O “Putsch da Cervejaria” de Donald Trump...

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É difícil dizer o que “entra” para a história e o que dela fica “fora”, mas é provável que o 06 de janeiro de 2021 venha a ser tratado como o dia em que a extrema direita supremacista dos EUA, liderada por Donald Trump, tentou dar um golpe de Estado. Meus alunos de História do Brasil e da América poderão, em suas aulas, dizer que um presidente dos EUA tentou permanecer no poder, após perder uma eleição, incitando seus eleitores a invadirem o Congresso. Tenho uma certeza: o 06\01 será visto como o dia em que o modelo de democracia, tido como sólido, rachou. Os chineses gostam de dizer que isso é o começo do fim do império.

Tido e havido como modelo a ser imitado a democracia estadunidense agoniza, pois os princípios do federalismo foram trocados pelos interesses do Complexo Industrial Militar que Fred James Cook tão bem analisa em “O Estado militarista”. Nessa obra seminal (aqui publicada em 1965 pela Editora Civilização Brasileira) vemos como se desenvolveu o “Estado total e a estratégia da guerra total”, após a 2ª Guerra Mundial, quando os EUA se “dedicaram ao verdadeiro poder - do dólar e das armas”. Cook cita o Presidente Eisenhower que, em 1961, alertou para a existência nefasta de “um colosso que domina vastas áreas da vida americana (que) é a verdadeira ameaça à democracia”. O autor relata como os EUA adotaram, nos anos 1950, o modelo prussiano militar industrial que produz ditadores como Hitler e faz da guerra sua própria razão de ser.

Os EUA provam que não existem democracias imunes às ofensivas da cadela do fascismo, sempre no cio, como diria Bertolt Brecht. A mãe das ironias é o berço da democracia moderna, o império da liberdade, “pagando” de república bananeira com um ditador bufão que arregimenta seguidores para invadir o parlamento. Quem cravaria que a eleição dos EUA terminaria sob toque de recolher?!  Desesperados com a derrota e com a revolta do povo negro, Trump e sua malta supremacista lançaram mão da ideia Coringa: "quando tudo estiver perdido, estabeleça o caos".

A democracia não é mais hegemônica no ocidente, se é que um dia foi. Nós, que vivemos bem ao sul da América, vimos congressistas confirmarem a eleição de Joe Biden ancorados nas armas. Os EUA adotaram o modus operandis aplicado nas republiquetas caribenhas e latino-americanas onde as armas garantiriam a “democracia”. Foi trágico, cômico, patético! Confesso que sorri ao ver os congressistas, lívidos, reafirmando a vitória de Biden sob a ameaça das bombas de uma extrema direita chucra que se fantasia de bisão para defender seus interesses.

Estadunidenses sentiram na pele o que é ver seu sistema político derretendo pelo fogo do autoritarismo. Os Vargas, Peróns, Arbenzs, Jangos, Allendes, Dilmas, experimentam o agridoce sabor da vingança vendo o “stupid white man” tocando fogo em suas instituições democráticas. Enquanto via a escumalha supremacista arruinar seu capital democrático disse ao meu sofá: “bem feito, pois eles invadem nossas instituições para fazer valer seus interesses”.

Vi jornalistas e analistas dos EUA evitando falar em golpe de estado. Não existe, no inglês, uma palavra para designar o ato de se tomar, pela força das armas, o poder conquistado pelo voto – é que os EUA nunca tiveram um golpe de estado. Por isso, tomam emprestado do francês o “coup d’état” (sem acento, claro). Países que já viveram a experiência da usurpação autoritária do poder possuem expressões para isso. Na Alemanha e em países do leste europeu, por exemplo, golpe de estado é “putsch”. Como no Brasil a democracia é apenas uma fina camada sobre um espesso extrato de autoritarismo, não precisamos pedir emprestado aos franceses o “coup d’état”.

Devia-se criar um termo, nos EUA, para o que pode vir a ser regra, já que os supremacistas não parecem dispostos a uma conversão democrática. Talvez possam usar o termo alemão numa referência ao “Putsch da Cervejaria” – a tentativa farsesca de golpe de estado do Partido Nazista em 1923. A ideia de assaltar o poder fracassou, mas foi a partir disso que o nazismo se fez conhecer até Hitler subir ao poder em 1933. O que Trump e seus bisões amestrados fizeram não difere tanto do putsch nazista. Na verdade, o fascismo precisa dessas ações teatralizadas para vir a público atestar suas reais intenções e arrecadar a simpatia popular. A invasão do Capitólio pode ser o primeiro de uma série de atos nos quatros anos do governo Biden.

Temos o efeito bumerangue das democracias burguesas, onde a liberdade pouco importa, a igualdade é um estorvo e a fraternidade uma farsa. Em eleições, os donos do capital se valem dos Trumps e Bolsonaros onde os votos dão a impressão de legitimidade política e social, porém o retorno é a fascistização das sociedades. Assim como Hitler, desmerecem o procedimento que os levou ao poder, pois não creem na democracia. Desde que se convenceram de que perderiam as eleições, Trump e sua trupe lançaram dúvidas sobre a legalidade das eleições, pois precisavam de uma muleta que ancorasse a derradeira tentativa de ficar no poder.

A ideia é que se as eleições foram fraudadas, o povo tem o direito de reagir. Para Bolsonaro isso tudo é um laboratório – ele já sabe o que fazer caso perca as eleições em 2022. Pouco importa que Trump seja cancelado nas redes sociais pelas big techs.  Importa que o fascismo viceja, pois ele teve mais de 70 milhões de votos, na eleição de novembro, e Bolsonaro teve quase 50 milhões em 2018. Hitler revive nesses homens apoiados por milhões. Isso é o que importa!

... ou quem com golpe fere com golpe será ferido

Em 2016 o conglomerado golpista depôs Dilma Rousseff contando com a colaboração do Departamento de Estado, do FBI e da CIA estadunidenses. Os golpes civil-militar de 1964 e parlamentar\jurídico\midiático\militar\religioso de 2016 foram apoiados pelos EUA, mas os brasileiros golpistas agora defendem a democracia. Os EUA racionalizam os golpes que deram na América Latina como a “defesa da liberdade e da democracia”, mas a invasão do Congresso foi um ato de “terroristas domésticos”, como disse Joe Biden. Não vi ninguém dizer que os EUA estão tendo o que merecem depois de tantos golpes de estados que já promoveram mundo afora. Pelo contrário, tomou-se para si as dores da democracia estadunidense.

Vi jornalistas e analistas políticos brasileiros admirados com a marcha lúgubre dos supremacistas em direção ao Capitólio. Qual a surpresa? O fascismo só se utiliza dos procedimentos democráticos para ocupar o poder. Feito isso, age para desmontar o Estado de direito acabando com as garantias da lei e da ordem política e social. Bolsonaro só esteve próximo do procedimento democrático eleitoral para se tornar presidente. Feito isso, atuou e atua para desmontar os vestígios de democracia que ainda temos. Se amanhã ele marchar, junto com seus seguidores bovinos, para fechar o STF e/ou Congresso Nacional, quem há de se surpreender?

Em “Como as democracias morrem”, Steven Levitsky e Daniel Ziblatt mostram como as democracias tradicionais vão se enfraquecendo, de modo legal ou não, até perecerem. Eles nos fazem pensar porquê as democracias sólidas se fragilizam ao ponto de deixarem-se dominar pelo fascismo e tratam da “crise do sistema político norte-americano – sobretudo a partir das ameaças trazidas pela ascensão de Donald Trump”. Outra questão é por que países renunciam a seus sistemas democráticos para viverem sobre o tacão das ditaduras. Por que brasileiros e estadunidenses aceitam ser (des)governados por homens como Bolsonaro e Trump? Essa é a questão para pensarmos, pois o “retrocesso democrático, hoje, começa nas urnas”.

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