Maria Luiza Falcão Silva avatar

Maria Luiza Falcão Silva

PhD pela Heriot-Watt University, Escócia, Professora Aposentada da Universidade de Brasília e integra o Grupo Brasil-China de Economia das Mudanças do Clima (GBCMC) do Neasia/UnB. É autora de Modern Exchange Rate Regimes, Stabilisation Programmes and Co-ordination of Macroeconomic Policies, Ashgate, England.

212 artigos

HOME > blog

O progressismo global tenta se reorganizar — tarde demais?

Entre a reação e o vazio, a esquerda busca forma em um mundo que já mudou

Lula e Pedro Sánchez (Foto: Ricardo Stuckert/PR)

Nos dias 17 e 18 de abril de 2026, Barcelona se torna o centro de uma articulação política que poucos conheciam — mas que revela muito sobre o momento que vivemos.

A chamada Global Progressive Mobilisation (Mobilização Progressista Global) reúne chefes de Estado, ex-líderes, partidos e organizações de diferentes continentes com um objetivo explícito: reagir ao avanço global da extrema direita e reconstruir alguma forma de coordenação internacional do campo progressista.

Não se trata de um encontro regional. Tampouco de uma iniciativa isolada. É parte de um processo mais amplo, impulsionado por redes políticas transnacionais e pela percepção crescente de que o progressismo perdeu capacidade de articulação global.

Mas o dado mais relevante não está apenas na reunião em si.

Está em quem ocupa o centro dela.

Uma liderança que se desloca

O peso de Luiz Inácio Lula da Silva é inequívoco. Presidente do Brasil em seu terceiro mandato, Lula voltou ao cenário internacional como um dos poucos líderes com capacidade real de articulação entre diferentes polos de poder.

Dialoga com Estados Unidos, Europa, China e países do Sul Global — algo raro em um mundo cada vez mais fragmentado — e tenta reposicionar o Brasil como ator relevante na governança global.

Já Claudia Sheinbaum, atual presidente do México e primeira mulher a ocupar o cargo, representa uma liderança em ascensão. Com forte legitimidade doméstica e perfil técnico, sua projeção internacional ainda está em construção — mas seu peso regional já a coloca como peça relevante nesse processo.

Não ocupam o mesmo lugar. Mas apontam na mesma direção.

E essa direção importa.

Não é coordenação. Ainda é reação

Barcelona não expressa, ainda, um bloco organizado.

Expressa uma tentativa.

Durante décadas, o progressismo internacional teve algum grau de coordenação — ainda que imperfeita — ancorada sobretudo na Europa. Esse eixo se enfraqueceu, fragmentou-se e perdeu capacidade de resposta.

O que surge agora não é uma nova arquitetura consolidada.

É uma reação ao vazio.

E isso faz toda a diferença.

Entre Davos e Barcelona

Diferentemente de espaços já consolidados, como o Fórum Econômico Mundial, em Davos — onde elites econômicas e políticas discutem os rumos da economia global —, o encontro de Barcelona tenta se afirmar como uma arena de natureza distinta. Menos orientado pelo mercado e mais pela disputa política, ele ainda carece de institucionalidade e capacidade de coordenação. Se Davos organiza o mundo a partir do capital, Barcelona ensaia pensá-lo a partir da política — mas ainda sem demonstrar que conseguirá transformar diagnóstico em ação.

O mundo que mudou — e o progressismo que corre atrás

A reunião acontece em um contexto em que três transformações avançam simultaneamente:

  • a ordem internacional se fragmenta;
  • a economia global se reorganiza sob tensão geopolítica;
  • a extrema direita ganha coesão, linguagem e capacidade de mobilização.

Diante disso, o progressismo tenta se reorganizar.

Mas ainda não encontrou forma política compatível com a escala dessas mudanças.

O risco de repetir o erro

O encontro mobiliza milhares de participantes, amplia redes e produz declarações.

Mas há um problema conhecido — e recorrente: muita convergência no diagnóstico e pouca capacidade de ação coordenada.

Sem instrumentos concretos — econômicos, políticos e institucionais —, a articulação corre o risco de permanecer no plano da intenção.

E o mundo atual já não responde a intenções.

O ponto decisivo

Há, no entanto, um elemento novo — e potencialmente transformador.

Pela primeira vez em décadas, a tentativa de reorganização do progressismo global não parte da Europa. Parte, ainda que de forma incipiente, do Sul.

Isso não garante sucesso.

Mas altera o ponto de partida.

E, em política internacional, o ponto de partida costuma definir os limites do possível.

Conclusão

Barcelona não resolve o problema do progressismo global.

Mas torna o problema incontornável. Há consciência da crise. Há tentativa de articulação. Há lideranças com peso consolidado e outras em ascensão.

O que ainda não há é forma.

E, sem forma, não há força.

O progressismo global começa a se mover.

Mas ainda não demonstrou que sabe para onde — nem se terá capacidade de chegar — nem, sobretudo, se conseguirá chegar a tempo.

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.