O PT, a "federação" e a política do fato consumado

Colunista Valter Pomar diz que a Comissão Executiva Nacional do PT "não 'conduziu' o processo de diálogo" sobre uma federação partidária com outras siglas

www.brasil247.com - Presidentes nacionais do PSB, Carlos Siqueira, e do PT, Gleisi Hoffmann
Presidentes nacionais do PSB, Carlos Siqueira, e do PT, Gleisi Hoffmann (Foto: Humberto Pradera/PSB | Marina Ramos/Câmara dos Deputados)


Através dos seus tuítes (!), a presidenta nacional do PT, o secretário-geral nacional do PT e um dos vice-presidentes nacionais do PT divulgaram uma nota à imprensa.

A nota é assinada pelo PT, pelo PSB, pelo PCdoB e pelo PV.

A nota traz duas boas novas.

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A principal delas é a unidade em torno da candidatura Lula presidente.

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A segunda, implícita, é o naufrágio (temporário, pelo menos) da "federação" com o PSB.

Mas a nota traz, também, duas outras afirmações:

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-o PT, o PCdoB e o PV decidem "caminhar para constituir a federação"

-"continuarão dialogando com o PSB, em busca de sua participação, bem como o envolvimento de outras legendas do nosso campo"

Independente do mérito, estas duas frases são o exemplo mais recente do total desrespeito às instâncias partidárias, por parte dos "negociadores" da federação.

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Lembro do seguinte: a Direção Nacional do PT, no dia 16 de dezembro, aprovou uma resolução sobre o tema da Federação Partidária. 

Esta resolução dizia assim: "Resolve iniciar conversações sobre Federação Partidária com PSB, PCdoB, PSOL e PV, cabendo à Comissão Executiva Nacional do Partido conduzir este processo de diálogo para posterior decisão do DN, sobre eventual participação, a partir de um debate programático, esgotando o debate interno a partir da escuta às direções estaduais, municipais, observando os prazos definidos pela Justiça Eleitoral.”

Esta resolução foi totalmente descumprida. 

Em primeiro lugar, a CEN não “conduziu” o processo de diálogo. De 17 de dezembro até às 19h00 do dia 7 de fevereiro, a CEN não se reuniu uma única vez. Não se reuniu e, além disso, até as 19h00 do dia 7 de fevereiro, a CEN não recebeu absolutamente nenhum informe a respeito. 

Desde o dia 7 de fevereiro até o dia 9 de março, a CEN reuniu-se duas vezes, para ouvir informes, não tendo decidido nada, nem mesmo tendo decidido formalmente quem a representa nas negociações com os demais partidos. 

Segundo o deputado José Guimarães, a indicação dos nomes teria sido feita pelo companheiro Lula. 

E uma reunião da CEN convocada para o dia 25 de fevereiro foi cancelada, acontecendo no lugar uma reunião de vários integrantes da instância partidária com a presença do companheiro Lula. 

Portanto, a Comissão Executiva Nacional não conduziu o processo. 

As posições defendidas pelos petistas que têm se reunido com representantes do PSB, do PCdoB e do PV não resultam, portanto, do debate travado previamente nas instâncias nacionais do PT: o Diretório e a Executiva.

A resolução foi descumprida em algo ainda mais importante: não é o debate programático que organiza o debate da federação, mas sim as candidaturas e o método de eleição das direções. Na reunião da CEN dia 7 de fevereiro foi apresentada uma minuta de uma “carta programática”. Esta minuta é até hoje desconhecida do conjunto do Partido. 

A resolução do DN fala também da “escuta” das instâncias partidárias. Não temos até hoje um informe acerca da posição adotada pelas instâncias municipais e estaduais. 

Coerente com tudo isto, a nota de hoje informa algo não decidido em nenhuma instância do Partido, a saber: o PT decide "caminhar para constituir a federação" e o "envolvimento de outras legendas do nosso campo".

Funciona assim: se nos espera céu de brigadeiro, este tipo de atropelo será comemorado como exemplo de "boa gestão".

Mas se nos esperam tempestades, este tipo de método pode causar uma terrível indigestão. 

Este artigo não representa a opinião do Brasil 247 e é de responsabilidade do colunista.

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