O que é o Mito?

Ninguém pode dizer que seguiu o Mito, ou que votou no Mito, ou que conheceu o Mito pessoalmente. Mitos não se prestam a esse papel tão chinfrim

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Por Wanderley Anchieta

Como vivemos numa época desarrazoada em que se pune a liberdade de imprensa ou a de cátedra, que estão ambas, ou deveriam estar, asseguradas em nossa Constituição, vou começar esse breve ensaio citando um querido professor de filosofia, sem nomeá-lo, que me ensinou que a pergunta que baseia toda sua disciplina se encontra no: o que é (o ser)? Pois me apropriando dessa ferramenta poderosa, cujos preceitos sustentam ainda hoje o Ocidente, parafraseando Caetano em Alexandre, eu pergunto a você, caro leitor: você sabe o que é o Mito? Pois o mito é a História. É também o conjunto das histórias. O mito divide com o nosso brasileiríssimo causo muita coisa. E assim como o causo, o mito não carece de explicação lógica nem fonte. Como diria o mítico Chicó, de Suassuna, em Auto da Compadecida: "não sei, só sei que foi assim". E assim quando escuto na televisão que um homem nadou do Leme ao Pontal, e reconto isso a alguém, não demorará para que logo surja outrem que não só viu, como tem certeza que o homem nadou do Leme até o Guarujá. Já um terceiro dirá com mais certeza ainda que, na verdade, o mito nadou foi de costas e do Oiapoque ao Chuí. Ocorre que nem todo mito precisa ser heroico. Há mitos e mitos. Outro mito aquático, o boto, nos impressiona pela via da curiosidade. Como aquele boto se transfigura em homem para enganar e engravidar as mulheres? Existe também o mito das sereias que encantam os marinheiros e depois os comem no jantar. Pois os mitos podem aludir ao suspense, ao terror. Os mitos proferem muito ao humano e advém do humano.

Afinal, dei muitas voltas e nada esclareci: o que é o mito? O mito é, basicamente, uma história. O bom mito é aquele que encanta, que apavora, que suscita alguma sensação ou meditação em nós. Aquiles é o protótipo perfeito do mito bem moldado. Ele sabia que iria morrer, em face de revelação profética. Somente se fosse à Tróia, em específico.  Porém, quem se lembraria de Aquiles se ele não seguisse sua índole tão bem orquestrada? Pois é o calcanhar que o eternizou. Cabe ressaltar também que os mitos não precisam ser eternos. Muitos vão e vem. Mas o quanto mais bem desenhados, maiores chances de retornarem. 

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Dentre tantos adjetivos que propus para arrematar o que é o mito, resta saber então: e o que não é o mito? Em poucas palavras, o mito simplesmente não é real. Ele é parte do da virtualidade infinita que compõe nosso imaginário. A uma criança é lícito se confundir até certo ponto. Pois, dito claramente: o mito é uma invenção humana. Uma história que "foi assim" e ponto. O mito pode advir do cotidiano e ser incrementado pela criatividade. Agora, afora psicóticos e pessoas sob fortes alucinógenos, ninguém em sã consciência poderia ver mito com seus próprios olhos e tocá-lo. Ou se vê o mito perfilar na tela do cinema ou se toca no homem que fingiu ser o mito, o ator.

Por isso, idem, ninguém pode dizer que seguiu o Mito, ou que votou no Mito, ou que conheceu o Mito pessoalmente. Mitos não se prestam a esse papel tão chinfrim. Um outro detalhe que desabona o Mito que nos aflige: o Mito não é monotemático. Pode até ser, mas esses são os malfeitos em covis obscuros, não dimensionados, estruturalmente falhos e dignos, costumeiramente, e talvez, às notas de rodapé. Os mitos bem montados em versos geniais como Aquiles de Homero, são frutos de muito engenho criativo. Por outro lado, o Mito forjado às pressas não tem muito espaço para se expandir, posto que não tem traços o suficiente para se expressar. Em suma, sua história é a tal ponto compactada que a ela só lhe cabe a repetição. Esse tipo de Mito é incapaz de evoluir, pois estruturalmente falho, impróprio ao consumo, sem ordem de grandeza que lhe permita seguir ao conflito, ao clímax e a resolução. 

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Por isso posso afirmar sem receio que o Mito que nos assola é um falso mito. É um mito que não tem substância. Não tem dimensões que lhe tematizem, ou seja, não possui caráter nem capacidade de segurar uma história. Nem, muitíssimo menos, uma História. Esse Mito que nos empurraram é um pastiche, a cópia da cópia de um invento fracassado. O leitor que tenha me acompanhado até aqui pode, agora, questionar esse humilde escritor: por que, ora, ainda seguem o Mito? Lhes respondo sem assombro que não seguem o Mito. Seguem um mito. A diferença, como o Diabo, mora nos detalhes. O mito é singular, incomparável. Um mito é indefinido, como seu artigo. Esse mito que seguem é um pacote de mentiras, um misto de negacionismo com “terraplanismo” de ideologias rasas. Por isso, um pastiche. Um conjunto de fragmentos, todos de força negativa. O que lhes propunha o Mito antes? O que lhes propõe hoje? Pois é. Um bom mito evoluiria conforme sua história lhe permitisse num herói grandioso. Não é nosso caso.

Esse ensaio foi pensado como parte de uma série quinzenal: os próximos lidarão, por exemplo: Como se constrói um bom mito? Como se desconstrói um mito qualquer? Para que servem os mitos?

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