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Milton Alves

Jornalista e sociólogo

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O poder dos Aiatolás estremece no Irã com a rebelião popular nas ruas

O país mergulhou numa profunda crise econômica e social com inflação sem controle, com o derretimento da moeda, a falta de água e energia elétrica

Mobilização no Irã (Foto: Reprodução (YT))

O documento do Conselho de Cooperação das Forças de Esquerda e dos Comunistas defende uma saída democrática e popular para o abismo em que o Irã foi jogado por uma teocracia obscurantista e reacionária.

O país mergulhou numa profunda crise econômica e social com inflação sem controle, com o derretimento da moeda, a falta de água e energia elétrica em vastas regiões, o apagão da Internet e o sucateamento dos serviços públicos básicos. Raiz dos autênticos protestos populares, que até setores do regime reconhecem. Essa é a contradição fundamental, causa primária da rebelião popular.

O espantalho dos agentes infiltrados é um velho truque discursivo usado para sufocar e tentar descaracterizar as multitudinárias manifestações. É claro que existem maquinações de antigos monarquistas, de setores liberais da sociedade iraniana, de inimigos externos e há também sinais de divisões no alto clero, mas a base dos vigorosos protestos é a incapacidade do regime de encontrar uma saída que contemple os anseios da maioria do povo iraniano.

Além disso, a juventude, as mulheres e a classe trabalhadora só conhecem do regime dos Aiatolás proibições morais, repressão política e privações em suas condições de vida. Enquanto que os altos dignitários religiosos e segmentos do establishment vivem com privilégios. A corrupção apesar de combatida verbalmente pelos dirigentes teocráticos, é praticada em larga escala nas diversas esferas do estado iraniano.

O regime dos Aiatolás tem uma chamada Polícia dos Costumes, odiada pelas massas iranianas, principalmente pelas mulheres e jovens. Nos últimos dias, resultado dos protestos massivos, a teocracia fala em abolir a odiosa polícia da moral.

A posição adotada pelo Conselho de Cooperação das Forças de Esquerda e Comunistas apela para fortalecer a mobilização popular, com a palavra de ordem ‘Nem Xá nem Autoridade Suprema’, rumo à construção de uma greve geral insurrecional, experiência das massas na Revolução de 1979. O partido Tudeh (comunistas), que sofre uma implacável repressão do regime, também defende a consigna ‘Nem Xá nem Autoridade Suprema’ e a greve geral como mecanismo para superar a crise.

Na avaliação do partido Tudeh, substituir a atual “ditadura teocrática-capitalista” por um “sistema monárquico-capitalista” significaria apenas restabelecer um regime repressivo e transformar o Irã “numa base militar para o imperialismo na região”.

Os comunistas iranianos alertam que aqueles que depositam esperanças na administração Trump ou no governo sionista de Israel para “libertar o Irã” ignoram as “lições dolorosas das intervenções no Iraque e na Líbia”.

Afogar em sangue a rebelião do povo iraniano vai abrir caminho para ação do imperialismo e para o discurso enganoso e criminal de Trump de levar a “democracia” para o Irã.

Alguns setores da esquerda brasileira precisam superar uma visão binária de uma “geopolítica dos estados” feita por cima – por chefes de estado e pelos estamentos diplomáticos – sem o concurso do inexorável motor da história: a luta das massas, a luta de classes.

O poder dos Aiatolás estremece e as ruas serão o palco principal da batalha nas próximas horas, nos próximos dias…

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.