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Ronaldo Lima Lins

Escritor e professor emérito da Faculdade de Letras da UFRJ

292 artigos

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O poder e a falta de glória

Uma reflexão crítica sobre líderes movidos pela vaidade, a banalização do poder militar e os riscos globais impostos pela imprevisibilidade política

Donald Trump (Foto: Reuters/Mike Segar)

Com variações, a humanidade já presenciou exemplos parecidos. Napoleão, egresso de uma pequena nobreza empobrecida da Córsega, alçou-se aos altos postos que ocupou na França e devaneou com a oportunidade de dominar o mundo. Outros, munidos da mesma pretensão, como Hitler, se deixaram mover por intenções análogas – e deu no que deu. No ambiente político da época, não revelava compostura, elegância nem a sobriedade dos dirigentes que o antecederam. Pouco importava. Encantava os pobres de espírito com pretensões de grandeza e riqueza econômica para a Alemanha, à custa de nações subjugadas pela força. Pois agora nos surge Donald Trump, o pequenininho, primo bastardo dos modelos consagrados, não obstante não menos pretencioso, com poderes bélicos de tirar o fôlego do resto da humanidade.

O detalhe é que, frequentemente, beira o ridículo. Não inspira cuidados? Muito pelo contrário. Quanto mais tolo, vaidoso e despreparado representa uma figura assim, mais devem tremer os países soberanos, ricos e, sobretudo, os pobres, pelo caráter de imprevisibilidade com que costuma se manifestar em palavras ou ações. O importante para ele é elencar feitos, vitórias, demonstrações de bravura militar. Não importa se, na Venezuela, por exemplo, a invasão encenada se haja resumido ao sequestro de Maduro, mantendo-se intocada a estrutura do chavismo. Na nova situação, lhe é impossível conservar as sanções duríssimas que sabotavam a economia do país. Para efeito interno nos Estados Unidos, o que se apresenta é uma iniciativa afirmativa, uma permanência da mentira segundo a qual submetera um golpe mortal no narcoterrorismo.

Voltando os olhos para o outro lado, concentraram-se as ambições agora na Groenlândia, protetorado da Dinamarca, amiga e integrante da OTAN. Como nada o detém, passa por cima de tratados e acordos assinados com a União Europeia e aspira por gratidão, se possível a entrega voluntária, de bandeja, do território gelado, para a sua coleção. Choramingou para o governo norueguês por não lhe haverem concedido o Prêmio Nobel da Paz, ainda que Oslo nada tenha a ver com isso. O grande menino mimado quer porque quer um troféu para exibir na sua propriedade, durante e depois de seu mandato, quando os endinheirados o visitarem...

Enquanto isso, deste lado da realidade, cada um de nós, além dos fantasmas do fim do mundo, deve levar a vida adiante. Lula, convidado para integrar a invenção de uma “Comissão de Paz” em Gaza, com um único membro com poder de veto, o Donald Trump, claro que deve gentilmente declinar e não desejar fazer papel de bobo. Economizar-se-ia um bilhão de dólares, cifra que nos cobra para a presença, e não embarcaremos numa aventura destinada ao fracasso, mais uma vez em detrimento do oprimido povo palestino. Transbordando, a nave dos insensatos mal dispõe de espaço para respirar. Lula, não. Tem mais o que fazer!

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.