O que seriam “homens bons”?
Um largo segmento da população está muito incomodado com a possibilidade de meninos vestirem rosa e meninas azul
Sabe-se que há um ator famoso vendendo curso voltado para homens, supostamente para o resgate e reforço de valores ameaçados pelos avanços feministas das últimas décadas. Encorajado por conservadores e amplamente criticado por progressistas, o ator não se declara red pill, alegando não gabaritar o pacote completo da misoginia em tempos de Discord. No entanto, não se desprende de fórmulas limitadas e retrógradas, como a ideia de atribuir feminicídios e violência contra mulheres ao mero caráter individual de “homens maus”, desconsiderando aspectos sociais e culturais e os algoritmos que impulsionam ataques cada vez mais frequentes e alarmantes.
Não se trata sequer de distinguir “homens bons” de “homens maus”. Não avançaremos no problema com qualquer tipo de generalização fácil, com termos moralizantes, muito menos com distinções caducas sobre o que seriam características essencialmente masculinas ou femininas. Um largo segmento da população está muito incomodado com a possibilidade de meninos vestirem rosa e meninas azul, atordoado com novos costumes e com algumas conquistas obtidas pelo movimento feminista. Não são poucos os que se aproveitam, politicamente e/ou economicamente, desse vasto ressentimento.
É importante reconhecer que há, de fato, uma crise desses homens diante de mudanças que talvez não sejam muito fáceis de se processar. Até certo ponto é compreensível a perplexidade dos que estão perdidos com a flexibilização de papéis outrora mais definidos. Convém admitir a dificuldade, até mesmo frustrações e angústia, mas nada pior nesse cenário do que procurar conforto apenas na masculinidade, ignorando demandas legítimas das mulheres.
Vem sendo travada uma guerra cultural em torno de questões de gênero. Mais do que uma disputa entre homens e mulheres, trata-se de uma disputa por paradigmas, não sendo poucas as esposas tradicionais engrossando as fileiras dos defensores de um patriarcado que teima em não sucumbir. Na resistência, o que se propõe com mais consistência não seria uma vingança matriarcal, como na caricatura paranoica alucinada pelos que cobiçam manter privilégios intactos. Faltam nuances a quem porventura enxerga a disputa por esse prisma, daí a necessidade de intensificar o diálogo, sem descuidar de avanços concretos por meio de políticas públicas.
O patriarcado como instituição dominante, por mais que garanta privilégios aos que se adequam ao perfil valorizado, provoca muitos danos não apenas às mulheres e à população LGBT+, mas também aos homens heterossexuais. Não estou sozinho nessa reflexão, tendo aprendido com a feminista bell hooks. Com ela e outras pensadoras, compreendemos que nós homens somos socializados para sermos provedores que devem esconder qualquer vulnerabilidade e rechaçar demonstrações de sensibilidade, por serem considerados traços “femininos”. O desenvolvimento de nossa personalidade tende a ser tolhido, limitado por uma rígida performance de gênero que exige constante repressão e compromete a capacidade afetiva. Se compreendermos que tal aprendizado é de uma intensa violência psicológica, estaremos mais aptos a uma aliança consistente com as mulheres, contra um sistema que muito as oprime, e, ainda que de modo distinto, a nós homens também.
* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.

