O que permanece de hegemônico ainda dos Estados Unidos na América Latina ou o "American way of life"
Os instrumentos fundamentais para a afirmação da hegemonia norte-americana foram dois: o automóvel e Hollywood
O automóvel, como a maior mercadoria norte-americana, impôs, junto com ele, um modo de vida. Permitiu que as pessoas pudessem se tornar independentes do transporte coletivo e sair para onde bem entendessem, exercer a liberdade de ir e vir, quando desse na telha. Um marco na liberdade individual, um valor fundamental do modo de vida norte-americano.
Foi uma mercadoria tão fundamental que, quando os alemães e os japoneses passaram a disputar com os Estados Unidos, fizeram carros melhores. Mas fizeram carros, entraram no american way of life.
O outro instrumento da hegemonia norte-americana foi Hollywood. Os filmes de cowboy são películas em que os “mocinhos” expropriam terras dos “bandidos”. Aqueles são os brancos; estes são os peles-vermelhas, os indígenas.
As películas de guerra são sempre contra povos não brancos, contra povos da periferia. Nunca contra os alemães, por exemplo, porque, embora tenham cometido barbaridades, são brancos como eles.
O único filme feito nos Estados Unidos sobre o nazismo foi feito por Charles Chaplin, inglês, que não pôde lançar o filme lá; teve que sair do país — O Grande Ditador.
A esses instrumentos se agrega o consumismo no estilo shopping center, com a globalização das marcas. Jovens dizem que “vão ao Mac”, não dizem o que vão fazer, o que vão comer. São atraídos pela marca.
O estilo de consumo norte-americano se globalizou e é, hoje, ainda um fator que conta a favor da hegemonia cultural norte-americana. Os shopping centers na China são maravilhosos, mas as mesmas marcas estão presentes lá.
Nos planos econômico e tecnológico também, os Estados Unidos continuam a ser uma potência, mesmo que a China cresça muito economicamente e já os supere no plano tecnológico. Mas, no plano cultural, a força norte-americana ainda se faz sentir.
O american way of life sobrevive, resiste. Por isso também a luta ideológica, a disputa cultural, é decisiva na disputa hegemônica no mundo contemporâneo.
Não basta ter um projeto econômico e tecnológico para o futuro da humanidade. Disso, de alguma forma, já dispomos. Mas, no plano das ideias, dos valores, da disputa cultural, o desafio é muito grande.
Eu já fiz a crítica ideológica do que significam os shopping centers, mas eles não param de se disseminar por todo o mundo, difundindo um estilo de consumo fundado nas marcas, em detrimento dos centros tradicionais das cidades, do pequeno comércio, até mesmo dos cinemas de rua, com a proliferação das salas de cinema — em enorme quantidade em cada shopping center — que privilegiam os filmes de maior audiência.
Por isso, reitero a disputa decisiva no plano cultural, dos valores, dos estilos de vida.
* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.
