O que está em jogo, mais uma vez
A reindustrialização precisa ser estratégica. Não se trata de proteger tudo nem de abrir tudo, mas de escolher setores de maior complexidade
Se o Brasil quer sair do ciclo histórico de dependência e crescimento curto, precisa de um projeto de desenvolvimento sustentado no tempo. Celso Furtado já dizia que o "subdesenvolvimento" não se cria e nem se supera sozinho; ele se reproduz porque há interesses que o mantêm. Romper com isso exige direção política, capacidade de planejamento e disposição para enfrentar resistências.
Os governos Lula e Dilma foram os únicos que, desde a redemocratização, agiram na reconstrução dessa agenda: a retomada do papel do Estado, a reativação de instrumentos de investimento público, a valorização do mercado interno e a tentativa de reorganizar políticas industriais.
Isso não aconteceu em terreno neutro. Sempre que o país ensaia sair de uma posição subordinada, a reação aparece. Pressões econômicas, resistência política, disputas institucionais e um ambiente de instabilidade constante dificultam qualquer estratégia de longo prazo. A história recente mostra isso com clareza.
É nesse ponto que a diferença se estabelece. Há uma linha de ação que busca reconstruir capacidade produtiva, reduzir desigualdades e recuperar algum grau de autonomia econômica, em contraste com outra que quer tornar o país vulnerável e dependente.
É preciso reconhecer que existe uma disputa real sobre o futuro do país e que, dentro das opções concretas, há projetos que ao menos tentam enfrentar a estrutura do atraso, enquanto outros simplesmente se beneficiam dela.
No fim, a escolha não é entre perfeição e erro. É entre avançar com contradições ou permanecer no mesmo padrão de dependência. E, para quem entende que o Brasil precisa de direção, a continuidade de uma agenda que busque desenvolvimento com autonomia deixa de ser apenas preferência política e passa a ser uma aposta estratégica.
Se o Brasil quiser, de fato, deixar de ser um país que administra crises e passar a ser um país que constrói futuro, precisa assumir um projeto claro de transformação produtiva, e sustentar esse projeto mesmo quando ele incomoda interesses poderosos. Não há saída técnica que dispense decisão política. Um plano nacional de desenvolvimento com metas mensuráveis, prazos definidos e coordenação entre Estado, setor produtivo e sistema científico é o ponto de partida.
Mas esse caminho não se dá em terreno neutro. Há forças que atuam para manter o Brasil no lugar em que sempre esteve: na base da cadeia, exportando pouco valor e importando inteligência. Grandes corporações internacionais operam segundo seus próprios interesses, e esses interesses nunca coincidem com a construção de autonomia em países periféricos. Ao mesmo tempo, há dentro do país uma camada que prefere essa dependência: lucra com a intermediação, com a renda financeira, com a importação fácil, e chama isso de modernização. Não é. É acomodação lucrativa, traição e cumplicidade com a sabotagem.
O subdesenvolvimento não é uma etapa, é uma estrutura que se reproduz porque serve a alguém. Essa estrutura não se desmonta com boas intenções nem com políticas fragmentadas. Ela exige enfrentamento direto e continuidade.
Houve tentativas de deslocar esse padrão. Nos governos de Luiz Inácio Lula da Silva e Dilma Rousseff, iniciativas voltadas à ampliação do mercado interno, ao fortalecimento de setores produtivos e ao uso mais ativo do Estado foram colocadas em prática. Essas iniciativas encontraram resistência econômica, política, jurídica e midiática. Quando um país ensaia sair da posição subordinada, a reação aparece.
Reorientar a política econômica para o investimento produtivo significa reduzir o custo do capital para quem produz, ampliar financiamento de longo prazo e usar instrumentos públicos com critério. O apoio tem que vir com exigência. Quem não investe, não inova, não aumenta produtividade, perde o benefício. Sem isso, o Estado deixa de ser indutor e vira patrocinador de ineficiência.
A reindustrialização precisa ser estratégica. Não se trata de proteger tudo nem de abrir tudo, mas de escolher setores de maior complexidade: tecnologia, saúde, energia, e construir neles capacidade competitiva. Inserção internacional não é submissão, é estratégia. O país precisa exigir contrapartidas, sobretudo transferência de tecnologia, como os governos Dilma e Lula fizeram no caso da compra dos caças Gripen.
Foi assim que economias como a Coreia do Sul avançaram: incentivo com cobrança, abertura com estratégia.
O governo Lula também sabe que nada disso se sustenta sem enfrentar a desigualdade. Não apenas por dever por moral, mas também por lógica econômica. Sem ampliar renda e consumo das camadas mais amplas, o mercado interno não sustenta uma economia sofisticada. Isso exige uma estrutura tributária mais equilibrada e investimento sério em educação e formação técnica.
Há também o problema interno das desigualdades regionais. Um projeto nacional que não integre economicamente todas as regiões é, na prática, um projeto incompleto. Investimento em infraestrutura, logística e polos produtivos nessas áreas não é política assistencial, é expansão do próprio país. Essa lógica já orientou iniciativas como a SUDENE e continua atual.
A própria sociedade entra em disputa nesse processo. O apoio popular não é automático nem permanente. Ele depende de resultados concretos e de percepção de direção. Quando a economia desacelera ou a narrativa de crise ganha força, esse apoio se fragmenta. Sem base social estável, qualquer projeto de longo prazo fica exposto. A plutocracia parasita aposta na descontinuidade e age nesse sentido.
A questão não é técnica. É política. Desenvolver significa escolher, investir, exigir e, principalmente, enfrentar. E enfrentar implica conflito com interesses externos, com setores internos e com a própria cultura de curto prazo que domina o país.
Sem essa disposição, o ciclo se repete: ensaio de mudança, reação organizada, recuo e retorno ao ponto inicial. Com ela, abre-se a possibilidade de algo diferente, não rápido, não fácil, mas estrutural. Porque soberania econômica não se concede. Se constrói, com custo, persistência e direção clara.
* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.
