O pior período de toda a nossa história ou Os podres poderes das elites nacionais

As elites brasileiras são cancerígenas porque não sabem ser de outra forma. Nasceram junto com a colônia, já paridas em privilégios, com olhos voltados à Europa e de costas para o Brasil. São de origem escravocrata e não aceitam, até hoje, a perda do poder sobre a vida, a tortura e a morte de seus subalternos. Nosso último golpe, em 2016, foi perpetrado por essa mesma elite histórica

Presidente Michel Temer durante cerimônia no Palácio do Planalto, em Brasília. 5/06/2017 REUTERS/Ueslei Marcelino
Presidente Michel Temer durante cerimônia no Palácio do Planalto, em Brasília. 5/06/2017 REUTERS/Ueslei Marcelino (Foto: Heraldo Tovani)

Já houve outro momento mais triste e deplorável na história da República brasileira?

Acho difícil!

Houve um longo período de tempo em que nós, o povo, estávamos tão apartados da política e da coisa pública que o que acontecia nessa esfera não nos atingia de forma direta e sensível.

Na Proclamação da República, por exemplo, nós éramos, ainda, o povo bestializado, que pensava assistir apenas a uma parada militar.

E continuamos assim bestializados, por mais quatro décadas.

Só no golpe de Getúlio Vargas, em 1930, é que um pequeno reflexo de participação popular nos pôs, pela primeira vez, em protagonismo na cena política, e isso graças ao acúmulo vindo do movimento operário, em acelerado processo de organização.

Protagonismo efêmero, pois, em 1939, em outro momento triste e deplorável da história do Brasil, Getúlio deu um golpe dentro do golpe e iniciou uma prolongada ditadura, o chamado Estado Novo.

Naquele período, junto com as torturas, prisões e execuções, banimentos e censuras, houve um acelerado crescimento econômico, um avanço em conquistas para os trabalhadores e consolidou-se alguns direitos sociais que, conjugados aos fatores de crescimento econômico, garantiram a governabilidade e a permanência da ditadura, por 15 anos.

Outro momento triste e deplorável da história do Brasil, foi o golpe militar de 1964.

Os Militares, no entanto, tinham o trunfo do crédito externo abundante e barato e, com ele, promoveu um amplo programa de incentivo à economia, batizado de Milagre Econômico, que promoveu um dos maiores índices de crescimento econômico da história do país.

Com uma censura implacável conseguiu esconder os crimes que praticava em seus porões.

Embalados pelo prestígio junto à classe média e pelo crescimento econômico, os militares conseguiram manter o seu poder ditatorial, por 21 anos.

Por fim, chegamos ao nosso atual momento triste e deplorável.

Agora, porém, não há um Getúlio Vargas e um boom industrial.

Agora não há a possibilidade de um milagre econômico.

Agora há só caos e miséria.

Volto a citar Darcy Ribeiro, um autor de leitura obrigatória para quem quer se entender como brasileiro.

Na introdução de seu livro "O Povo Brasileiro", Darcy Ribeiro explica sua busca de nossas raízes como consequência da perplexidade que o golpe militar de 1964 produziu sobre ele.

"Esse era o nervo que pulsava debaixo do texto, a busca de uma resposta histórica, científica, na organização que nos fazíamos nós, os derrotados pelo golpe militar. Por que, mais uma vez, a classe dominante nos vencia?" (p.13)

A classe dominante!

Nossa história, para ser coerente e honesta, precisa de um complemento, ou melhor, precisa que apontemos o seu personagem principal.

Lá, no distante 1889, a Proclamação da República, foi um golpe financiado pela elite agrária, descontente com a abolição da escravidão e com o não pagamento de uma indenização que reivindicavam do Governo Imperial, pelos prejuízos causados pela emancipação dos escravos. Punham-se, também, contrárias a uma proposta que ganhava força e que contemplaria um amplo programa de assentamento e financiamento para os escravos que sem socorro, libertos e entregues à própria sorte, se tornariam indigentes.

Revoltada com esses "absurdos", a elite nacional derrubou o governo mais estável da nossa história.

Essa mesma elite nacional, em quarenta anos, havia construído um sistema político totalmente deteriorado pela corrupção e fraudes. A política era uma farsa onde São Paulo e Minas Gerais se alternavam no governo, ora mineiros, ora paulistas, num conchavo que ficou conhecido como a "política do Café com Leite". Só os interesses próprios da elite cafeeira e pecuarista, de São
Paulo e Minas Gerais eram pauta da política. As questões sociais e dos trabalhadores eram consideradas casos de polícia.

No início do século XX, uma fração dessa elite passa a investir na indústria e prosperar, graças a uma demanda crescente de mercadorias e a máxima exploração de uma mão de obra barata e desprovida de qualquer direito.

Com o rápido e robusto enriquecimento dessa elite, esta passa a exigir participação nas decisões políticas. Também querem, como seus iguais do mundo agrário, privilégios, financiamentos, leis e a máquina do Estado trabalhando segundo seus interesses.

Como todos nós sabemos, o poder não se transfere, se conquista.

A essa conquista é que damos o nome de Revolução de 30. Getúlio Vargas, seu chefe político.

Como a Revolução de 30 não foi uma revolução, e sim um golpe, a elite agrária perdeu sua cadeira na presidência, mas não perdeu o poder.

Como os trabalhadores, organizados no Partido Comunista, apoiaram Getúlio Vargas, eles tiveram uma momentânea miragem de poder, que, de fato, não tinham.

Como os integralistas da extrema direita apoiaram Getúlio Vargas, queriam seu teco de poder.

Como todos queriam alguma coisa que o governo só poderia garantir às elites, foi baixada uma ditadura que em 15 anos consolidou o poder econômico da elite industrial e repartiu o poder político entre essa elite e a elite agrária. Comunistas e integralistas foram presos, deportados ou mortos.

Em 1964, a elite nacional já estava internacionalizada.

A rápida ascensão dos EUA, como potência hegemônica e do Brasil, como seu aliado estratégico no Cone Sul, estreitou os laços comerciais, militares e econômicos dos dois países.

Desde o fim da Era Vargas, em 1945, o Brasil vinha em um processo de democratização, de consolidação das instituições e de participação popular como nunca havia tido no país.

A pauta dos movimentos populares reivindicava, entre outras, a reforma agrária, a nacionalização das indústrias, a reforma da educação, o aumento real do salário-mínimo, o fim do domínio econômico e cultural dos EUA, o fim da remessa de lucros ao exterior, a participação popular em todos os níveis de poder.

A produção cultural do país alcançou um nível estupendo, com produções nacionais de cinema, com a Cia. Vera Cruz, depois, com o Cinema Novo. A poesia concreta ganhava o mundo. Nosso teatro revelou nomes como Oduvaldo Vianna Filho, Gianfrancesco Guarnieri, José Celso, entre tantos outros. A nossa música foi revolucionada várias vezes com a Bossa Nova, com um POP nacional da Jovem Guarda, com a Tropicália, com as músicas dos festivais e com as músicas de protesto.

O Brasil pulsava.

Estávamos, naquele período, como disse Roberto Schwarz, "Irreconhecivelmente inteligentes".

As elites nacionais, acuadas pela pressão que vinha das ruas e, como sempre, mesquinhas e aferradas à sua fortuna e a seu poder, alia-se às elites dos EUA e arquitetam o golpe. Em 1964, consolidam a mais longa ditadura da história republicana do país.

Darcy Ribeiro, no calor desse momento, destaca, de forma clara e incorrigível: "Não há, nunca houve, aqui um povo livre, regendo seu destino na busca de sua própria prosperidade. O que houve e o que há é uma massa de trabalhadores explorada, humilhada e ofendida por uma minoria dominante, espantosamente eficaz na formulação e manutenção de seu próprio projeto de prosperidade, sempre pronta a esmagar qualquer ameaça de reforma da ordem social vigente".

O Brasil sofre de uma chaga corrosiva, uma doença crônica, um mal que desde sempre parasita o país e seus filhos pobres: as elites domésticas.

As elites brasileiras são cancerígenas porque não sabem ser de outra forma.

Nasceram junto com a colônia, já paridas em privilégios, com olhos voltados à Europa e de costas para o Brasil.

São de origem escravocrata e não aceitam, até hoje, a perda do poder sobre a vida, a tortura e a morte de seus subalternos.

Nosso último golpe, em 2016, foi perpetrado por essa mesma elite histórica. Agora mais enriquecida pela jogatina fácil dos mercados financeiros.

A elite industrial e agrária está sendo sugada pela ganância incomensurável dessa fração financeira dela mesma. Mas, em seu ódio de classe, prefere recompor sua fortuna com o arrocho dos trabalhadores pobres, do que brigar com seus iguais.

Mas o problema é bem maior do que podem enxergar.

A produção de riquezas no Brasil está definhando.

A ilusão virtual dessa riqueza produzida com juros e papéis do governo não se sustenta se não houver produção de verdadeiras riquezas, pela indústria.

A elite industrial, que não tem nenhum compromisso social ou com o país, prefere investir no mercado financeiro do que produzir. Acontece que se não produzir, não gera riquezas. Sem riquezas os preços dos papéis caem e eles perdem dinheiro.

O plano (a sua Ponte para o Futuro) seria o seguinte:

1-Fazer caixa no governo, para pagar os papéis do mercado financeiro – Congelamento de gastos e Reforma da Previdência.
2-Diminuição dos valores gastos com as folhas de pagamento, para que as empresas possam comprar mais papéis, no jogo financeiro – Reforma Trabalhista.
3- Gerar mais aporte de recursos para o Mercado Financeiro, para dar uma ilusão de crescimento e, assim, aportar novos recursos.

Uma ciranda de dias contados. A lógica é acumular o máximo no menor tempo possível.

É um jogo. É um blefe. É uma mentira.

Os atores do golpe sabiam de tudo isso, desde o começo. Tinham claro: "É tudo uma farsa!"

Daí, o fracasso político e econômico desse governo.

No golpe da Proclamação da República, no golpe de 1930 e 1939, no golpe militar de 1964 havia sempre um projeto de desenvolvimento do país, que o justificava. Esse projeto dava a sustentação ao governo.

Hoje vivemos a absoluta falta de projeto de país. O projeto, a tal Ponte para o Futuro, nem é de uma classe, é de uma fração de classe.

Por isso, o vazio de governo. Não há nada que o sustente.

Por isso, o judiciário quer preencher esse vazio.

Por isso, o legislativo não respeita o judiciário.

Por isso, o executivo não é respeitado por ninguém.

Por isso, o único poder que ainda tem poder é o econômico.

Por isso, esse é o momento mais triste e deplorável na história da República do Brasil.

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