O PT precisa se ver de fora para dentro II

O PT para se ver de fora para dentro, precisará promover uma ruptura não dele com ele mesmo, como já propuseram alguns, muito menos com seu passado como propuseram outros, mas uma ruptura com algumas decisões recentes, com algumas formas de se perceber e com os métodos de se organizar e comunicar

O PT precisa se ver de fora para dentro II
O PT precisa se ver de fora para dentro II (Foto: Ricardo Stuckert )

Certa vez, o combativo dirigente e ex-deputado federal petista, José Genoíno, disse que o PT é constituído pelo Estado Petista, composto por seus milhares de dirigente e militantes, sempre presentes às reuniões e às atividades organizativas e de divulgação do partido; e, pela Sociedade Petista, composta por milhões de pessoas que na época das eleições aparecem de todos os lados, compram bottons, bandeiras, material de campanha e envermelham as ruas e praças, numa coreografia sincronizada que impulsiona os resultados construindo as vitórias do partido. Esses, embora petistas e tenham uma grande empatia com o partido, não participam de reuniões, não vivem o partido no seu dia-a-dia. Terminada as eleições ou grandes embates, elas voltam para casa.
 
Me pergunto: o PT sabe o que pensam essas pessoas? Sabe como elas se organizam? Sabe por que elas aparecem apenas nestes momentos e depois se recolhem? Sabe qual a visão delas sobre esquerda e direita? São muitas as indagações, para quais eu não tenho respostas. Mas que o PT precisa ter.
 
O PT necessita olhar para esse contingente, conhecer visão de mundo dessas pessoas e que missão elas lhe atribuem e se atribuem. Se ver de fora para dentro a partir do olhar desses milhões de petistas que também sonham, se alimentam de esperanças, que vivem ou sobrevivem e se organizam em torno da associação de moradores, da igreja, do time de futebol da escola de samba, da quadrilha junina, etc. 
 
O PT precisa envolver esse contingente na elaboração das pautas do partido para que elas se enxerguem como participantes e beneficiárias a ponto de estarem comprometidas.  Este poderá ser o caminho para que o PT compreenda e se relacione com uma sociedade tão complexa como a brasileira, com sua multiplicidade de raças, credos e diversidade regional e tamanhas desigualdades sociais e, para ao final, ser reconhecido como porta voz dos seus interesses e vontades, alimentador de suas esperanças e realizador de seus sonhos.
 
É claro que não tenho respostas para todos estas perguntas e nem a receita para a resolução dos problemas. Mas, ouso dizer que para se colocar a alturas dos desafios impostos pelo processo deflagrado pelos populistas de extrema direita, o PT precisa superar a insuficiente elaboração teórica, romper com o “ser governo apenas republicano”, recuperar e assumir, de forma contundente, o seu papel ideológico e programático de partido de esquerda. O momento é propício para isso, uma vez que, quem assume o governo do país assume escancaradamente a disposição de acabar com a esquerda.
 
O PT precisa simplificar a sua narrativa ideológica, radicalizando a polarização entre esquerda e direita, apresentando as diferenças ideológicas e programáticas, mas sem cair no erro de se tornar populista. Aí poderá começar a recuperar a importância da política na vida das pessoas, o que pode não ser uma tarefa fácil, pois estamos vindo de longo processo de desconstrução agudo da política.
 
O sociólogo Eric Fassin afirma que se os povos não souberem a importância da política em suas vidas, esses reduzirão a percepção de necessidade de uma nova alternativa econômica e política para superação dos seus problemas a uma mera necessidade de alternância governos, que tanto faz ser de esquerda ou direita. 
 
O PT tem que reafirmar que é de esquerda. A esquerda que humaniza as relações e socializa as oportunidades entre as pessoas. A esquerda que inclui os pobres no orçamento (Minha Casa Minha Vida, Luz Para Todos), amplia direitos (as cotas, o Mais Médicos, Bolsa Família), que cuida da juventude (PROUNI, ENEM, FIES sem avalista), investe no desenvolvimento cientifico e tecnológico (Ciências sem Fronteiras e o PROSUB), que fortalece as instituições e que impõe com firmeza a nossa soberania frentes a todos as outras nações.
 
Também é fundamental reforçar a diferença da direita cruel, que retira os direitos, diminui o papel do estado como fomentador do desenvolvimento, distribuidor da renda e provedor de necessidades. Que é contra a direita lesa pátria, que entrega as nossas riquezas, construídas com os esforços e muitos sacrifícios de cada homem e cada mulher, por exemplo, o pré-sal.
 
Que é contra a direita vira-lata, que se recusa a exercer papel soberano de sujeito perante os outros povos, para ser subserviente a esquizofrenia imperialista belicista norte-americana.
 
Para trilhar o seu retorno, o PT precisa ser percebido não apenas pela retórica de esquerda, mas, sobretudo, pela prática de combate ao individualismo e defesa da solidariedade. Como um partido ideológico e programático, precisa de um novo programa com uma matriz de desenvolvimento que esteja focada no capital natural e tecnológico que o país possui e no seu enorme capital social.
 
É urgente que apresente ao povo brasileiro um programa que proponha o fortalecimento e o fomento do empreendedorismo solidário, associativo, comunitário e da economia criativa, como estratégia de distribuição da riqueza e de ascensão social e econômica da população brasileira.
 
Por fim, termino afirmando, com o que pretendo discorrer em um próximo artigo, o que até pode parecer estranho, é que o PT para se ver de fora para dentro, precisará promover uma ruptura não dele com ele mesmo, como já propuseram alguns, muito menos com seu passado como propuseram outros, mas uma ruptura com algumas decisões recentes, com algumas formas de se perceber e com os métodos de se organizar e comunicar.

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