O pequeno imperador
Poder, vaidade e delírios de grandeza
Desde muito cedo, Donaldinho demonstrava sinais inequívocos de que não estava neste mundo para dividir brinquedos. Estava aqui para colocá-los em leasing e cobrar juros das outras crianças do jardim da infância.
Com três anos, recusou-se a entrar na creche porque o lugar não tinha valet parking. Passou a infância tentando transformar o parquinho em uma zona franca, onde só brincava quem jurasse lealdade eterna a ele e, de preferência, vestisse camisetas com seu rosto bordado em lantejoulas (que ele mesmo costurava e revendia a preços abusivos).
Aos cinco, elaborou seu primeiro plano de governo usando massinha de modelar. Nele, a escola seria regida por um sistema de meritocracia reversa: os melhores alunos eram punidos por ameaçar sua supremacia.
Aos sete, Donaldinho candidatou-se ao cargo de “Rei da Escola”. Mandou imprimir coroas de papelão, montou um comício e distribuiu balas de laranja com sua cara estampada. Ganhou com 103% dos votos. Ninguém entendeu, mas ele jurou que os números eram alternativos.
Sua sala de aula (exclusiva para ele) era um bunker decorado com espelhos, para que pudesse ver a si mesmo em todos os ângulos.
Em Educação Física, recusava-se a correr. Declarava que seu físico já era ótimo por natureza. Em vez disso, aparecia no campo de futebol vestindo terno e apito e interrompia o jogo para apresentar um PowerPoint sobre como otimizar faltas no adversário sem receber cartão vermelho.
Houve também o famoso “caso do aquário”. Após uma aula de ciências, Donaldinho tentou privatizar o aquário da escola. Trocou os peixes por minitubarões de borracha e cobrou entrada para vê-los. Quando foi chamado à direção, apareceu de gravata, cercado por dois advogados e um miliciano armado que ele dizia ser seu consultor de crise.
Sua redação mais famosa foi um texto chamado “Como Colonizar Marte e Fazer Dinheiro com Isso”, em que propunha vender oxigênio engarrafado para marcianos e construir o primeiro campo de golfe interplanetário. Tirou zero.
Em resposta, fundou sua própria feira de ciências paralela, onde premiou a si mesmo com uma medalha de “Melhor Empresário Mirim”.
Aos treze, fundou o “Clube dos que Nunca Pedem Desculpas”, cujos membros eram obrigados a dizer à diretora, após qualquer ato de indisciplina, a frase: “Eu não errei”.
Hoje, Donaldinho é gente grande. Invade países como quem derruba castelos de areia na praia, sequestra presidentes como quem pega figurinhas na banca de jornal e brinca com a economia global como quem joga Banco Imobiliário.
Só que, no fundo — bem no fundo, enterrado sob cinco camadas de spray bronzeador — ainda habita aquele menino gordinho, que um dia sonhou ser o mais temido do recreio.
* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.
