O privilégio luxuoso do humano
A beleza de um rosto real, com marcas de expressão e singularidades que escapam à simetria artificial
Se a narrativa dominante dos últimos anos foi a da digitalização total da experiência, 2025 trouxe sinais de uma contracorrente mais sutil — e talvez mais reveladora. Eu diria que quase uma neocorrente pós-pandemia, pra usar neologismo. Isso eu explico em outra ocasião.
Em 2025, o cinema brasileiro somou 109,6 milhões de espectadores, uma queda de 9,8% em relação a 2024, segundo dados da Ancine. O número ganha ainda mais significado quando observado em perspectiva histórica: em 2019, antes da pandemia, as salas brasileiras receberam mais de 176 milhões de espectadores; em 2016, foram 184,3 milhões.
Evidentemente, essa transformação não se explica por um único fator; ela é multifatorial. A pandemia alterou hábitos de convivência e de entretenimento, o streaming consolidou a lógica da conveniência sob demanda, e a vida digital expandiu nossa tolerância e, em muitos casos, até nossa preferência por experiências mediadas por telas.
Reforçou-se uma postura que todos conhecemos bem: a preguiça de sair para ver um filme ou, em contrapartida, a conveniência quase sedutora de assistir a quantos filmes se quiser, com a mesma pipoca — talvez melhor ou mais barata —, na hora que se quiser, de pijama e meias, no conforto de casa. Foi o auge, exacerbado pela pandemia, da experiência mediada por telas.
Também não podemos ignorar uma variável econômica bastante palpável: para muitas famílias, uma ida ao cinema deixou de ser um programa trivial. Ingressos, transporte, muitas vezes estacionamento, alimentação e pipoca, em uma única saída, equivalem ou até superam a mensalidade de uma plataforma de streaming com acesso praticamente ilimitado por semanas.
Ainda assim, talvez a questão mais interessante não seja a retração de um formato específico, mas a reorganização dos nossos anseios culturais. Trata-se de desejo por interação humana, ao vivo, ancestral.
Algo que exija presença física, encontro real e ausência de tela. Algo que tenha gente, emoção ao vivo, atuações síncronas, encenações únicas.
Sim, falo do teatro.
No teatro, os sinais merecem atenção. Diferentemente do cinema, que conta com métricas nacionais consolidadas, as artes cênicas brasileiras não oferecem a mesma padronização estatística. Ainda assim, alguns recortes ajudam a contar uma história interessante. No Rio de Janeiro, a Rede Municipal de Teatros registrou crescimento superior a 100% de público em 2025 — um dado que dificilmente pode ser tratado como irrelevante.
O Rio, aliás, talvez seja um termômetro particularmente simbólico desse movimento. Cidade historicamente associada à dramaturgia, ao audiovisual, à cultura do espetáculo e a uma tradição artística profundamente entranhada no imaginário nacional, ela ajuda a ilustrar esse aparente paradoxo do nosso tempo: quanto mais a tecnologia expande experiências mediadas por telas, mais valor simbólico parece ganhar aquilo que é genuinamente analógico — a máfia dos palcos.
Este fenômeno não se limita ao teatro. Grandes shows, festivais, concertos e experiências ao vivo continuam mobilizando multidões, mesmo em uma era em que praticamente qualquer conteúdo pode ser acessado instantaneamente de casa.
Em São Paulo, por exemplo, o movimento se repete em outra escala. Não apenas nos palcos teatrais e na intensa programação cultural da cidade, mas também na força dos grandes eventos presenciais. O The Town e o Lollapalooza mobilizaram centenas de milhares de pessoas, confirmando que, paradoxalmente, quanto mais digital nossa rotina se torna, mais desejável parece aquilo que ainda depende de encontros corporais.
Isso sugere que talvez não estejamos diante de um movimento antitecnologia, mas de algo mais sofisticado: uma revalorização da experiência encarnada.
Estar ali. Compartilhar o mesmo tempo e espaço.
Vivenciar o silêncio antes de um espetáculo começar. Chorar, cantar, rir, aplaudir. Ser atravessado por uma emoção coletiva que não pode ser pausada, editada ou personalizada por IA ou manipulada por qualquer algoritmo abusado.
Streaming oferece conveniência.
Inteligência artificial oferece eficiência e a ideia de perfeição.
Plataformas oferecem abundância.
Mas nenhuma dessas promessas substitui completamente a potência quase ancestral do encontro presencial humano.
Não, não estamos assistindo ao declínio da cultura digital, pelo menos não tão cedo. Talvez estejamos assistindo à redescoberta de que algumas experiências simplesmente não fazem sentido fora da presença física.
A partir de Hartmut Rosa, é possível ler esse movimento como uma busca por experiências que realmente nos afetem. Em uma vida cada vez mais acelerada, mediada e funcional, cresce o desejo não apenas por conveniência, mas por memorabilidade, por experiências que nos movam de verdade e permaneçam conosco.
Talvez seja isso.
A beleza de um rosto real, com marcas de expressão e singularidades que escapam à simetria artificial.
A potência de corpos humanos em movimento, imperfeitos e vivos.
O improviso de uma banda ao vivo que nunca executa uma música exatamente da mesma maneira duas vezes.
A fragilidade e a força de uma peça de teatro que só existe plenamente naquele instante.
A beleza quase esquecida da caligrafia de uma carta escrita à mão.
O traço irregular de um desenho feito por alguém e não por algo.
Porque a imperfeição não é falha. Ela é, majoritariamente, a assinatura de autenticidade.
Estamos assistindo ao reposicionamento de certas experiências como sofisticadas, exclusivas e caras, não necessariamente no sentido pecuniário, mas no sentido do que se torna raro, precioso e emocionalmente significativo.
Estamos com fome de experiências humanas.
O novo luxo não está em rejeitar a tecnologia que conquistamos, mas em valorizar, de forma crescente, aquilo que ela ainda não consegue replicar plenamente: autenticidade, improviso, vulnerabilidade, emoção coletiva e a experiência irrepetível do encontro humano.
Pelo menos, ainda não.
* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.

