O pastor que expulsou 70 mil demônios e pôs a culpa em Jesus



Pesquisando alguns conteúdos no youtube para elaborar uma pauta sobre religião que apresentamos no programa “Um Tom de resistência”, na TV 247, encontrei um vídeo onde um pastor prometia expulsar 70 mil demônios que, segundo ele, estariam ocupando o corpo de um homem de aproximadamente 1,60 de altura, que mais parecia estar fazendo uma nano performance de "O Incrível Hulk", do que possuído. Para incorporar de vez o personagem, ele só faltava ficar verde e rasgar a roupa. E eu, até então, só queria entender onde caberiam 70 mil demônios dentro de um sujeito daquele tamanho? Imagino o incomodo daqueles demônios que tiveram que se alojar no quarto dos fundos. Se é que vocês me entendem. Que desagradável!

Idosos, adultos, jovens e crianças, acompanhavam aquela cena com a mesma naturalidade de quem estivesse assistindo a um “Roda Roda Jequiti” do descarrego, na expectativa de ver os nomes de cada um dos espíritos malignos serem revelados no painel. “Será que tem algum com a letra ‘b’? ”, perguntou uma idosa vestida com uma capa de botijão de gás.  Acho que sim, respondeu uma mulher que pontuava cada frase com um “Ô, glória! ” Aproveitando a dica da letra, alguns começaram a arriscar outros palpites. “Belzebu”, disse um senhor que arrecadava as ofertas. “Baal”, gritou um rapaz do grupo de louvor. “Bolsonaro”, apostou uma moça do grupo jovem. &ld quo;Bolsonaro não é um demônio “, retrucou um ancião que estava próximo ao altar. “É sim! ”, rebateu uma criança que logo foi advertida pela mãe. “Não fala isso, menino! ”

Mesmo diante de 70 mil demônios, todos mantinham-se calmos e atentos aos acontecimentos. Alguns até disputavam um lugar mais próximo da legião do mal que ocupava o corpo daquele pequeno homem. Era tão pouca terra para tantos invasores, que os integrantes do movimento demoníaco pareciam não estarem bem acomodados no local.  Tanto, que o rapaz rosnava, fazia careta, revirava os olhos e dava uns gritos que pareciam estar organizados metricamente dentro da sua inconveniente desarmonia interior. De tanta força que ele parecia fazer, eu estava vendo a hora que ele iria evacuar, pelo menos, uns 100 demônios pelo chão daquela igreja. Se é que podemos chamar de igreja tão confuso e inóspito ambiente.

E eu, ainda mais incrédulo, continuava pensando como poderia caber 70 mil demônios naquele corpo pequeno e franzino. Aquele cara não estava possuído, ele era uma maquete ambulante do inferno. E o pastor dizia que eles (os demônios), na verdade, tinham ido atrás dele para confrontá-lo cara a cara dentro da sua igreja. A essa altura eu fiquei imaginando o que aquele pastor havia feito de tão grave, para mobilizar uma motociata com 70 mil cramulhões acelerando dentro do corpo daquele pobre rapaz. E como ele daria conta de lutar com tantos demônios? Pelo martelinho de Thor! Nem Hércules teve que passar por tamanha provação para comprovar a sua força.

Confesso que comecei a temer pela vida do tal pastor. Afinal, estamos falando de 70 mil demônios, meus caros! Nem na tal Farofa da Gkay tinha tanto espírito pouco evoluído. Eu acho que o inferno deveria estar em recesso nesse dia. No entanto, o tal pastor, numa atitude destemida, pegou o rapaz pelo pescoço, fitou-lhe os olhos e num tom de voz firme e ameaçador fez a seguinte pergunta aos bolsonaristas, digo, aos demônios que ali insistiam em permanecer: "Por que vocês não gostam de mim?" Eu pensei: quem vai organizar esse debate agora? São 70 mil demônios e cada um deve ter lá os seus motivos, né? Sem contar, que aquilo não deveria acabar tão cedo e eu tinha que definir a pauta do program a ainda naquele dia.

Para a minha sorte, escolheram um porta-voz que resumiu as reinvindicações de todos os demônios numa só frase, o que otimizou o depoimento da galera. Depois de discutirem rapidamente a relação, o pastor virou-se para o rapaz e falou: "Vocês querem guerra comigo? Então, começou o Armagedom." Eu pensei: Pô! Que sacanagem! Mal acabou uma pandemia e já vamos entrar no fim do mundo. Na sequência, após uma sucessão de gritos, uivos e grunhidos emitidos pelo rapaz, começa a operação de desapropriação do seu corpo. Aliás, a PM poderia contratar esse pastor para ministrar um curso de abordagem dentro da instituição. O cara estava expulsando 7 0 mil demônios sem dar um tiro, sem pisar no pescoço de nenhum deles, sem usar gás de pimenta e sem dar tapa na cara de ninguém. Isso sim é força de segurança humanizada. E ainda olhava para a câmera sorrindo, explicando como iria derrubar um por um.

Eu que já estava me preparando para assistir a uma peleja épica, de repente vejo o pastor pegar no queixo do rapaz e começar a fazer uma série de perguntas, até que ele foi cambaleando e desmaiou. Nesse momento, eu tive uma espécie de revelação divina que me dizia que o que afligia aquele homem não eram demônios. Era apenas o Flávio Bolsonaro que estava escondido dentro dele fugindo de um debate. Bem! Depois de alguns minutos deitado no chão, o jovem se levanta aos prantos, abraça o pastor e agradece por ter a sua “propriedade” de volta. Fiquei pensando comigo: será que os políticos do centrão são demônios? Até então, só tinha visto ele s se tornarem amigos tão rapidamente de alguém que eles diziam que não fariam aliança. Enfim, tudo parecia ter acabado bem. Só não explicaram para onde foram os 70 mil demônios que estavam habitando o corpo do rapaz.

Para o meu maior espanto, depois de toda aquela adrenalina e do heroísmo que o pastor exibiu durante toda a operação, ele diz aos fiéis que foi Jesus quem expulsara todos aqueles demônios presentes no corpo daquele sujeito. Talvez, ele tenha tentado dar mais credibilidade a cena falando isso. E como Jesus não estava ali mesmo para se defender, ele que leve a culpa ou a honra pelo feito.  Eu pensei comigo: será que Jesus é o pseudônimo do Michel Temer? Porque, em matéria de golpe, ele é mais ardiloso do que 70 mil demônios. Fiquei esperando as letrinhas subirem para saber quem era o gênio por trás do roteiro do filme, mas foi nesse momento que descobri que tudo aquilo que eu acabara de assistir era um fato verídico. Pelo menos, o pastor e os demônios fizeram de tudo para que assim parecesse a todos.

Pauta pronta, o problema agora era encontrar uma forma de “desver” tudo aquilo. Cai na besteira de aceitar uma sugestão de vídeo da mesma plataforma, na intenção de desintoxicar a minha mente e não ter um pesadelo com a imagem daquele rapaz gritando e andando em círculos em volta da minha cama. E o que me aparece? Um vídeo onde a primeira dama da república comemora a escolha de um ministro terrivelmente evangélico para o STF, dando pulinhos, gritinhos e falando em línguas estranhas. Acho que já sabia para onde tinham ido os demônios que se evadiram do corpo daquele rapaz.

Que Deus me defenda de todos os demônios e de boa parte dos seus seguidores!

Este artigo não representa a opinião do Brasil 247 e é de responsabilidade do colunista.

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