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Carlos Lula

Ex-presidente do Conass (Conselho Nacional de Secretários de Saúde)

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O primeiro que partiu: seis anos do dia em que o Maranhão aprendeu que a pandemia era nossa

Seis anos após a morte por Covid-19 no Maranhão, memória e lições de uma crise que expôs desigualdades e exigiu ação

O primeiro que partiu: seis anos do dia em que o Maranhão aprendeu que a pandemia era nossa (Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil)

No dia 29 de março de 2020, um homem de 49 anos morreu em São Luís. Tinha hipertensão. Tinha família. Tinha nome. E foi embora antes que a maioria das pessoas do Maranhão soubesse pronunciar corretamente a palavra "coronavírus".

Ele havia sido confirmado como o primeiro caso do estado apenas nove dias antes. Quando sua morte foi anunciada, a notícia correu pela capital com aquela mistura de incredulidade e pavor que antecede o luto coletivo. Ninguém ainda sabia que ele seria o primeiro de muitos.

Eu sabia que precisávamos agir antes de saber tudo. Essa talvez seja a lição mais dura da gestão em crise.

Ainda me lembro das ruas de São Luís se esvaziando. Os comércios não essenciais fecharam no dia 21. O silêncio foi chegando devagar, como maré, e com ele o peso de uma incerteza que não tinha prazo. Famílias inteiras recolhidas. Crianças sem escola, sem amigos, sem o abraço da avó. Em um estado onde a desigualdade já tornava tudo mais difícil, a pandemia chegou como uma segunda sentença.

Naqueles primeiros meses, minha rotina era abrir leitos e correr atrás de insumos. O SUS mostrou uma força que eu já conhecia, mas que aprendi a admirar de outro modo naquele período. Ao mesmo tempo, ficou escancarado o que sempre soubemos e nem sempre falamos em voz alta: dependíamos demais de equipamentos importados, e o país não tinha estratégia para isso.

Quatro meses depois do início, quando a taxa de transmissão deu sinais de queda, precisei conter o alívio prematuro. Alertava, em reuniões e entrevistas, para o risco de novas ondas, inspirado no que já estava acontecendo em outros países que viviam o futuro que o Brasil ainda não havia alcançado. Ninguém queria ouvir. Todos queriam acreditar que o pior havia passado.

Não havia passado.

Ao assumir a presidência do Conass, carreguei comigo uma convicção: em crises desse porte, coordenação vale mais do que protagonismo. Priorizei ações conjuntas, diálogo entre estados, escuta dos secretários de saúde de todo o Brasil. O governo federal ajudava pouco. Era uma realidade que precisava ser dita, e eu a dizia, não por confronto, mas porque silenciá-la custaria vidas.

Aprendi, naquele tempo, que informação qualificada é o maior diferencial que um gestor pode ter. Sistemas falhavam. Dados chegavam incompletos. Decisões tinham que ser tomadas muitas vezes no escuro, e mesmo assim precisavam ser tomadas. Universidades e pesquisadores foram âncoras. O controle social, quando funcionou, salvou.

Escrevi cartas para os meus filhos, Ana e João, durante a pandemia. Luísa ainda não havia nascido. Não sei bem por quê, talvez para não esquecer, talvez para ter algo a mostrar caso um dia me perguntassem o que eu havia feito. Um ano após março de 2020, quando o país vivia seu pior momento, prometi a eles um Maranhão mais digno, mais seguro. Promessas feitas em tempos sombrios têm um peso diferente.

Hoje, seis anos depois, penso nas histórias interrompidas. Cada morte deixou pais sem filhos, filhos sem pais, sonhos suspensos no ar. Em um estado onde a vulnerabilidade econômica e a falta de cooperação institucional tornavam a crise ainda mais complexa, cada vida perdida tinha um peso que os números não conseguem traduzir.

Mas o Maranhão resistiu. De São Luís aos outros 216 municípios do estado, algo aconteceu que vai além do que caberia em qualquer relatório: as pessoas se cuidaram, os profissionais de saúde se doaram, e o SUS, imperfeito, sobrecarregado, subfinanciado, foi a única saída que tínhamos. E foi suficiente, ainda que a custo altíssimo. Quatro anos depois, a ONU reconheceu que se o Brasil tivesse adotado as medidas do Maranhão, 300 mil vidas teriam sido poupadas. Estávamos corretos, afinal.

Hoje ergo esta homenagem pelo homem de 49 anos cujo nome poucos sabem. Por todos os que vieram depois. Pelos médicos, enfermeiros e agentes comunitários que ficaram de pé quando tudo ao redor desabava. E pela vida que, apesar de tudo, persiste.

Seis anos ensinam. E se soubermos ouvir, também protegem.

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.