O partido centenário da luta popular da China

"Sem a revolução popular, um dos mais importantes capítulos da história do Partido Comunista, que completa 100 anos de existência em julho, não existiria a China moderna", escreve o jornalista José Reinaldo Carvalho, editor internacional do Brasil 247

Mao Tsetung proclama fundação da República Popular da China, em 1º de Outubro de 1949, após triunfo da revolução
Mao Tsetung proclama fundação da República Popular da China, em 1º de Outubro de 1949, após triunfo da revolução (Foto: Divulgação)
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Este é o segundo artigo de uma pequena série dedicada ao centenário do Partido Comunista da China. O primeiro, intitulado A origem e o caráter do Partido Comunista da China e pode ser encontrado aqui.

A Nova China, que hoje emerge com fulgurante desenvolvimento econômico e social, baluarte da cooperação internacional e país defensor da paz mundial, é fruto da revolução popular, vitoriosa em 1º de outubro de 1949. 

Sem aquela revolução, um dos mais importantes capítulos da centenária história do Partido Comunista, não existiria a China moderna, em marcha acelerada para a realização do sonho de seu povo de revitalização nacional e construção de um país socialista poderoso, próspero, moderno, democrático e civilizado.  

A revolução foi a maior e mais profunda mudança da história do povo chinês, o marco inicial para que o povo se tornasse dono do próprio país, o construtor do Estado nacional, o senhor do próprio destino. Foi o corolário da luta heroica de três décadas conduzida pelo Partido Comunista Chinês, o coroamento da guerra patriótica contra a ocupação japonesa.

O desenvolvimento dessa revolução beneficiou-se da herança da luta pela República conduzida em 1911 pelo líder nacional e democrata, o Dr. Sun Yatsen. A vitória da nova revolução democrática de 1949 levou a China a proclamar de uma vez para sempre o fim do sistema de monarquia absoluta feudal e, sucessivamente, fundar um sistema democrático-popular, unificar o país e suas distintas etnias, dar um ponto final à sociedade semicolonial e semifeudal, atirar na lixeira da história os tratados desiguais e humilhantes impostos pelas potências estrangeiras, extinguir todos os privilégios do imperialismo na China.

A revolução pôs a China de pé, realizou um salto civilizacional para o povo chinês, deixou para trás a China do atraso e da submissão às potências imperialistas, abrindo caminho à transição para a afirmação da independência nacional, o desenvolvimento, o progresso, a justiça, o socialismo.

Conforme a sistematização da historiografia chinesa, a revolução divide-se em quatro períodos: a guerra expedicionária do Norte, a guerra civil de dez anos (1927-1937), a guerra de resistência antijaponesa (1937-1945) e a guerra civil revolucionária, de 1945 até a fundação da República Popular da China, em 1949, também chamado de guerra de libertação do povo chinês.

No primeiro período, no início da década de 20 do século passado, estabeleceu-se uma aliança entre o recém-fundado Partido Comunista com o Partido Kuomintang (nacionalista), em torno de um programa nacional e democrático, dentro de uma visão de frente única para conduzir uma ampla luta anti-imperialista e antifeudal. Esta aliança, em torno do Dr. Sun Yat Sen, líder do Kuomintang, se organizava em torno da missão de realizar uma guerra expedicionária contra forças reacionárias, que deu ensejo a um movimento popular pela convocação de uma Assembleia Nacional e a revogação dos tratados desiguais que subjugavam a China. 

O Massacre de Xangai de 1927 quebrou esta aliança. Foi um expurgo dos comunistas em grande escala, em Xangai. Um golpe contrarrevolucionário liderado pelo general Chiang Kai Shek, líder do Kuomintang após a morte do Dr. Sun Yatsen. Ficou explícita a hostilidade da nova liderança aos comunistas. Resultou no rompimento entre o Kuomintang e o Partido Comunista Chinês, e marcou o início da Guerra Civil. 

O segundo momento foi designado como da guerra civil dos dez anos (1927-1937). Nesse período ocorreu a Longa Marcha, quando núcleos da guerrilha e do poder popular foram estabelecidos em regiões interioranas e houve encarniçada resistência armada contra o Kuomintang. A Grande Marcha foi uma retirada dos quadros do Partido Comunista e do Exército Popular de Libertação, para escapar à perseguição do exército do Kuomintang. O exército comunista, liderado por Mao Tsetung, composto por 100 mil homens (30 mil soldados, dos quais 20 mil feridos, e 70 mil camponeses) percorreu, entre 16 de outubro de 1934 e 20 de outubro de 1935, 12,5 mil km em condições extremamente duras. A marcha prolongou-se até que as tropas comunistas se estabeleceram na região de Shensi, extremo norte da China. No épico percurso, o Exército Vermelho consolidou a identidade revolucionária do movimento, por meio da propaganda revolucionária quanto aos objetivos pelos quais lutava. 

O terceiro período caracterizou-se como guerra de resistência antijaponesa (1937-1945) e o quarto foi o da terceira guerra civil revolucionária, de 1945 até a fundação da República Popular da China, em 1949, também chamado de guerra de libertação do povo chinês.

Nessa trajetória, foi grandiosa a contribuição de Mao Tsetung. Com o rigor teórico de um marxista-leninista possuidor de densos conhecimentos filosóficos e históricos, Mao capacitou o Partido Comunista da China a percorrer o caminho justo para o triunfo da revolução. 

Sem a liderança do Partido Comunista e de Mao Tsetung, a revolução não teria triunfado, a República Popular da China não se teria transformado numa realidade pulsante, a construção do socialismo não teria começado. Foi sob a liderança do Partido Comunista e de Mao que a China alcançou êxitos na sua independência e início da construção do socialismo, abrindo caminho para a transformação mais profunda da história do país. 

Mao Tsetung foi o mais importante líder da história da China. Tornou-se um dos mais destacados líderes da Ásia e de todo o movimento comunista mundial. Seu nome e sua obra estão ligados como inspiração e referência de todas as lutas emancipadoras dos povos dos países dependentes e oprimidos do século 20. 

Um dos princípios fundamentais da Revolução Chinesa foi a linha de massas de Mao Tsetung, o desencadeamento do poder criador das massas populares, enriquecendo o acervo teórico do movimento revolucionário com a "chinificação" do marxismo-leninismo, a fusão da teoria revolucionária com a realidade concreta da sociedade chinesa e a prática concreta da revolução. A rigor, o pensamento de Mao Tsetung, também conhecido como maoísmo, é uma sistematização teórica, uma generalização de conceitos elaborados sobre a base da experiência concreta da revolução chinesa. Mao Tsetung enfatizou o pensamento próprio , a questão nacional, a questão camponesa, o protagonismo das massas populares como sujeito principal da revolução, o apoio nas próprias forças, as peculiaridades nacionais, o entrelaçamento da causa nacional com o socialismo. A maior contribuição de Mao Tsetung ao povo chinês e ao Partido Comunista da China foi aplicar os princípios do marxismo-leninismo à prática concreta da revolução chinesa. Esta foi uma das chaves da vitória da revolução. 

O caráter da revolução chinesa foi anti-imperialista, anticolonial e antifeudal. Para Mao Tsetung, o curso histórico da revolução chinesa se dividia em duas etapas: a revolução democrática e a revolução socialista. Ainda que fosse na primeira etapa uma  revolução democrático-burguesa, "já não pertencia à revolução de velho tipo dirigida exclusivamente pela burguesia com o objetivo de estabelecer uma sociedade capitalista".

"Uma revolução de Nova Democracia - dizia Mao - é uma revolução das grandes massas do povo, dirigida pelo proletariado contra o imperialismo e o feudalismo". Tratava-se de uma "revolução democrático-popular". E acrescentava: "revolução contra o imperialismo, o feudalismo e o capitalismo burocrático, apoiada pelas grandes massas do povo sob a direção do proletariado", considerando esta formulação como a linha eral e a política geral da primeira etapa da revolução chinesa. 

Outro aspecto saliente da experiência da revolução chinesa foi a acumulação prolongada e ativa de forças por meio da criação e consolidação de bases revolucionárias no campo, cenário em que se desenvolveu a luta armada a partir da guerra de guerrilhas. Foi uma longa e cruenta luta, ocupando, com altos e baixos, fluxos e refluxos, os redutos das forças inimigas. A liderança do Partido indicou a prioridade de construir bases revolucionárias, a partir das quais foi possível acumular forças para a tomada do poder. 

A estratégia e a tática da revolução chinesa teve como um dos seus principais componentes a política de alianças. Orientava-se pela concepção de que nos países coloniais e semicoloniais era possível que o proletariado e seu partido estabelecessem, sob determinadas circunstâncias históricas, uma aliança com a burguesia nacional. Nela o proletariado e o partido comunista não deviam ocultar sua posição independente nem renunciar à disputa pela hegemonia. Para o Partido Comunista da China, a política de frente única com a burguesia nacional - no caso concreto, a aliança com o Kuomintang - era uma política com duas facetas, unidade e luta. Isto ocorreu principalmente durante a resistência antijaponesa. 

Em face da agressão japonesa, em julho de 1937, o Japão agrediu a China e em menos de três meses, suas tropas ocuparam o país. Liderados por Mao Tsetung, os comunistas assinaram com o partido nacionalista Kuomintang, dirigido por Chaig Kaishek um acordo de cooperação. Este implicou a obrigação assumida pelos comunistas de renunciar temporariamente à insurgência contra o governo de Chiang Kai Shek, que por seu turno assumia o compromisso de suspender as operações militares contra os comunistas. Entre 1938 e 1945, os japoneses se impõem, instituindo na China um Estado títere, reconhecido pelas potências do eixo nazi-fascista no quadro da Segunda Guerra Mundial. 

A luta revolucionária do povo chinês contribuiu, assim, para a libertação da humanidade do fascismo, o que abriu uma nova página das lutas democráticas e pelo progresso social no mundo. 

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