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Gustavo Tapioca

Jornalista formado pela Universidade Federal da Bahia e MA pela Universidade de Wisconsin-Madison. Ex-diretor de redação do Jornal da Bahia, foi assessor de Comunicação Social da Telebrás, consultor em Comunicação do Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) e do (IICA/OEA). Autor de "Meninos do Rio Vermelho", publicado pela Fundação Casa de Jorge Amado.

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O pragmatismo de Lula como método de vitória retorna em 2026

Movimentos no Planalto indicam estratégia de alianças amplas para garantir governabilidade e vitória eleitoral

Lula (Foto: Ricado Stuckert / PR)

Nesta terça-feira, 14 de abril de 2026, o cenário político brasileiro foi sacudido por dois movimentos que, embora ocorram em salas diferentes do Palácio do Planalto, convergem para a mesma estratégia de sobrevivência e poder.  

Primeiro, a sinalização do ministro Márcio França sobre a possibilidade de Gilberto Kassab (PSD) ocupar a vice-presidência na chapa de Lula em outubro. O argumento principal é o de que a inclusão de Kassab facilitaria a vitória de Lula, a governabilidade e a ampliação da base eleitoral e parlamentar.  

Atualmente, segundo o Brasil 247, “o PSD liderado por Kassab é a sigla com maior número de prefeitos em São Paulo, o que amplia seu peso nas articulações eleitorais. Nesse contexto, um dos cenários cogitados por aliados de Lula seria oferecer a Kassab a vaga de vice em uma eventual chapa presidencial.” 

Ponte entre governo e Centrão 

O segundo movimento na direção do Centrão foi a posse do deputado José Guimarães (PT-CE) na Secretaria de Relações Institucionais visto como um articulador político que dialoga bem com o Centrão, tem histórico de relações estáveis com seus líderes e é considerado confiável por esse grupo — características que explicam sua escolha para fortalecer a ponte entre o governo e esse bloco parlamentar.  

Para quem observa a política com o fígado, são movimentos que despertam dúvidas, sobretudo em relação à possibilidade proposta pelo ministro Marcio França para que Kassab figure na chapa como vice de Lula.  Para quem analisa a política com a mente, é a confirmação de uma genialidade tática que Lula lapida há décadas. 

Uma Retrospectiva Vitoriosa 

A trajetória de Lula na Presidência é uma aula de realismo político. Ele compreendeu, antes de todos, que no Brasil não se governa — e muitas vezes não se ganha — apenas com a "pureza" da esquerda. 

• 2002 O Pacto com o Capital  

Para vencer o "medo" do mercado, Lula contratou o marqueteiro Duda Mendonça — egresso das campanhas de Paulo Maluf — e chocou o PT ao escolher o grande empresário José Alencar (PL) como seu vice. A "Carta ao Povo Brasileiro" foi o selo de um compromisso que garantiu a vitória em 2002 e a reeleição em 2006. 

• 2010 A Consolidação da Base:  

Para eleger Dilma Rousseff, Lula buscou João Santana (ex-sócio de Duda) e selou a aliança com o MDB de Michel Temer. Embora o desfecho de 2016 tenha sido o traumático golpe legislativo, a vitória de 2010 e a reeleição de 2014 confirmaram que o "presidencialismo de coalizão" era a única via para a estabilidade. 

• 2022 A Frente Ampla Democrática:  

Diante do abismo autoritário de Jair Bolsonaro, Lula sacou seu movimento mais audacioso. Trouxe Geraldo Alckmin, seu antigo rival tucano, para o coração do projeto. O resultado foi a reconquista da democracia em uma eleição onde cada voto de centro foi decisivo. 

O "Choque de Realidade" na Militância 

Lula conhece sua base como ninguém. Em ocasiões anteriores, quando as alianças com a direita geraram ruído interno, o presidente não hesitou em confrontar os radicais com a crueza dos fatos, sugerindo que, se a alternativa da coalizão não lhes servia, o caminho seria o isolamento — ou o voto direto nos adversários. 

Diante do cenário de 2026, onde o Datafolha aponta um empate técnico perigoso e a ameaça real de um segundo turno contra o filho de Bolsonaro ou nomes como Caiado e Zema, Lula parece projetar o mesmo choque de realidade. 

 Ao ser provocado pelos setores mais ortodoxos de sua militância, ele terá a autoridade histórica para repetir o ultimato numa forma mais indignada:  

"Votem no filho de Bolsonaro, então. Deixem ele ganhar e entregar nossas terras raras e minerais estratégicos aos Estados Unidos em troca de um tapinha nas costas de Trump". É o uso do absurdo para forçar a união em torno do que é essencial: a soberania nacional. 

O Espelho do Mundo: Budapeste vs. Lima 

O balão de ensaio atual em torno de Kassab e a posse de Guimarães respondem a um cenário global dramático. Na Hungria, a queda recente de Viktor Orbán provou que a autocracia só é vencida quando uma frente ampla unifica forças fora da bolha progressista.  

A lição de Budapeste é clara: a pureza isolada é a antessala da derrota. Por outro lado, o Peru serve como o aviso do abismo.  Sem lideranças aglutinadoras, a política em Lima virou uma guerra de fígados expostos que consome o Estado. Lula olha para o Peru e vê o que não quer para o Brasil: a fragmentação que imobiliza a nação. 

A Coroação de uma Biografia Fantástica 

Afinal, a história do nordestino sertanejo que migrou ainda criança com a mãe e os irmãos, fugindo da fome para se transformar no maior líder de trabalhadores do país, não admite retrocessos.  

O homem que foi preso político da ditadura, fundou o Partido dos Trabalhadores e subiu a rampa do Planalto por três vezes, não pode coroar essa biografia fantástica com uma derrota para mediocridade do filho de Bolsonaro, Caiado ou Zema. 

A articulação com o centro e a vinda de figuras como Kassab, se vier a ser adotada por Lula — que ainda não se pronunciou a respeito nem foi provocado nesta terça,14 — não são recuos, mas a blindagem necessária para que o legado de Lula permaneça intocado.  

No xadrez do poder, ele provaria, mais uma vez, que está dez jogadas à frente, transformando adversários em aliados para garantir que o Brasil não volte para as mãos de quem o despreza. Lula joga pela biografia, joga pelo povo e, acima de tudo, joga para vencer. 

 

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.