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Lelê Teles

Jornalista, publicitário e roteirista

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O primeiro livro que eu li

Foi uma experiência de individuação, a partir dali eu me tornei eu mesmo. Eu descobri quem eu realmente era. Sou aquele garoto até hoje

O primeiro livro que eu li (Foto: Divulgação/Fenae)

Eu tinha dez anos de idade e tava na quarta série.

Estudava na escola classe vinte, que ficava na rua debaixo da minha casa.

Até ali, a escola tinha me ensinado a ler, escrever e a usar a tabuada.

Às sextas-feiras, rolava uma estranha cerimônia cívica: a gente marchava, cantava o hino nacional e a aluna mais bonitinha era escolhida para erguer a bandeira do brasil em um mastro.

Sim, estávamos em plena ditadura militar e escola era obrigada a nos fazer de soldadinhos.

Foi nesse ano, também, que aprendi a me defender.

Troquei socos com um tal francisco das chagas, um sujeitinho branco e rechonchudo que gostava de zombar e colocar apelido nos outros.

Comigo ele tomou uns murros.

Foi também na quarta série que eu conheci a ternura, dando o meu primeiro beijo de língua numa garota chamada dulce, que tinha lábios dulcíssimos.

Nessa época, eu detestava as músicas infantis que cantávamos na escola: o cravo espancando a rosa, o gato levando paulada, os soldados sendo obrigados a marchar para não serem presos...

Mas eu odiava mesmo, com todas as minhas forças, uma canção que falava de um tal pai francisco, cujo nome parecia se referir a um preto velho.

A musiquinha dizia que o infeliz havia entrado em uma roda tocando o seu violão, aí, do nada, chegou um delegado e levou o pobre-diabo para a cadeia.

A canção terminava dizendo que pai francisco fora torturado no cárcere e que de lá voltara todo estropiado.

Eu não conseguia entender porque prenderam e espancaram um cara que apenas tocava um violão.

Eram tempos bicudos aqueles.

Pois bem, retomemos, na quarta série eu adorava as aulas de comunicação e expressão porque a professora nos colocava para ler textos em voz alta.

Até hoje me lembro, vivamente, de ler um texto em que uma tal olívia enviara uma carta a um certo doutor eugênio, pedindo para ele pegar uma bíblia em sua estante e abrir em uma página previamente marcada, e orientava:

"Os homens deviam ler e meditar esse trecho, principalmente no ponto em que jesus nos fala dos lírios do campo que não trabalham nem fiam e, no entanto, nem salomão em toda a sua glória jamais se vestiu como um deles".

Ao terminar de ler, eu chorei.

No final, havia uma nota explicando que se tratava de um trecho do romance "olhai os lírios do campo", de érico veríssimo.

Um certo dia, passou na minha rua uma kombi-biblioteca, meu pai foi lá comprar umas enciclopédias, que eram o google da época.

Nos anos oitenta não havia livrarias nas cidades satélites de brasília e os livros eram vendidos em caminhões ou kombis.

O mascate ofereceu a meu pai uns livros da coleção vaga-lume, leitura obrigatória pra molecada da época.

Em seguida, ele exibiu uns exemplares mais sofisticados: fernando sabino, milan kundera, isabel allende e...

O livro do veríssimo.

Compramos.

Quando abri o livro o meu rosto se iluminou, como aconteceu com John travolta, em pulp fiction, quando ele abriu aquela maleta.

Lembro-me vivamente daqueles dias: a molecada jogando bola, brincando de pique-esconde, bola de gude, queimado, dando cambalhotas no córrego crispim...

E eu na minha feliz solidão, sentado numa sombra, lendo veríssimo.

Aquela foi uma experiência de individuação, a partir dali eu me tornei eu mesmo.

Eu descobri quem eu realmente era.

Sou aquele garoto até hoje.

Palavra da salvação.


 

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.