O paradoxo Lula 30%-47% na pesquisa Datafolha

Somados os que votariam com certeza com os que poderiam votar conforme posição de Lula caso o mesmo não seja candidato, resulta em 47%. E como 47% é maior que 30% dos eleitores que declaram voto no petista, o paradoxo relaciona-se à consistência e significado destes resultados

Lula 
Lula  (Foto: Deivison Souza Cruz)

Neste artigo teço alguns comentários quanto aos resultados da pesquisa do Data Folha divulgado em 10/06, fatores explicativos e os possíveis cenários das eleições presidenciais de 2018.

I - OS DADOS

Na pesquisa Datafolha divulgada em 10/06 a questão central refere-se à capacidade de transferência de votos de Lula. Lula possui 30% dos votos caso seja candidato, e 30% dos eleitores declaram que votariam com certeza em quem Lula indicar. além destes, mais 17% poderiam votar no candidato indicado por Lula.

Assim, somados os que votariam com certeza com os que poderiam votar conforme posição de Lula caso o mesmo não seja candidato, resulta em 47%. E como 47% é maior que 30% dos eleitores que declaram voto no petista, o paradoxo relaciona-se à consistência e significado destes resultados, o que mostram e o que igualmente escondem.

A questão não é que os 30% dos que poderiam votar conforme indicação do Lula sejam 30% dos 30% dos possíveis votos de Lula, mas sim, em ambos os casos, em relação ao total de eleitores que escolhem votar nos dois cenários (com ou sem Lula). Esses dois totais de eleitores variam. Com Lula na disputa, os brancos e nulos são 30%, sem Lula, são 34%.

Isso significa também que, nos cenários divulgados pelo Datafolha, parte dos votos de Lula migram para os demais candidatos, mas não fica claro o sentido preciso desta migração. Por sua vez, a hipótese de pulverização dos votos do petista não encontra lastro, pois as respostas "votaria com certeza em quem Lula indicar" (30%) e "poderia votar em quem Lula indicar" (17%) referem-se ao mesmo item, e não em separado, e não se referem apenas aos eleitores de lula, e sim ao total de eleitores.

Deste modo, a resposta precisa ao mistério é que, mesmo considerando a readequação dos totais com a subtração dos 4% de acréscimo de alienação eleitoral (34% de brancos/ nulos/ deixariam de votar sem Lula contra 30% com Lula candidato), o fato o potencial de transferência do Lula é maior que o seu próprio total de votos.

Isso significa que, mesmo Lula não sendo candidato, é o cabo eleitoral mais forte, podendo influenciar decisivamente na decisão dos eleitores quanto a escolha do próximo presidente. De modo mais profundo, significa também que acréscimo de 4% de alienação no cenário sem o petista podem ser minorados ao cenário com o petista pela indicação de um candidato viável conforme seu apoio. É bem provável que isso ocorra, e isso depende em parte de dois fatores.

Em termos metodológicos, o paradoxo dos 30%(voto Lula) e de 47%(potencial de voto influenciado por Lula) pode ser respondido pela intersecção entre estas duas questões, algo que não se encontra disponível exceto se disponibilizado os micro-dados. Historicamente, entretanto, mostra que os votos potenciais de Lula e de sua esfera de influência mostram que esse núcleo duro se consolidou a níveis próximos a 50%. Só lembrando que Lula ou Dilma não ganharam no primeiro turno, mas estiveram próximos disto.

O resultado mostra que Lula consolida-se como o maior cabo eleitoral de 2018. Nas últimas quatro eleições o nível de saturação dos ataques ao PT e a Lula e seus candidatos as vésperas das eleições sempre tiveram efeito de levar a disputa ao segundo turno. Nestas eleições os ataques contínuos 24 horas por dia durante 4 anos tem demonstrado um nível de resiliência inesperado, mesmo com sua condenação e prisão.

II - ELEIÇÕES PLEBISCITÁRIAS

Ocorre que a própria deterioração do cenário político e econômico no decurso e após o Golpe de 2016, a centralidade da condenação do Lula, sinalizam para o caráter plebiscitário das eleições de 2018 em pelo menos três aspectos.

O primeiro deles é que Lula é um político de projeção nacional a quase 40 anos e conhece o Brasil como nenhum outro. Os eleitores o conhecem, conhecem seu partido, e o PT retoma patamares históricos de avaliação positiva, próximos a 20% de um total do eleitorado (60% não possuem qualquer preferência partidária).

Os eleitores o conhecem e o aprovam/ reprovam e o relacionam a mudanças concretas em suas condições de vida. O histórico de avaliação positiva do governo Lula e ao arrependimento e retração de parte dos eleitores que apoiaram o golpe de 2016. Além disso, Lula é um cabo eleitoral potencialmente forte para as demais candidaturas proporcionais e majoritárias. A sua prisão não lhe retirou o brilho e persiste como efeito sistêmico nas candidaturas do PT.

Inventar um candidato ou retirar o próprio Lula soa artificial, para não dizer desonesto. Os apáticos aumentam conforme eleva-se a polarização. A intensidade de preferências, entretanto, tem beneficiado a extrema direita. Em função disso, até conhecendo a tendência de parte do eleitorado conservador que sentiu perda de status relativo nos anos do Lulo-petismo, parte deste encontra-se desesperado e hoje abraçando a candidatura de Bolsonaro, busca um candidato viável que se apresente como o anti-Lula. O problema é que os anti-Lulas fracassaram todos, e isso explica a prevalência ignominiosa de Bolsonaro.

O segundo fator refere-se a resistência do segmento do eleitorado de esquerda, que compõem o núcleo duro dos eleitores democratas e que se opuseram a cruzada de todos contra o governo Dilma, ao qual se juntaram Aécio, Marina e Bolsonaro. A força da narrativa de resistência ao golpe, da ilegalidade da condenação contra Lula e do desgoverno de Temer tem resistido ao clima de guerra psicológica que criou as condições adversas pós 2013.

O terceiro fator relaciona-se ao desgaste das instituições de justiça, da mídia, do Congresso em resolverem a crise após o golpe contra Dilma. Querendo ou não, Aécio, Marina e Bolsonaro herdam o ônus da deterioração da má governança de Temer, algo que desceu a níveis abissais com a greve dos caminhoneiros devido a política de desmonte da Petrobrás na administração de Pedro Parente.

Com isto, mesmo com toneladas de propaganda legal e ilegal que associam a crise ao governo de Lula e Dilma, esta tem efeito apenas nos mais crédulos anticomunistas iniciais, que acreditam na intervenção militar e ditadura como solução. Relembre-se que esse segmento chegara ao patamar de descolamento ainda maior da realidade ao ponto de considerarem o governo Temer um "comunista", bem como os militares lhe declaram apoio tímido.

III - O INDICADO

Ausente qualquer fato novo, o cenário atual projeta que a permanência de Lula na disputa implicará em sua vitória eleitoral inconteste, possivelmente até no primeiro turno. A oposição petista acertou o prognóstico e o governo Temer só se segura em função daqueles que o colocaram no poder. O desgaste do judiciário e da mídia, relacionados a compreensão de sua parcialidade no julgamento e condenação de Dilma e lula tem crescido consistentemente.

Cada vez mais Temer mostra-se como um Midas ao contrário, pois tudo o que toca possivelmente não se elege. Meirelles é uma super-galinha morta. Bolsonaro, por sua vez, encarna o oposto do milenarismo de Rei D Sebastião (morto na Batalha de Alcácer-Quibir), e se aproxima mais do adágio "tá no inferno, abraça o capeta". O quanto de racionalidade ainda possa ser regatada e para onde irão os votos de direita é questão em aberto, mas que irão assentar esses gafanhotos em algum milharal, isso é tão certo quanto o sol se põe.

No campo das candidaturas de extrema direita, vide lobby pró-armas, neonazistas e outros extremistas de direita precisam de um colapso cognitivo dos eleitores e de um apagão institucional para se transformarem em maioria. Embora as condições existam, a aposta de golpe militar, cancelamento de eleições ou mesmo de uma guerra contra a Venezuela atingem o campo do imponderável, sendo difícil apontar sua origem e consequências.

Em cenários vistos como "normais", fixado as candidaturas, com ou sem a de Lula e dado o tempo de TV e o devir da campanha, é provável que Alckmin retire alguns votos de Bolsonaro, que Ciro Gomes aumente seu percentual de votos pela migração de votos dos eleitores de Lula e Marina, e que o candidato do Lula vá para o segundo turno inclusive contra Ciro.

Ciro tem apostado uma alternativa agressiva de centro-esquerda e acredita que a bola da vez o beneficia. Esse tom tende a prevalecer não fosse o fato que eleitores vejam com certa arrogância intelectual. Ressalve-se que esta arrogância tende a ser vista como característica positiva em Bolsonaro, mas não em Ciro. Excluído Lula da disputa, a questão é se este seria capaz de projetar o mesmo tom firme e pacificador, capaz de agregar as diferenças regionais, de classe e gênero, e sinalizar o futuro.

Excluído Lula da disputa, a tendência é que as candidaturas se embolem em um primeiro momento, mas isso só ocorrerá na metade da campanha, após o registro e as incertezas judiciais quanto a quem ocupará sua posição na chapa. Enquanto isso não ocorre, o teto de Bolsonaro é um fato, e a a sua queda de votos tem sido amplamente esperada devido a sua fragilidade facilmente demonstrada pelo fato do mesmo fugir dos debates e entrevistas.

Ele tem certeza de que irá de desidratar quanto mais se expor, e evitará tanto quanto possível se expor ou se ver comparado ao parear-se com os demais candidatos em algum debate. Bolsonaro tem plena consciência de suas limitações e incapacidades, apostando com isso no grau mínimo de informação de seu eleitorado para chegar ao segundo turno como alternativa de estrema direita ao qual, eleito ou não, passa a concentrar um possível poder de veto, mídia e dinheiro para seus fins particulares, algo que sabe bem administrar, mais do que a coisa pública.

Alckmin e Marina já foram candidatos, com Bolsonaro estiveram junto no Golpe de 2016. O PSDB amarga um cenário de grande incerteza em função da má-avaliação de Alckmin em São Paulo. Marina Silva sofre em função de seus posicionamentos ambivalentes, privatistas e neoliberais, algo que é malvisto pela maioria dos eleitores. E a tendência de Marina é seu discurso rancoroso tenda a desidratá-la já no primeiro turno.

Potencialmente, o fator geracional beneficia Ciro e Bolsonaro vis a vis os anteriores e mesmo a Lula. Porém, por ser o menos desgastado e se apresentar como alternativa de centro-esquerda e oposicionista em relação a Temer, Ciro Gomes tende a ganhar mais espaço que estes demais, vindo mesmo a se apresentar como um possível anti-Lula e anti-Bolsonaro.

Apesar de seu discurso oposicionista, a declaração de Ciro que manterá a porta aberta par ao PDSB em seu provável governo e o adiantamento de um possível apoio do PP e DEM decorre da percepção quanto ao potencial de sua candidatura. A corrida entre o PSB e PCdoB para sua candidatura e a pressão para que petistas (sem sucesso) abandonem Lula mostra que Ciro migrará para os apoios e eleitorado ao centro e a direita do espectro político.

IV - CONCLUSÃO E PRÓLOGO

Concluindo, é possível que Alckmin, Marina, Ciro e Bolsonaro e um provável candidato indicado por Lula venham a embolar. Mas é bastante provável que o candidato do PT, Lula ou outro, se consolidem em primeiro lugar e vão ao segundo turno em função do caráter plebiscitário da disputa. É isso que os resultados de todas pontam. Assim, com ou sem Lula, o cenário provável, de alta incerteza, tem ao menos um aspecto certo: Lula ou o seu candidato estarão no segundo turno.

Por fim, não poderia deixar de escrever um prólogo quanto as candidaturas proporcionais, algo que soa até prosaico relacionado a compra de votos nas eleições. O nível de miserabilidade de parte do eleitorado e as fortunas acumuladas pela trupe golpista tornarão mais caustica a disputa no plano micro. O peso do capital econômico apresenta-se como capaz de dobrar a vontade de parcela dos eleitores.

Novos nomes e velhas práticas vão se imbricar. Vinho velho em odres novos e vinho novo em odes velhos serão a mesma coisa. A propaganda de renovação será o tom generalizado, enquanto o que existe de pior que é a compra de votos, será o lugar comum a ser dominada pelos novos candidatos abraçados pelo mercado e estratégias de redes sociais.

A capilaridade das máquinas de compra de voto encontra-se nas mãos das velhas oligarquias partidárias, e os candidatos mais jovens e eleitores mais jovens podem ter menor domínio das mediações que envolvem as negociações de compra de voto. o resultado é a continuidade de hipocrisia generalizada daqueles que se dispõe, no plano das candidaturas proporcionais, a renovar a política.

— QUEM VIVER, VERÁ!

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