O que muda nos EUA nos 100 dias do governo Biden?

"No último dia 30 de abril completou-se o centésimo dia desde a posse do novo presidente dos EUA, Joe Biden, do Partido Democrata, que venceu as eleições por mais de sete milhões de votos, contra o fascista Donald Trump, dos Republicanos. Já é tradição que se faça um balanço desses primeiros dias. Pretendo aqui neste pequeno ensaio, fazer uma análise interna e externa sobre o que muda nos EUA, em seus aspectos positivos e negativos", escreve Lejeune Mirhan

Joe Biden
Joe Biden (Foto: KEVIN LAMARQUE/REUTERS/Direitos )
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A ação política adotada por um presidente dos EUA afetam o mundo inteiro. Apesar de o mundo não ser  mais unipolar, a força do imperialismo estadunidense segue muito grande. Eles têm sido uma potência econômica e militar, a maior do mundo em toda a história. Nenhuma outra potência chegou perto desse poderio. E não estou falando de tecnologia. A Inglaterra foi uma grande potência militar, desde os séculos XVI e XVII, ela dominava quase todos os mares e oceanos. Atualmente, os EUA, com as suas sete frotas navais, estão presentes nos três Oceanos e nos chamados Sete Mares.

Antes de seguir na análise deste pequeno ensaio, quero deixar claro uma concepção que venho expressando já há algum tempo. Trata-se de afastar a visão – equivocada de meu ponto de vista – que tanto Trump quanto Biden são a mesma coisa. Nada mudará pois “são farinha do mesmo saco”. A mesma “porcaria” como já ouvi diversas vezes. Não estou de acordo com essa visão, profundamente antidialética. E nem estou de acordo com a visão de outros que, ainda que reconheçam alguma mudança, dizem que elas são insignificantes. Não são. E demonstrarei no texto a seguir.

As principais mudanças nos seus aspectos Internos

1. Biden é um presidente católico

Biden é o 46º presidente dos Estados Unidos. Entre todos esses, apenas dois deles foram católicos praticantes: John Fitzgerald Kennedy e Joseph Robinette Biden Jr. Todos os demais foram protestantes das várias correntes do protestantismo tradicional. O fato de ser católico nos EUA, que é uma minoria e, sob o papado de Francisco, não é pouca coisa. Isso é um aspecto que é preciso registrar. Sabemos as divergências históricas entre o catolicismo antes da reforma luterana e calvinista com os cristãos católicos. Havia questões que discutiam o lucro e os juros. Não por acaso, um dos nomes da Sociologia moderna – Max Weber – discutiu questões relacionadas com o capitalismo e o protestantismo no processo de construção dos Estados Unidos. 

2. Biden: centro ou centro-esquerda?

Para se viabilizar nas primárias, Joe Biden derrotou o candidato da ala mais à esquerda do Partido Democrata. E foi apresentado aos eleitores e ‘pintado’ pela imprensa, como um homem de centro. Da posse para cá, a imprensa tem revisto o seu conceito sobre a posição política do presidente. Ela começa a dizer, em função das suas primeiras medidas, que ele seria um pouco mais à “esquerda”, vamos usar o termo centro-esquerda, ainda que talvez não chegue a tanto.

Mas, confesso que estou profundamente surpreso com muitas decisões que ele tem tomado. Relembro aos que me acompanham, que tenho dito e publicado em vários dos meus livros de Geopolítica Mundial e quero registrar neste segundo aspecto. O presidente dos Estados Unidos tem uma dupla função: a primeira é de presidente de um país ou uma federação de países, portanto, tem que zelar pelas questões internas. Mas, também ocupa uma outra função: a de chefe de um império mundial, que pretende continuar a ser hegemônico no mundo, mas não consegue mais, em função da contestação do seu poder global, feito especialmente pela Rússia e pela China. Estou entre os analistas internacionais que reconhecem uma grande mudança na correlação de forças na geopolítica mundial atual.

Assim é a geopolítica mundial. O Brasil e a Índia também faziam esse enfrentamento, mas saíram do cenário e ficaram subordinados ao imperialismo estadunidense, não se retirando do bloco dos BRICS, mas afastando-se dele. O que restou ao imperialismo? Eles vão fazer de tudo para destruir a Rússia e a China, porque querem reinar sozinhos. É quase como se desejassem a volta de um mundo unipolar. Mas não vão conseguir, pois isto já não é mais possível.

Outra coisa que tenho falado muito, da forma mais clara possível. Em que mundo nós vivemos hoje? Vivemos numa transição do mundo unipolar (de dezembro de 1991, quando acabou a União Soviética), para o multipolar. Nem o mundo unipolar existe mais e nem o mundo multipolar já está consolidado. Por isto é uma transição. E, a história comprova que em todas as transições: de sistema, de governo, de modo de produção, a terra treme. Ocorrem muitas tensões no mundo, como a que estamos vivendo hoje.

Se o imperialismo estadunidense, em seu aspecto externo, avança e consegue impor restrições, embargos, sansões, fazer com que a Rússia e a China recuem para voltar ao velho imperialismo, como os dialéticos devem interpretar essa situação?

Do meu ponto de vista, isto é um mau sinal para o mundo. Cada vez que o imperialismo avança, é um sinal de que a luta dos povos pela sua independência e soberania nacional não está sendo suficiente para conter esse avanço. A sua função, como chefe de império, é fazer o avanço. Se puder destruir os dois “inimigos”, ele vai fazer. Portanto, se estiver conseguindo isto, é uma má notícia para os povos em luta do mundo inteiro.

E, exatamente ao contrário, se ele não faz essa ofensiva, por exemplo, deixar de aplicar sansões, não quer dizer que ele tenha um bom coração. Em sentido inverso, é a prova de que, o avanço da luta dos povos e o fortalecimento da China e Rússia, estão surtindo efeitos, a ponto de fazer o imperialismo recuar.

Tente imaginar o mundo sem as mil bases militares estadunidenses espalhadas pelos cinco continentes. Seria possível imaginar isso hoje? Eu não vou mais presenciar a retirada e o desmonte de todas essas bases, devido à minha idade já avançada. Será que minha filha ou meus netos presenciarão isto? Quantos anos duraram os impérios Romano, Inglês, Otomano, Árabe? Quantos anos durará o império estadunidense?

O imperialismo dos Estados Unidos se consolida exatamente quando? Foi depois da Conferência de Bretton Woods, em 1944, quando o dólar passa a ser a moeda única. O comércio internacional só se faz com o uso dessa moeda. Qual era a anterior? A Libra Esterlina, que entrou em decadência, pois a Inglaterra estava perdendo a hegemonia, entrando em declínio depois da 1ª Guerra.

Portanto, estamos falando de uma potência imperial que não tem cem anos. Portanto, para vermos este mundo consolidar a multipolaridade, temos que ver também o Brasil voltar ao BRICS, pois venceremos a eleição em 2022 com o presidente Lula. Também a Índia deverá derrotar o governo atual, voltando e fazendo com que os BRICS voltem a ser o que foi na época da Dilma. Aquele que enfrentava os Estados Unidos. Hoje, quem enfrenta mais frontalmente é apenas a Rússia e a China. Porque o “B” e o “I” saíram. Não acabou os BRICS, mas enfraqueceu. Esses dois países não saíram do bloco, mas não desempenham o mesmo papel.

Quero listar a seguir sete aspectos importantes que vejo como positivos do ponto de vista da política interna dos Estados Unidos. E, não me ocorreu nenhum aspecto profundamente negativo que devesse mencionar.

Saúde

Biden é um apoiador da ciência, colocou em uma sala contígua ao seu gabinete, na Casa Branca, o cientista Anthony Fauci, considerado um dos maiores sanitarista e virologista do mundo. Ele chefia a Comissão Nacional de Combate à Pandemia.

Ele havia prometido vacinar nos 100 primeiros dias, 100 milhões de pessoas. A vacinação nos EUA começou timidamente em dezembro, ainda na gestão Trump. Ele procedeu a uma revisão dos números e já vacinou 200 milhões, mais do que a metade da população. Este é um aspecto positivo importante que precisa ser registrado. E tem como meta, concluir a vacinação, ao menos a população adulta, nas próximas semanas. Isso não é pouca coisa. As infecções e as mortes diárias caíram drasticamente.

Biden fez com que os EUA voltassem à OMS. Logo nos primeiros dias de governo, Biden recolocou os Estados Unidos na Organização Mundial da Saúde – OMS, que tem um orçamento limitado: US$ 1 bilhão ao ano. Os países pagam uma cota-parte. O Brasil está devendo para esses órgãos multilaterais da ONU, dos quais somos membros, mais de R$ 10 bilhões, até para a própria ONU. 

Corremos o risco de termos suspensa a nossa participação nas votações, por inadimplência. Isto, porque somos “presididos” por uma pessoa que é contra o multilateralismo, assim como Trump também o era. O governo brasileiro não se retirou da OMS, mas parou de dar a sua contribuição. E, do orçamento total, a cota-parte dos Estados Unidos é de 1/4 (US$ 250 milhões). E isto se deu no meio de uma pandemia mundial, onde a necessidade de verbas era bem maior. Sabemos que Biden e os Democratas em geral são tradicionalmente multilateralistas.

“Ranking” dos presidentes dos EUA

Quero lhes apresentar aqui dentre os 46 presidentes dos EUA, de acordo com os meus critérios e análises, os quatro melhores. Eu estudo os presidentes dos EUA desde Roosevelt que venceu sua primeira eleição em 1932. Eu estabeleci uma ordem dos quatro melhores: 

1º] Abraham Lincoln (imbatível), que era dos Republicanos que, na época, era progressista, hoje é de extrema direita. Que eu saiba, é o único dos presidentes que leu Marx. Tanto que, quando foi reeleito em 1864, em meio à guerra civil feita contra a secessão, que o Sul, chamado de Confederados, porque eram contra a abolição da escravatura e ele era favor, aconteceu o primeiro Congresso da Associação Internacional de Trabalhadores (I Internacional), cuja estrela principal presença era ninguém menos que o velho e bom barbudo do século XIX, Karl Marx. Ele aprovou uma Moção de Apoio à Reeleição de Lincoln, que ele mesmo escreve e manda para o presidente. O grande historiador marxista, Leo Huberman, que escreveu A história da riqueza do homem, onde há uma nota de rodapé, mencionando que Lincoln leu Marx. Não foi um marxista, mas tem origem proletária, foi lenhador.
2º] Franklin Delano Roosevelt, era Democrata. Eleito em 1932, foi reeleito em 1936, 1940, 1944 e teria sido reeleito em 1948 se não tivesse morrido no final da guerra em 1945, sendo substituído por Harry Truman. Nunca é demais relembrar que ele foi eleito com apoio da central única sindical dos EUA, que é a AFL-CIO (American Federation Labor-Congress Industrial Organization), então dirigida por anarquistas e comunistas. Ele que foi o presidente mais popular da história dos Estados Unidos. Depois dele, acabaram com reeleições ilimitadas.

Conta-se que na primeira reunião que Roosevelt teve com a direção dessa central, antes de sua posse, em janeiro de 1933, ela teria entregue a ele um documento com todas as suas reivindicações. Ao que Roosevelt teria lido, concordado integralmente. Mas, devolveu o documento para a direção e disse-lhes: “estou de acordo com tudo isso... me façam executar essas reivindicações”, ou seja, ele pediu que fosse deliberadamente pressionado para que tivesse força para cumprir esse programa avançado. 

Nunca é demais relembrarmos nestes momentos que recapitulamos a história que, em nosso Brasil, os 12 anos que tivemos um governo popular e democrático, de Lula e Dilma (primeiro mandato), jamais organizamos o povo e jamais pressionamos o NOSSO governo para que atendesse as nossas justas reivindicações. Ao contrário. Dizia-se que não podemos pressionar o governo. Quantas das maiores e mais importantes lideranças populares e sindicais de nosso campo foram para o governo e preferiram o conforto dos gabinetes às agruras das lutas e do sol das planícies? 

3º] Woodrow Wilson está na minha terceira posição, cuja ranking, claro, é aleatório e tenho certeza que se isso fosse pedido para outros estudiosos, provavelmente outra teria sido a classificação. Wilson, dizia-se à época, era um visionário. Ele era do Partido Democrata, de formação religiosa presbiteriana. Formado em história e ciência política pelas Universidades de Princeton e John Hopkins, recebeu o Nobel da Paz em 1919 pela sua atuação na I Guerra. 

Foi exatamente daí que vem o seu destaque internacional. Na Conferência de Versailles, convocada para impor sanções aos derrotados da I Guerra Mundial – Alemanha, Impérios Austro-Húngaro e Otomano, ele apresentou a famosa carta de 14 pontos, cuja essência era “Por uma paz sem vencedores”. Mas, as potências vencedoras – França e Inglaterra – acataram apenas quatro desses 14 pontos, o que fez com que os EUA não assinassem o acordo de “paz”, que levou a, 20 anos depois, à II Guerra Mundial, em 1939. Wilson era visto como um ‘idealista” e um “visionário” para a sua época. 

4º] James (Jimmy) Earl Carter. Tenente da Marinha dos EUA, do Partido Democrata e Nobel da Paz de 2002, Carter entrou para a história por ter conseguido a paz entre israelenses e egípcios, com relação à devolução da Península do Sinai por Israel para o Egito, território tomado na guerra dos Seis Dias de 1967. Carter foi um defensor dos palestinos e dos direitos humanos. 

Eu digo, sem medo de errar, que Joe Biden está disputando para entrar neste bloco dos quatro melhores. Provavelmente desalojando Wilson ou Carter. Atentem que gente do calibre de Clinton e Obama não figuram nessa seleta lista. E quando falo “melhores” presidentes, quero dizer – à exceção de Lincoln – menos ruins. 

Imposto sobre riqueza

Os números e índices ainda não estão totalmente divulgados, mas ele está aprovando um aumento de impostos para a parcela mais rica da população. Não se trata da classe média. Em seu discurso do dia 28 de abril, ele fala que os sindicatos criaram a classe média dos Estados Unidos. Ele apoia e incentiva a organização sindical. Isso é uma concepção interessante. E também vai aumentar o imposto das grandes empresas com o objetivo de criar lá, o que o Lula criou no Brasil, o Bolsa Família.

Imigração

Existem dez milhões de clandestinos no país, que eram chamados de estrangeiros. Veja como as coisas mudaram. Agora são tratados como “não-cidadãos, em busca da cidadania”. Biden está tomando medidas para legalizar todos. Isto não é pouca coisa. Trump os estava expulsando. O atual presidente suspendeu todas as deportações em andamento, assim como suspendeu a construção do famigerado muro que separa os Estados Unidos do México. 

Pacotes de ajuda econômica

Biden propôs três pacotes de ajuda financeira aos pobres, às empresas, às instituições desde que tomou posse em 20 de janeiro. Todos eles somados perfazem US$ 7 trilhões de dólares (mais ou menos 40 trilhões de Reais). Trata-se da maior ajuda econômica de um governo. Não se compara ao que Franklin Delano Roosevelt (FDR, que era a sigla do seu nome que ele usava), não se compara com o que ele fez entre 1933 e 1937, chamado de New Deal.

Biden já disputa hoje para ser o maior keynesiano depois de Roosevelt. Eu não tenho todos os elementos para comprovar o que vou dizer agora, mas com os poucos que tenho, posso afirmar que ele poderá ficar com esse título, de maior keynesiano da história do país.

Para termos uma ideia, a crise de 2008, quebrou o Lehman Brothers, o City Bank, quebrou a GM, o governo dos EUA teve que intervir e jogar muito dinheiro para salvar essas empresas e dar uma ajuda aos mais pobres. Dizia-se delas To big to fail (Muito grande para falir). O presidente à época era George Bush Filho, um grande neoliberal que teve que deixar cair a máscara.

Quando a crise chegou, o bom e velho Estado teve que socorrer os “necessitados”. Ele jogou na economia US$ 800 bi, comprando ações para evitar a falência dessas empresas gigantes. A GM era a maior empresa do mundo na época, chegando a ter um milhão de empregados. Hoje tem cerca de 200 mil. A maior do mundo hoje é a Amazon, que dizem ter mais de um milhão. 

À época o pacote não chegou a um trilhão. Mesmo corrigindo monetariamente, não chega perto dos sete trilhões de dólares que Biden aprovou em 100 dias e ninguém sabe o que será daqui para a frente. Lembrando que são eles que imprimem o dinheiro. A ajuda foi para todos. Todo cidadão recebeu em sua casa um cheque de US$ 1,400 (sete mil e quinhentos reais). E, em muitas casas, três ou mais pessoas receberam o cheque assinado por John Biden.

Aqui quero registrar uma questão, em função de artigos que tenho lido partindo de jornalistas econômicos e economistas (em especial Míriam Leitão e Aloísio Mercadante). Fala-se que Biden vai enterrar o neoliberalismo (capitalismo financeiro). Não estou entre os que pensam dessa forma. Injetar grandes recursos públicos na economia, não faz um país antineoliberal. De meu ponto de vista, para podermos afirmar que o neoliberalismo entrou em decadência e poderá vir a ser derrotado, temos que presenciar uma forte regulação dos capitais financeiros, voláteis e especulativos. O que ainda não vemos nos EUA.

Pauta ambiental

Biden colocou nos EUA a pauta ambiental na ordem do dia. Nenhum presidente anterior havia feito isto com tamanha intensidade e vigor. O país nunca teve um ministro do meio ambiente, que lá é chamado de Secretário. Agora tem um. Que é chamado o “Czar do Clima”, que é ninguém menos que John Kerry, que foi secretário de Estado do Obama, por oito anos, quando ele era vice-presidente. Ele estava ao lado do Biden na chamada Cúpula do Clima realizada nos dias 22 e 23 de abril.

Isto é positivo e ele promete, para o povo dos Estados Unidos – e está no seu programa de governo –, que vai mudar a matriz energética de energia suja (gerada a partir do hidrocarboneto e carvão) para a energia limpa, que são as energias eólica, nuclear, solar, marés etc. Ele afirma que até 2030, alcançará este projeto. Imagino que espera ser reeleito em 2024 e, em 2028, eleger a sua vice, Kamala Harris, a que poderá ser a primeira mulher e negra, presidente dos Estados Unidos. Por isso ele pode se dar ao luxo de fazer planos para mais nove anos. 

É secundário o presidente da maior potência dizer que vai ficar livre da dependência da indústria do petróleo? Não é. A indústria do petróleo é o que move o mundo hoje. O cartel da OPEP tem um poder muito grande. Eles ditam o preço. Se a Arábia Saudita fechar as torneiras, diminuindo a produção, o preço sobe. Se ela abre, o preço cai. O faturamento mundial desse setor é equivalente ao da indústria farmacêutica. 

Reforma carcerária

Biden está procedendo a uma grande reforma carcerária. Ele suspendeu todas as terceirizações dos presídios nos Estados Unidos. Ele, praticamente, estatizou todos os presídios, que voltaram a ser públicos e federais. Existem muitos, mas a maioria é terceirizada para empresas que ganham por preso que toma conta.

Salário mínimo

O último aspecto a ser registrado entre as bondades de Biden, pois mexe com os trabalhadores, é a questão do salário mínimo nacional. Hoje, o salário mínimo está fixo em US$7.25 a hora. Na campanha ele prometeu aumentar para 15 dólares, que é equivalente a 106% de aumento. Isso ele ainda não conseguiu, porque há resistências, claro, do empresariado, do Congresso. Apesar de ter maioria de Democratas, eles estão a serviço do capitalismo e não dos trabalhadores.

No dia 28 de abril ele assinou uma ordem executiva aumentando o salário mínimo dos trabalhadores terceirizados do governo federal dos atuais U$10.95 para os sonhados U$15.00. Lá tudo é pago por hora. Se você trabalhar 12 horas, vai ganhar o equivalente. Se quiser trabalhar de segunda a segunda, não quiser ter folga, ganha todas as horas que trabalhar. É completamente diferente do Brasil. Esses trabalhadores devem ser milhares ou talvez, milhões. Isso significou um aumento de 73%.

Desta forma, a promessa de campanha de US$15.00 para todos, ele ainda não conseguiu cumprir. Mas estes que ganharam esse aumento, se trabalharem somente oito horas por dia, 22 dias por semana, receberiam um salário mínimo de US$2,640.00. Pelo câmbio atual, equivale a R$14.500,00. Ou seja, 11 vezes o salário mínimo brasileiro.

Aspectos da Política Externa

Aqui residem os maiores problemas. Vou destacar três aspectos positivos, três pendências e dois problemas não solucionados. Pretendo discorrer da forma mais dialética possível, sem deixar de registrar os positivos e registrando tais aspectos, não me torna menos anti-imperialista do que sou.

Eu escrevi um longo ensaio publicado em 21 de novembro de 2020, quando Biden já havia sido proclamado presidente, onde analisei em detalhes o futuro de sua gestão. A maior parte das questões que levantei, vem se confirmando ao longo dos 100 dias.

Aspectos positivos

O clima

Se esse tema é importante internamente, ele o é também, externamente. A pauta ambiental voltou para a geopolítica mundial. Já se discute a questão ambiental em todos os países. Quando Al Gore era vice de Clinton, colocou-se a pauta ambiental na ordem do dia, mas logo ela saiu. A Cúpula do Clima convocada por Biden, realizada entre os dias 22 e 23 de abril, que não foi um evento oficial da ONU, foi muito importante. Biden escolheu 40 países a seu critério. Mas, ela foi importante ter acontecido. A Rússia e China confirmaram presença só na véspera, mas fizeram discursos importantes e contundentes, mandando recados diretos.

O objetivo dos Estados Unidos, na verdade, é fazer um movimento para emparedar a Rússia e a China e dizer que eles poluem mais do que os Estados Unidos. É, portanto, um movimento para pressionar. Não tem problema, não vai dar em nada. Eles saberão enfrentar isto. Mas, há aspectos muito interessantes e positivos. E Biden reafirmou em seu discurso na abertura da Conferência, que, os Estados Unidos vão buscar a matriz energética limpa até 2030. E também eles vão contribuir como puderem no aspecto internacional.

As petroleiras estão muito preocupadas. Porque, quanto mais diminui a dependência do petróleo, muito menos elas ganham. Mas, nunca vai chegar a zero, porque existem muitos produtos como isopor, nafta, querosene de aviação etc., que dependem do petróleo. 

Uma das primeiras medidas adotadas por Biden no início da gestão, foi colocar os Estados Unidos de volta no Acordo do Clima de Paris, do qual Trump também tinha saído. Temos que registrar a suspensão do oleoduto que vem do Canadá e era muito criticado por diversas nações indígenas por onde ele cruzava seus territórios e criticado também por ambientalistas. 

Retirada das tropas do Afeganistão e Iraque

O Afeganistão é a mais longa ocupação militar de uma potência a um outro país, na era moderna, feita pelos EUA. São 20 anos ocupando militarmente aquele pequenino país. Os Estados Unidos não têm tradição de ocupar para colonizar, como fizeram a Inglaterra, Portugal, Espanha em seus passados coloniais. 

Mas, por outro lado, eles promoveram mais de cem invasões e guerras contra dezenas de países, mas eles não ocuparam esses países. Mas, nem precisa, pois eles têm lá seus representantes no governo. Este aqui em nosso Brasil, que se apresenta como nosso presidente (sic) é representante dos Estados Unidos, mesmo o candidato dele tendo perdido as eleições. Somos hoje subordinados ao imperialismo.

O Afeganistão foi ocupado em outubro de 2001, logo depois do ataque às Torres Gêmeas em 11 de setembro. Agora em outubro completará 20 anos. A partir de sábado, 1º de maio, as tropas começaram a ser retiradas. Eles já tiveram 120 mil soldados, hoje ficaram apenas oito mil que, até setembro, irão embora.

Yankees go home, “Ianques vão para casa”. É um apelo, tragam nossas tropas de volta, a qual Biden atendeu a este reclamo. Há uma associação nos Estados Unidos que se chama VFP, Veterans For Peace (Veteranos pela Paz). A grande reivindicação deles é para trazerem todos os soldados e desmontarem as mil bases. Eles não são saudosistas. Pegaram as medalhas que ganharam no Vietnã e jogaram na porta do Capitólio, da Casa Branca. Há grandes manifestações contra a guerra e pela paz, são muito combativos. Ele vai retirar as tropas também do Iraque, que tem um número menor, cinco mil soldados e cinco bases militares (a sexta foi inteiramente destruída por ataque iraniano em janeiro de 2020), como retaliação à morte do general Qaseem Suleimani.

Reconhecimento do genocídio armênio

É o terceiro e último grande aspecto positivo que não tenho como deixar de reconhecer, que é o reconhecimento por parte do governo dos Estados Unidos, do que ficou conhecido como Genocídio Armênio. Ele tem uma data simbólica: 24 de abril de 1915. Portanto, completou 106 anos.

Eu e vários autores, preferimos chamar esse evento de Genocídio Cristão, porque mataram cristãos armênios, assírios e gregos ortodoxos. Assírio é uma etnia, não existe mais o Estado assírio, mas existe o povo assírio. Três milhões de pessoas foram assassinadas pelo Império Otomano, que é a Turquia hoje. Pelos turcos, que perseguiam cristãos.

Biden fez questão de anunciar, no sábado, dia 24, depois de 106 anos, o reconhecimento desse genocídio. Apenas 30 países reconhecem o genocídio na atualidade (1). A Turquia faz de tudo, pressiona governos para que não reconheçam. Com o reconhecimento pelos Estados Unidos, eu indago: quantos países poderão acompanhar esse posicionamento? Isso irritou profundamente a Turquia e seu presidente Recep Tayip Erdogan. 

Eles se diziam muçulmanos mas, no Islamismo, não se aceita a perseguição dos cristãos, ao contrário, o verdadeiro muçulmano tem o dever primordial de proteger os cristãos e os judeus, que o Alcorão chama de os povos do livro (a Bíblia, a Torah e Velho Testamento) que o Islamismo recepcionou. Proteger sinagogas e igrejas é dever básico dos muçulmanos. Os turcos que fizeram essa barbaridade, não estavam sendo muçulmanos naquele momento.

Eu, particularmente, tenho uma relação especial com esta causa. Sou neto de refugiados, cristãos ortodoxos da Igreja Syrian Ortodoxa de Antioquia. A minha avó tinha a mãe armênia e o pai assírio. Nasceu na cidade de Diyarbakir, hoje situada na Armênia. O meu avô, era de pais assírios. Ele tinha quatro anos de idade, quando saiu com seus sete irmãos, fugindo da Grande Síria, da cidade de Mardin, em 1900. Se não fizessem isso, eles morreriam. 

O massacre não foi só em 1915. Ele começou em 1895. Meu avô nasceu em 1896. As matanças estenderam-se até 1923, quando se cria a Turquia formalmente, que é reconhecida pelo mundo pelo tratado de Lausane. Seu líder era Mustafa Kemal, apelido era Ataturk que na linguagem turca significa “o pai dos turcos”. Ele é mais conhecido pelo apelido do que pelo nome. A Turquia aceitou conviver com os cristãos.

A minha avó, com sete anos de idade (em 1914), teve seus pais assassinados pelos Otomanos. Ela fugiu com seus tios para a cidade de Alepo, na Síria ficou em orfanato até os seus 14 anos, quando veio para o Brasil, conheceu meu avô e se casaram. Ela quase não lembrava e falava dos seus pais. Os imigrantes foram para Estados Unidos, Índia, Argentina, vieram para o Brasil. Houve a diáspora assíria no mundo. Eles não contavam muito essas histórias para os seus filhos e netos. (2)

As três grandes pendências

Sei que podem existir muito mais, mas as mais importantes dizem respeito ao posicionamento dos EUA sobre as relações com Cuba, o acordo nuclear com o Irã e a questão da paz na Palestina. Não inclui aqui a Venezuela porque ele suspendeu todas as sansões, exceto a que proíbe a venda de petróleo. 

Cuba

Biden foi vice-presidente de Barak Obama que, em 2016 restabeleceu as relações diplomáticas com Cuba e reabriu a Embaixada em Havana. Ainda que ela nunca tenha sido formalmente fechada, mas funcionava apenas como um pequeno escritório de representação. Em 20 de março de 2016, Obama desembarca no Aeroporto Internacional de Havana Jose Martí. É lá que está a frase na parede: “Hoje milhões de crianças dormirão nas ruas do mundo inteiro, nenhuma delas é cubana”.

O ex-presidente passou três dias na capital, hospedou-se no hotel que foi o QG da Revolução de 1º de janeiro de 1959, quando Fidel, Raul, Camilo e Che Guevara, dos quais só Raul Castro ainda está vivo, chegaram em Havana e estabeleceram um governo que ainda não era socialista. Obama ficou lá e apertou a mão de Raul Castro, mas não suspendeu as sansões.

A pior de todas as sanções é aquela decorrente de uma lei aprovada no Congresso dos Estados Unidos, de 1996, sancionada por Clinton, mas não é de sua autoria, mas de dois deputados republicanos de extrema-direita, Helms e Burton, que é o nome da lei (Helms-Burton). É uma lei draconiana que pune todos os donos de navios que aportarem em um porto cubano, para carregar ou descarregar mercadorias, estão proibidos de aportar nos Estados Unidos. Uma lei ilegal que fere a territorialidade. Mas, eles se acham donos do mundo e se julgam no direito de impor uma lei como esta.

Biden só poderá revogar essa lei enviando um projeto de lei ao Congresso que a revogue. Obama não fez e não sei se Biden fará. Mas, pelo menos Obama restabeleceu relações, aumentou o número de vistos, autorizou os voos fretados. Voos regulares Obama não chegou a autorizar. Então, adotou uma série de medidas positivas, mas ainda pesam algumas sansões impostas a partir da crise dos mísseis, em 1962. Portanto, há 59 anos Cuba vive sob o cerco da maior potência econômica do mundo.

O que fez Trump em 20 de janeiro de 2017 quando tomou posse? Ele não rompeu relações, nem fechou a embaixada. Mas, só isto. Todos os outros benefícios e avanços ele revogou. Voltou muitos passos atrás.

Existe a expectativa que Biden retorne ao patamar em que Obama deixou. Nem se discute se ele vai revogar a lei Helms-Burton, mas se voltar ao que era no final do governo Obama, já terá sido muito positivo. Esta é a primeira pendência. No meu ensaio de 21 de novembro eu digo que ele deve voltar a esse patamar (3).

Irã

A segunda grande pendência é sobre o Acordo Nuclear assinado pelo Irã com as cinco nações que compõem o Conselho de Segurança da ONU: EUA, França, Inglaterra, China e Rússia, mais a Alemanha, portanto, é um acordo assinado que tinha sete assinaturas. Um acordo muito positivo, assinado em 2015, na gestão Obama. Em janeiro de 2017, quando Trump toma posse, os EUA se retiram desse acordo. No entanto, ele continuou em andamento. Há agora uma expectativa de que os Estados Unidos voltem ao acordo nuclear. Não o fez ainda.

Naquele mesmo ensaio eu digo que há uma grande tendência de que ele volte. Mas, é uma pendência. É um assunto ainda não resolvido. Eles (EUA) fazem uma onda dizendo que tem que rediscutir o acordo. Mas, eles têm que voltar de forma unilateral e, sendo membro do acordo, pode discutir o que quiser.

Aliás, no final de abril houve uma conferência na Áustria, dos seis membros desse acordo. Debateram aplicação e outros assuntos. O Irã mudou o enriquecimento. Quando Trump saiu do acordo, eles aumentaram o enriquecimento do urânio de 3,96, que é o estabelecido no acordo, para 20%. Não tem nada demais, ninguém faz bomba com este índice. Seria preciso 90%. O Irã não tem tecnologia para isto e também não quer fazer a bomba. Apesar de toda a imprensa afirmar o contrário.

Israel tem de 100 a 300 ogivas, ninguém sabe ao certo, porque é clandestino e ninguém fala nada sobre isso. Israel está pressionando para que os Estados Unidos não voltarem. Questiona-se se os Estados Unidos mandam na política externa de Israel ou vice-versa. Tenho livros em inglês que tratam sobre isto. A conclusão é de que Israel manda na política dos EUA. Porque o sionismo lá é muito forte (4). A minha opinião é de que o Biden vai voltar.

Aconteceu um incidente no dia 12 de abril, em que a usina nuclear iraniana de Natanz, a maior do país, sofreu um ataque cibernético de hackers que desligou a central elétrica que fornece energia para a usina. Não apagou o reator, mas apagou a usina, por algumas horas. O Irã acusou que foram hackers israelenses a serviço da Polícia Secreta de Israel, o Mossad.

O Irã sabe o que fala. Nos últimos 10 anos, o país teve cinco cientistas nucleares importantes assassinados por agentes do Mossad. Isto está bem documentado. No dia do ataque, o Irã decidiu elevar o enriquecimento a 60%, que ainda está muito longe dos 90%. Mas, isto é um sinal, dizendo que estão propositalmente, rompendo a cláusula mais importante do acordo, porque os Estados Unidos, unilateralmente, saíram e ainda não voltaram.

Palestina

A terceira e última pendência é a questão palestina. Eu acho que, por exemplo, nas últimas eleições Netanyahu conseguiu eleger só 30 dos 120 deputados, e precisa arrumar mais 31 para formar governo. Acho que não formará. Se ele não conseguir, o direito de formar um novo governo passa para o segundo colocado, que elegeu apenas 17, mas tem muito mais capacidade de chegar aos 61 do que o primeiro.

Biden não vai dizer que tem essa ou aquela preferência. Ele não é tosco como o que se apresenta como nosso presidente, que fez campanha para Donald Trump. O filho ia para os Estados Unidos com boné e camiseta do Trump. Depois das eleições ele chegou a afirmar que houve fraude. Portanto, não reconheceu a vitória do Biden.

Ninguém faz isso. A Merkel, o Makron, jamais dariam uma declaração de apoio explícita. E o Biden não vai fazer isso. Mas, eu tenho convicção de que ele torcerá contra o Netanyahu, que é um sionista, com o qual os católicos têm profundas divergências, mas ele não vai dizer isto. Agora, em política vale a prática ou, usando a famosa frase de Mao Tse-tung: “a prática é o critério da verdade”. Ele, na prática, podia tomar já uma decisão, nos 100 primeiros dias, de iniciativas que ajudassem no processos de paz, que, nos 12 anos de gestão Netanyahu, a palavra processo de paz não foi pronunciada.

A mesa de negociação, que sempre houve, apesar dos conflitos, não existiu nessa gestão. Talvez, o Biden esteja sendo cauteloso e aguardando o resultado do novo governo para tomar uma medida. Esta é uma pendência triste, porque a causa mais justa da humanidade hoje é a do povo palestino. É a mais longa ocupação de um país sobre outro povo, que chamava Palestina, não chama mais. Ela não existe no mapa, só existe Israel. 

E é uma causa justa. E, quem diz isto não sou eu que sou militante da causa palestina há 39 anos, desde 1982. Quem diz isto é o Xi Jinping, presidente de um país de 1,5 bilhão de habitantes, falando para um povo de 15 milhões de pessoas. “A causa mais importante hoje para a humanidade é a causa palestina” disse Xi.

Os graves problemas

Finalizo registrando os dois problemas mais graves na política externa dos Estados Unidos, sob meu ponto de vista, claro, que ofuscam todas as eventuais medidas positivas adotadas por Biden nesses seus primeiros cem dias de governo, porque são questões centrais da política externa.

A governança por sanções

Todas as sanções adotadas pelos EUA nos últimos tempos, desde Bush, são ilegais, unilaterais, não se apoiam no direito internacional, porque não foram aprovadas nos fóruns oficiais das Nações Unidas. Eles usam as sanções por meio de seu poderio econômico o contra o Irã, Cuba, China, Venezuela, Síria e tantos outros países. E não sancionam apenas países. Sancionam empresas, instituições, personalidades, autoridades governamentais dos países sancionados. Bloqueiam contas de pessoas físicas, mas também de bancos desses países. Um verdadeiro absurdo.

Os Estados Unidos compram da China, por ano, 500 bilhões de dólares e só vendem 100 bi. Um déficit enorme, mas eles sancionam. Como diz meu amigo do Canal 247, é como se você tivesse um restaurante e seus maiores clientes fossem os chineses e você os trata mal. Eu não conheço empresário que faça isto.

Aliás, no dia 27 de abril, Paulo Guedes conseguiu em uma frase curta, proferir as duas das maiores ofensas que já foram feitas em dois anos e quatro meses deste desgoverno, tanto pelo próprio que se apresenta como presidente, quanto pelos seus filhos que atacaram a China várias vezes. Mas, Guedes conseguiu ser pior. Ele disse que o vírus foi criado pela China em laboratório e que a Coronavac que 80% dos brasileiros tomam, que o mundo inteiro está usando, não tem nenhuma eficácia. É uma barbaridade.

Emparedamento da Rússia e da China

A segunda questão é a tentativa de Biden de emparedar Rússia e China, elevando ainda mais as tensões que já estão insuportáveis. A pergunta é: será que Biden quer a volta do mundo unipolar? Se quer, não vai conseguir. E, se quiser, será muito ruim. Espero que não o queira. Acompanharemos os desdobramentos de suas atitudes e represálias. As sanções impostas particularmente à Rússia vão dificultar a instalação de um diálogo proposto pelo próprio Biden ao presidente Vladimir Putin. 

Conclusões

Não sabemos para onde pode evoluir as tensões geopolíticas que presenciamos diariamente na mídia. Não sabemos se, em algum momento desse tensionamento, poderá haver diretamente uma guerra, um conflito armado de grandes proporções, em especial entre os EUA e do outro a China, Rússia e seus aliados. Esperamos que não.

O conceituado professor de ciência política de Harvard, Graham Alisson aposta que sim. Em longo estudo que ele produziu, analisando as 12 situações principais existentes desde o século XIV, onde uma nação em desenvolvimento crescia de tal maneira que afrontava a nação hegemônica, em oito deles houve guerras as mais sangrentas e duradouras possíveis. Apenas quatro ficaram sem guerra direta, mas chegaram perto disso (1).

De minha parte, arrisco dizer que caminharemos para um mundo multipolar, ainda cheio de tensões, mas sem um conflito mundial armado nos moldes do que foram as duas grandes guerras. Arrisco uma aposta na consolidação de um mundo com vários polos de poder regional e sem guerras, com ampla liberdade de comércio. Para isso, os EUA teriam que recuar em suas pretensões hegemônicas. Teriam que desmontar todas as suas bases militares. Poderá demorar muito? Sim, mas chegaremos lá. 

Nota

1. Recomendo a leitura necessária a quem estuda geopolítica mundial do excelente livro Destined for war: can America and China escape Thucydides’s trap? Editado pela Marines Book, Houghton Mifflin Harcourt de Boston, New York, com 364 páginas.
* Sociólogo, professor universitário (aposentado) de Sociologia e Ciência Política, escritor e autor de 14 livros, é também pesquisador e ensaísta. Atualmente exerce a função de analista internacional, sendo comentarista da TV dos Trabalhadores, da TV 247, da TV DCM, dos canais Outro lado da notícia, Iaras & Pagus, Rogério Matuck, Contraponto, Democracia no ar, Conexões, todos por streaming no YouTube. Publica artigos e ensaios nos portais Vermelho, Grabois, Brasil 247, DCM, Outro lado da notícia, Vozes Livres, Oriente Mídia e Vai Ali. Agradeço à Ademir Munhóz pelo trabalho de transcrição de meus programas internacionais ([email protected]). Todos os meus livros podem ser adquiridos na Editora Apparte no endereço: www.apparteditora.com.br e as compras podem ser parceladas em até seis vezes sem juros. O meu site pessoal é www.lejeune.com.br, onde estão todos os meus artigos, a maioria de política internacional e também política nacional e Sociologia brasileira. Recebo e-mails no endereço: [email protected] Meu Zap é +5519981693145. Meus endereços nas redes sociais são: Facebook: www.facebook.com/lejeune.mirhan; Instagram: @lejeunemirhan; Twitter: @lejeunemirhan; Youtube: lejeunemirhan; VK: Lejeune Mirhan (vk.com).

Notas:

1. O presidente Emmanuel Macron instituiu o dia 24 de abril como “Dia da Evocação do Genocídio Armênio”, em 2019, irritando a Turquia.

2. Estou pesquisando a migração assíria, para um livro que já está bem adiantado: A imigração assíria para o Brasil, especialmente para Corumbá, minha terra. Foram em torno de 100 imigrantes, que tiveram 155 filhos nascidos em Corumbá, que geraram 350 netos. Só em torno de 50 continuam vivos e eu entrevistei 30 deles, mas pouco sabem dessa história de seus pais. A maioria dos netos também não sabe. Alguns se dizem árabes. Nós fomos arabizados. Somos uma etnia dentro da Síria, que o governo reconhece. Falamos o árabe porque nossa língua original era o aramaico que não é mais uma língua corrente;

3. Este meu texto pode ser lido neste endereço: <https://bit.ly/35XT1jS>.

4. Me refiro ao livro  intitulado The Israel Lobby, escrito por John J. Mearsheimer & Stephen M. Walt, editado pela Farrar, Straus and Giroux de New York em 2006, com 484 páginas.

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