite, o papudim teve um pesadelo, sonhou com uma grande conspiração palaciana.
Um corvo urubusservava, o vento farfalhava as cortinas diáfanas, uma névoa seca e insípida bailava nos aposentos que era invadido por homens vestidos em togas negras, mascarados, empunhando adagas afiadas e archotes acesos.
Aproximavam-se da cama do papudim e o apunhalavam impiedosamente, uma, duas, sete vezes...
Na penumbra, o moribundo, já quase sem ar, reconhece entre os mascarados os olhos macabros de um dos filhos: o cutelo erguido, em movimento descendente para o golpe final.
Ao que papudim, aterrorizado, balbucia, juliocésicamente: "até tu, brutos, meu filho?"
E tudo escurece.
Na manhã seguinte, manchetes manchadas de sangue, gritam em letras garrafais: "morre um homem, nasce um mártir."
Esse é o plano.
Quem tem olhos pra ver que veja.
E nunca é demais lembrar, a morte de um messias pode fazer nascer uma religião.
Mesmo que o morto esteja vivo!
Palavra da salvação.
* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.
