O PT, a "federação" e a política do fato consumado
Colunista Valter Pomar diz que a Comissão Executiva Nacional do PT "não 'conduziu' o processo de diálogo" sobre uma federação partidária com outras siglas
Através dos seus tuítes (!), a presidenta nacional do PT, o secretário-geral nacional do PT e um dos vice-presidentes nacionais do PT divulgaram uma nota à imprensa.
A nota é assinada pelo PT, pelo PSB, pelo PCdoB e pelo PV.
A nota traz duas boas novas.
A principal delas é a unidade em torno da candidatura Lula presidente.
A segunda, implícita, é o naufrágio (temporário, pelo menos) da "federação" com o PSB.
Mas a nota traz, também, duas outras afirmações:
-o PT, o PCdoB e o PV decidem "caminhar para constituir a federação"
-"continuarão dialogando com o PSB, em busca de sua participação, bem como o envolvimento de outras legendas do nosso campo"
Independente do mérito, estas duas frases são o exemplo mais recente do total desrespeito às instâncias partidárias, por parte dos "negociadores" da federação.
Lembro do seguinte: a Direção Nacional do PT, no dia 16 de dezembro, aprovou uma resolução sobre o tema da Federação Partidária.
Esta resolução dizia assim: "Resolve iniciar conversações sobre Federação Partidária com PSB, PCdoB, PSOL e PV, cabendo à Comissão Executiva Nacional do Partido conduzir este processo de diálogo para posterior decisão do DN, sobre eventual participação, a partir de um debate programático, esgotando o debate interno a partir da escuta às direções estaduais, municipais, observando os prazos definidos pela Justiça Eleitoral.”
Esta resolução foi totalmente descumprida.
Em primeiro lugar, a CEN não “conduziu” o processo de diálogo. De 17 de dezembro até às 19h00 do dia 7 de fevereiro, a CEN não se reuniu uma única vez. Não se reuniu e, além disso, até as 19h00 do dia 7 de fevereiro, a CEN não recebeu absolutamente nenhum informe a respeito.
Desde o dia 7 de fevereiro até o dia 9 de março, a CEN reuniu-se duas vezes, para ouvir informes, não tendo decidido nada, nem mesmo tendo decidido formalmente quem a representa nas negociações com os demais partidos.
Segundo o deputado José Guimarães, a indicação dos nomes teria sido feita pelo companheiro Lula.
E uma reunião da CEN convocada para o dia 25 de fevereiro foi cancelada, acontecendo no lugar uma reunião de vários integrantes da instância partidária com a presença do companheiro Lula.
Portanto, a Comissão Executiva Nacional não conduziu o processo.
As posições defendidas pelos petistas que têm se reunido com representantes do PSB, do PCdoB e do PV não resultam, portanto, do debate travado previamente nas instâncias nacionais do PT: o Diretório e a Executiva.
A resolução foi descumprida em algo ainda mais importante: não é o debate programático que organiza o debate da federação, mas sim as candidaturas e o método de eleição das direções. Na reunião da CEN dia 7 de fevereiro foi apresentada uma minuta de uma “carta programática”. Esta minuta é até hoje desconhecida do conjunto do Partido.
A resolução do DN fala também da “escuta” das instâncias partidárias. Não temos até hoje um informe acerca da posição adotada pelas instâncias municipais e estaduais.
Coerente com tudo isto, a nota de hoje informa algo não decidido em nenhuma instância do Partido, a saber: o PT decide "caminhar para constituir a federação" e o "envolvimento de outras legendas do nosso campo".
Funciona assim: se nos espera céu de brigadeiro, este tipo de atropelo será comemorado como exemplo de "boa gestão".
Mas se nos esperam tempestades, este tipo de método pode causar uma terrível indigestão.
* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.

