O que é o Estado Islâmico?

Com o Isis é diferente, não se busca atacar e morrer. A lógica é de ocupação territorial, daí a melhor maneira é eliminar marcialmente todos aqueles que incomodam

Com o Isis é diferente, não se busca atacar e morrer. A lógica é de ocupação territorial, daí a melhor maneira é eliminar marcialmente todos aqueles que incomodam
Com o Isis é diferente, não se busca atacar e morrer. A lógica é de ocupação territorial, daí a melhor maneira é eliminar marcialmente todos aqueles que incomodam (Foto: Luciano Olivieri)
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Desculpem-me, mas por mais que busque uma resposta clara, ainda não conseguimos traçar claramente um desenho desse monstro da floresta que não nos mostra o rosto, mas deixa um rastro terrível de destruição.

O que sabemos é que eles buscam poder político e econômico. Religião é apenas um pano de fundo, uma desculpa para agregar pessoas, para justificar seus ataques, etc e tal.

Porém, fica claro que o Isis não tem uma luta para destruir o perverso Tio Sam, ou a cultura ocidental que não respeita as leis de Alah. Nada disso. O Estado Islâmico nasceu em territórios desestabilizados e com o governo em guerra. Síria, que vive uma guerra civil há anos, com o sanguinolento Bashar al-Assad que dividiu o seu país entre governo e rebeldes e o Iraque pós Saddam Hussein.

Eles aproveitaram essa "terra de Marlboro" e criaram raízes. Tentaram Líbano e Jordânia, mas estes países ainda têm força suficiente para repelirem um invasor.

Mas a razão de estarem ali é por seu interesse econômico, o que está em jogo é o controle da produção e venda de petróleo.

As práticas terroristas não se encaixam dentro dos princípios do alcorão, nem mesmo dentro da lógica de grupos mais radicais como a Al-Qaeda, o Hamas ou o Talibã. Ambos famosos por seus homens bombas que destruíram carros, ônibus, e até o épico World Trade Center em setembro de 2001.

Ali existia uma questão ideológica muito mais forte. Esses davam a vida por uma suposta consagração desde que conseguissem atingir o demo do EUA ou qualquer aliado.

Com o Isis é diferente, não se busca atacar e morrer. A lógica é de ocupação territorial, daí a melhor maneira é eliminar marcialmente todos aqueles que incomodam. Os primeiros da lista eram a imprensa. Morte a todo e qualquer jornalista que estivesse em território do Isis. E no pacotão também foram mortos britânicos e americanos que estivessem por ali.

E isso faz parte da propaganda de medo deste grupo: mostrar execuções, terror e medo. E o fazem muito bem, inclusive têm boas câmeras e uma edição profissional nesse show de decapitação que mostram para o mundo todo.

Depois queimaram um piloto jordaniano, pois a Jordânia trava confrontos com o Isis, e agora o ataque direto ao Egito - mataram cristãos como uma maneira de agredir o governo egípcio, e escolheram a dedo as vítimas, pois não poderiam matar um grupo tão grande de muçulmanos.

E esse é um recado para dizer: "Não se encostem em mim, pois a Líbia agora é nossa."

Sim, o último grande passo foi a anexação de cidades na Líbia.

Mais uma vez um país destruído, desde que o governo de Muammar Kaddafi caiu e a Líbia virou terra sem dono.

Além de estar enfraquecida enquanto país, a Líbia é um ponto estratégico geograficamente, fica bem localizado no norte da África, permitindo uma expansão para países vizinhos, como Tunísia e Argélia, e também é banhado pelo Mediterrâneo e está na boca da Europa, principalmente Itália.

Outra coisa que intriga no Isis é que não existe um líder. Quem é o Che Guevara ou o Bin Laden dessa guerra?

Não existe. Assim fica mais difícil se combater o inimigo.

Não adianta matar um chefe, o grupo continua forte.

É claro que existe uma liderança, mas esses cabeças, propositalmente, não querem aparecer.

Outra coisa importante nesse cenário é saber qual é a relação do Isis com o Irã. O governo de Teerã é fundamental no Oriente Médio por ser a maior potência bélica.

Até agora, eles estão quietos e não vêm se manifestando de maneira contundente, isso levanta duas hipóteses: ou terem alguma ligação escusa com o Isis e ganham com isso, ou preferem se manter fora de um confronto direto, mas sabendo que o Isis não incomodaria a sua casa. Pois, se o Irã quiser enfrentar o inimigo de perto, levaria o Isis à extinção ou enfraquecimento total.

· Mas quem deve ter medo do Isis?

Primeiro os países com governos fracos e que podem ser facilmente tomados por um grupo paramilitar, além de Síria e Iraque, Afeganistão, Casaquistão pelo lado asiático; pelo lado africano: Marrocos, Argélia, Tunísia, Sudão e até mesmo o Egito são alvos.

A Turquia está tremendo, pois está acima do Iraque e sabe é outro ponto a ser invadido. Mas acho difícil que consigam ganhar terreno por lá. Erdogan não daria espaço.

Mas nessa zona quem está mais ameaçado, com certeza, é Israel. O país está no meio do caminho do plano de expansão do Isis, e é o inimigo clássico contra o fundamentalismo Islâmico. Sem contar que atingir Israel é atingir os EUA.

Os europeus têm de temer e reforçar a defesa, sem dúvida. Mas dificilmente sofreriam uma invasão. Exceto o Chipre, que é uma ilha que fica espremida entre Síria, Líbano e Turquia.

As grandes potências têm de se preocupar com ataques internos, como foi o caso no Charlie Abdo em Paris. Temos de lembrar que existem grandes comunidades insatisfeitas de muçulmanos no Reino Unido, França, Espanha, Itália, Alemanha e Áustria.

E podem surgir pessoas recrutadas pelo Isis nesses países e causar[AW6] ataques para causar terror simplesmente. É uma forma de mandar o mundo ocidental ficar quieto.

Não quero alimentar xenofobia e causar estereótipos, acho esses discursos de ultra-direta[AW7] , que crescem em países como Alemanha e Dinamarca, sem sentido e contradizem até a base da economia desses países.

Nessa linha, os Estados Unidos também devem ficar de olho, ataques como a da Maratona de Boston podem ocorrer em diversas cidades ou aeroportos por lá.

· Mas qual seria a medida?

Mesmo sendo pacifista e condenando as ações bélicas que foram feitas no Oriente Médio nos últimos anos, acredito que os países ocidentais, representados pela ONU, têm que fazer um exército de defesa e travar combate direto com esse grupo terrorismo.

Uma coalizão com EUA, Inglaterra, Japão, Austrália, mais uns dois europeus, e necessariamente um ou dois países do Oriente Médio.

É importante ter países muçulmanos nessa coalizão, não só para demonstrar que o Isis não representa um pensamento único para todos os filhos de Alah, mas também por serem mais capazes para lidarem com situações locais, como língua, costumes, organização urbana, etc...

Vale ver o filme Sniper Americano, que mostra como os EUA bateram cabeça para ficar correndo atrás de terroristas no meio de cidades iraquianas.

Mas, jamais, ficar alimentando militarmente grupos rebeldes.

Isso sempre foi uma das maiores estupidez dos Estados Unidos. Alimentam militarmente um grupo rebelde, arrebentam aquele país numa guerra e depois simplesmente largam ao deus dará. Já fizeram isso no Afeganistão e deu no que deu.

Inclusive o Isis é filho do poder bélico destrutivo dos EUA. Destruíram o Iraque, eliminaram o inimigo que queriam, conquistaram rotas de petróleo e largaram o país às traças.

Precisa nesse momento que as Nações Unidas possam fazer um plano de reconstrução desses países e exercer poder local, com novas representações por, pelo menos, vinte anos.

Enfim, por mais que não queira, vejo que nos aproximamos de uma guerra entre o ocidente e esses extremistas misteriosos que vão do norte da África até o os limites do Oriente Médio.

E essa guerra pode ser grande e, até mesmo, motivo para tomada de decisões centralizadoras baseadas no medo e na intolerância.

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