O que resta da esquerda humanista?

Hoje, enfrentamos um grande desafio: Nossas sociedades podem funcionar democraticamente sem valores comuns? Parafraseando Jaurés que dizia "a coragem é ir ao ideal para entender o real", hoje podemos reafirmar que para entender o real não podemos nos desconectar do ideal

O que resta da esquerda humanista?
O que resta da esquerda humanista?

As experiências das esquerdas governamentais sempre tiveram um confronto entre aqueles que buscam rupturas com o modelo vigente e os que buscam soluções consensuais. Todavia, a esquerda não existiria sem suas tendências que alimentam o debate contraditório, o que é salutar para democracia. Entretanto, ao se apropriar do poder executivo a esquerda sempre se sentiu desarmada diante de um mundo cada vez mais globalizado e interconectado. Desarmada também, diante das relações complicadas do jogo de poder, aliás, esta questão deveria ser mais estudada pela esquerda...Os que passam a deter uma representação política deveriam se educar para o exercício do poder. Um jogo de poder é um comportamento pelo qual a pessoa que o exerce tenta ganhar controle sobre o outro, a fim de obter ou manter controle sobre ele. Todavia, fazer política não se limita a guardar o poder e sim de se colocar a serviço dos cidadãos e da coletividade. Na imaginação do povo, o poder deveria ser idealmente justo na busca pelo bem comum. A política é composta de interesses conflitantes. No entanto, se a política não oferece mais nenhuma possibilidade de sonhar e que seus governantes são incapazes de construir um novo modelo global de desenvolvimento humano e solidário, a democracia logicamente perde o seu sentido.

Talvez tenha faltado entre as diferentes tendências das esquerdas uma reflexão mais aprofundada sobre como governar dentro de uma economia de mercado dominado pelo mundo das finanças e pela ideologia neoliberal. Sabendo que esse modelo econômico neoliberal ao se impor mundialmente altera cada vez mais o equilíbrio de poder entre as classes dominantes e dominadas, mas também entre as frações de classes. Este modelo vai se afirmar como ideologia e remodela a vida humana e muda o lugar do exercício do poder. Para seus adeptos seria impossível de modelar uma sociedade de acordo com um ideal. Essa doutrina vai difundir no corpo social a competitividade, lucratividade e meritocracia que serão as palavras-chave do discurso formatado martelado durante décadas até ganhar a adesão da opinião pública.

O neoliberalismo como ideologia vê a competição como a principal característica das relações humanas. E argumenta que "o mercado" oferece benefícios que nunca poderiam ser alcançados por qualquer tipo de planejamento nacional. Além de considerar as instituições soberanas e o Estado providência como obstáculos às trocas econômicas e aos fluxos financeiros. De um modo frontal, ela afirma a supremacia da economia e do mercado sobre os valores humanos. No nível sociocultural, é uma ideologia individualista e hedonista que visa aumentar os direitos individuais. Valoriza o interesse egoísta em detrimento do dever coletivo e dos valores comuns. O egoísmo prevalece face à solidariedade. Ao apostar no individualismo essa ideologia retira a noção do dever coletivo e dos valores comuns.

Tanto o sistema econômico como a sua ideologia, não podem ser sustentáveis. Apresentam um grande risco de desestabilização da nossa sociedade. Torna-se imperativo mudar esse sistema e colocar o ser humano no centro de tudo. Tanto por razões éticas como por razões de sustentabilidade da nossa sociedade. Os poderes políticos podem e devem agir nessa direção. A esquerda humanista não deve perder seus valores face a essa ameaça, ela deve fazer a justiça prevalecer e levar a uma distribuição justa de bens materiais e morais. Deve permitir que todos tenham o mínimo para viver adequadamente. É isso que impede as pessoas de recorrer à violência quando se sentem injustiçadas.

Há muitas décadas que a forma de governar democraticamente para o povo se tornou prisioneira de uma governança global que redefine os cidadãos como consumidores, cujas prerrogativas democráticas são essencialmente através da compra e venda. No meu artigo publicado no Mediapart em 2016 e nos jornais brasileiros (Brasil247e Correio do Brasil), desenvolvi uma análise dessa ideologia. Sublinhei que a dignidade humana, a justiça social e o desejo de uma sociedade mais fraterna e mais preocupada com a ecologia estavam sendo ameaçadas por esse novo modo de vida.

Para entender o real não podemos nos desconectar do ideal.

Diante desta constatação, as esquerdas que assumiram o poder executivo tanto na Europa como na América Latina, em vez de construir uma nova visão de como fazer política e reforçar os mecanismos de participação para garantir uma governabilidade democrática, terminaram prisioneiros da governança mundial neoliberal. Infelizmente, os governantes de esquerda na Europa principalmente, não tiveram a coragem política e não foram capazes de desenvolver estratégias de ação política adaptadas aos desafios sociais e ecológicos do final do século XX e início do século XXI.

O desafio seria renovar seus programas e forjar uma alternativa política e econômica convincente, reforçando assim um novo modelo de desenvolvimento, dentro de uma concepção global e mais humana. Sem negar os esforços nas conquistas sociais, faltou um projeto de sociedade pautada nos valores de esquerda. Alguns criticavam que era difícil criar novas alternativas com as velhas receitas de esquerda. Agindo assim, em vez de construir novas proposições, eles enterraram seus ideais. O pior é que certos políticos ditos de esquerda, diziam que não existiam outras alternativas fora da globalização, esquecendo a doutrina que conduzia essa globalização! Muitos dos candidatos de esquerda faziam suas campanhas denunciando o neoliberalismo, porém quando eleitos, rapidamente se inclinavam às exigências dessa nova ideologia. O Estado se torna então impotente na defesa da garantia dos direitos sociais, e muitos políticos de esquerda não cumpriram com suas promessas eleitorais e terminaram também contribuindo para o descrédito da política.

Nunca é tarde para se fazer autocríticas e traçar novos rumos. Hoje, a angustia do futuro se alimenta dos problemas reais que todos sentem, o desemprego, o aumento de precariedade, a diminuição do poder de compra, o colapso da ascensão social, a aposentadoria, a falta de moradia para as camadas mais pobres, e todos os demais problemas causados pela globalização exclusiva. Nesse sentido, a esquerda humanista deve se unir para buscar respostas para essas angustias que hoje são também globalizadas! A esquerda deve ser articular mundialmente, voltar ao internacionalismo, no sentido de traçar estratégias conjuntas levando em conta essas mudanças, adaptar-se constantemente às novas demandas e aspirações de nossos concidadãos, orientando-as ao progresso, à justiça, à fraternidade, à igualdade.

Nesta perspectiva, o campo de ação da esquerda humanista resta enorme e exige de cada militante seja no Brasil ou na França um enorme desafio de retrabalhar novas ideias e de traçar novos rumos fora da ideologia neoliberal. Não é mais necessário fazer análises teóricas, já escrevemos muito e por vezes temos a tendência de fazer repetições como estou fazendo ao escrever este artigo. Basta contextualizar as realidades! Hoje estamos diante de um mundo caracterizado pela estagnação econômica, insegurança, instabilidade geopolítica e de mudanças climáticas. Daí não podermos agir localmente sem pensar globalmente! A esquerda deve ter respostas também as novas formas de opressões não somente de ordem econômica, outras formas de dominação estão presentes em nossas sociedades, são comportamentos racista, sexista, homofobia, além da ameaça que pesa sobre a destruição da espécie humana e do planeta. Hoje, esta constatação deve exigir muito mais solidariedade e encorajamento da esquerda na sua pluralidade e todas as organizações sociais para repensar o nosso futuro. É urgente buscar soluções diante do caos que nos encontramos, a ideologia neoliberal deixou as democracias cada vez mais vulneráveis. Uma minoria está governando o mundo sem legitimidade da maioria.

Hoje, enfrentamos um grande desafio: Nossas sociedades podem funcionar democraticamente sem valores comuns? Parafraseando Jaurés que dizia "a coragem é ir ao ideal para entender o real", hoje podemos reafirmar que para entender o real não podemos nos desconectar do ideal.

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