O que Putin realmente disse a Biden

"Os líderes russos e norte-americanos atiraram suas respectivas luvas retóricas, mas ninguém realmente espera que a Rússia invada a Ucrânia", diz Pepe Escobar

www.brasil247.com - Vladimir Putin e Joe Biden
Vladimir Putin e Joe Biden (Foto: KEVIN LAMARQUE | Crédito: REUTERS)


Por Pepe Escobar, para o Asia Times

Tradução de Patricia Zimbres, para o 247

Então, o Presidente russo Vladimir Putin, sozinho, e o Presidente dos Estados Unidos Joe Biden, cercado de assessores, por fim realizaram sua videoconferência secreta, que durou duas horas e dois minutos – com os tradutores colocados em salas separadas. 

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Essa foi a primeira conversa séria entre os dois desde que eles se encontraram pessoalmente em Genebra em junho último - a primeira cúpula Rússia-Estados Unidos desde 2018. Para a opinião pública global, levada a crer que uma "guerra" na Ucrânia era praticamente iminente, o que fica é nada mais que uma enxurrada de invencionices. 

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Comecemos então com um exercício simples, focando o assunto principal da videoconferência, a Ucrânia, contrastando as versões da Casa Branca e do Kremlin sobre o que transpirou. 

Casa Branca: Biden deixou "claro" que os Estados Unidos e seus aliados irão responder com "medidas drásticas, econômicas e de outros tipos" a uma escalada militar na Ucrânia. Ao mesmo tempo, Biden conclamou Putin a desescalar na região de fronteira com a Ucrânia e a "retornar à diplomacia".  

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Kremlin: Putin propôs a Biden anular todas as restrições ao funcionamento de missões diplomáticas. Ele observou que a cooperação entre a Rússia e os Estados Unidos ainda se encontra em estado "insatisfatório". 

Ele pediu que os Estados Unidos não jogassem "sobre os ombros da Rússia a responsabilidade" pela escalada da situação na região da Ucrânia. 

Casa Branca: Os Estados Unidos irão ampliar a ajuda militar à Ucrânia caso a Rússia tome medidas contra aquele país. 

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Kremlin: Putin disse a Biden que a Rússia tem interesse em obter garantias com obrigatoriedade legal proibindo a expansão da OTAN em direção ao leste e o emprego de sistemas de ataques ofensivos nos países vizinhos da Rússia.

Casa Branca: Biden não se comprometeu com Putin a deixar a Ucrânia fora da OTAN. 

Minsk: ou vai ou racha 

Agora, o que realmente importa: a linha vermelha. 

O que Putin, muito diplomaticamente, comunicou à Equipe Biden, sentado à mesa deles, é que a linha vermelha da Rússia - a Ucrânia fora da OTAN - é inamovível. O mesmo se aplica à transformação da Ucrânia em um centro do império de bases do Pentágono e em hospedeira de armamentos da OTAN. 

Washington pode negá-lo ad infinitum, mas a Ucrânia é parte da esfera de influência russa. Se nada for feito para forçar Kiev a respeitar o Acordo de Minsk, a Rússia irá "neutralizar" a ameaça em seus próprios termos.

A causa remota de todo esse drama, ausente da narrativa da OTAN, é simples: Kiev, simplesmente, se recusa a respeitar o Acordo de Minsk de fevereiro de 2015. 

Nos termos desse acordo, Kiev deveria dar autonomia a Donbass, por meio de uma emenda constitucional denominada de "status especial", conceder anistia geral e estabelecer diálogo com as repúblicas populares de Donetsk e Lugansk.

Ao longo dos anos, Kiev cumpriu menos que zero desses compromissos - enquanto a máquina midiática da OTAN continuava  tecendo a falsa narrativa de que a Rússia estaria violando Minsk. A Rússia não é sequer mencionada (itálicos meus) no Acordo.

Moscou sempre respeitou o Acordo de Minsk, que estabelecia que Donbass era uma parte integrante e autônoma da Ucrânia. A Rússia, insistentemente, sempre deixou bem claro que jamais teve o menor interesse em promover mudança de regime em Kiev. 

Antes da videoconferência, o porta-voz do Kremlin, Dmitry Peskov, observou: "Putin ouvirá com muito interesse as propostas de Biden sobre a Ucrânia". A Casa Branca nunca chegou a propor a Kiev a obediência ao Acordo de Minsk. Portanto, independentemente do que Biden tiver dito, Putin, de forma pragmática, adotará uma postura de "ver para crer", para em seguida agir de forma compatível.

Durante os preparativos para a videoconferência, o tema mais eletrizante era a tentativa de Washington de inviabilizar o Nord Stream 2 caso a Rússia "invada" a Ucrânia. 

O que nunca é dito nessa narrativa da "invasão", repetida ad nauseam por toda a OTAN, é que os falcões que supervisionam os imensamente polarizados Estados Unidos, país corroído em seu cerne, precisam desesperadamente de uma guerra naquilo que o analista militar Andrei Martyanov chama de "o país 404", um jogo de palavras com a mensagem de erro que aparece quando uma página ou link online não existe.

O ponto crucial da questão é que os vassalos europeus não têm permissão para ter acesso à energia russa: apenas ao gás natural liquefeito americano. 

E foi isso que levou os russofóbicos mais extremados de Washington a partir para ameaças de aplicar sanções ao círculo mais próximo a Putin e aos produtores de energia russos, e até mesmo de desligar a Rússia do SWIFT. Tudo isso, supostamente, para evitar que a Rússia "invadisse" o país 404. 

O Secretário de Estado norte-americano, Tony Blinken – presente à videoconferência – disse há alguns dias, em Riga, na Letônia, que "se a Rússia invadir a Ucrânia", a OTAN vai responder "com todo um leque de medidas econômicas de alto impacto". Quanto à OTAN, ela não tem nada de agressiva: trata-se apenas de uma organização "defensiva". 

O Chanceler russo Sergey Lavrov, em inícios de dezembro, no Conselho Ministerial da OCSE reunido em Estocolmo, já advertia que a "estabilidade estratégica" da Europa estava se "erodindo rapidamente". 

Lavrov afirmou: "A OTAN se recusa a examinar nossas propostas quanto à desescalada  das tensões e a prevenção de incidentes arriscados...  Ao contrário, a infraestrutura militar da aliança vem se aproximando cada vez mais das fronteiras russas … O cenário pesadelesco de confronto militar está de volta". 

Não é de admirar, portanto, que o cerne da questão, para Moscou, seja a transgressão de limites perpetrada pela OTAN. A narrativa da "invasão" é uma crassa fake news vendida como fato. Até mesmo William Burns da CIA  admitiu que os serviços de inteligência dos Estados Unidos não tinham dados para "concluir" que a Rússia, obedientemente, irá atender as preces da indústria da guerra e, finalmente, invadir a Ucrânia.
Isso, entretanto, não evitou um pasquim sensacionalista alemão de apresentar um retrato completo da blitzkrieg russa, quando o que realmente acontece é que os Estados Unidos e a OTAN tentam forçar o "país 404" a cometer suicídio atacando as repúblicas populares de Donetsk e Lugansk.

Aquela garantia  legalmente obrigatória 

É inútil esperar que a videoconferência produza resultados práticos. Uma vez que a OTAN continua atolada em crises concêntricas, o atual nível de alta tensão entre a OTAN e a Rússia é  um presente dos céus, em termos de manter uma narrativa conveniente sobre um perigo externo eslavo, e também um bônus extra para o complexo militar-industrial-midiático-de inteligência-thintank.

A tensão continuará cozinhando em fogo baixo sem entrar em ebulição se a OTAN não optar por, de algum modo, avançar sobre território ucraniano. Diplomatas de Bruxelas costumam comentar que Kiev jamais será aceita como membro da OTAN. Mas se as coisas conseguirem piorar ainda mais, o país se tornará um daqueles parceiros especiais, um ator pária, desesperadamente pobre e faminto por território.  

A exigência de Putin de que os Estados Unidos – que  é quem manda na OTAN – ofereçam uma garantia por escrito que crie  a obrigatoriedade legal de que a aliança interrompa seu avanço a leste em direção à fronteira russa é o fator que vira o jogo, neste caso. 

Não há absolutamente nada que a Equipe Biden possa fazer: eles seriam comidos vivos pelo establishment da indústria bélica.  Putin estudou história e sabe que a 'promessa' de Papai Bush a Gorbachev sobre a expansão da OTAN foi apenas uma mentira. Ele sabe que os que mandam na OTAN jamais se comprometeriam por escrito. 

Isso dá a Putin todo um leque de opções de defesa da segurança nacional russa. Essa tal "invasão" é uma piada. A Ucrânia, apodrecendo de dentro para fora, consumida pelo medo, pelo ódio e pela pobreza, permanecerá em um limbo, enquanto Donetsk e Lugansk conectar-se-ão progressivamente à Federação Russa. 

Não haverá uma guerra da OTAN contra a Rússia: o próprio Martyanov demonstrou fartamente que a OTAN não aguentaria cinco minutos contra as armas hipersônicas russas. E Moscou irá se concentrar no que realmente importa em termos geoeconômicos e geopolíticos: solidificar a União Econômica (UEEA) da Eurásia e a Grande Parceria Eurasiana.

Este artigo não representa a opinião do Brasil 247 e é de responsabilidade do colunista.

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