O quintal para maldades
A história de intervenções externas, interesses econômicos e riscos à soberania latino-americana volta a se repetir sob novas formas no século XXI
Como escrevi em artigo recente, trabalhei para a Organização dos Estados Americanos (OEA), no período de outubro de 2005 a julho de 2007, no “Projeto Sistema Aquífero Guarani”, como Facilitador Local do Projeto Piloto Ribeirão Preto [1] e, juntamente com outros colegas da área, fizemos uma viagem de estudos na Venezuela.
Um dos objetivos dessa viagem foi o conhecimento, principalmente nos trabalhos de campo, de como os técnicos do Ministério de Energia e Petróleo Bolivariano da Venezuela utilizavam a aplicação de isótopos ambientais na datação de águas e que, mais adiante, pudessem ser aplicadas na datação das águas subterrâneas do Aquífero Guarani no Cone Sul. Sem dúvida, foi uma experiência muito rica em termos de conhecimento técnico-científico, além, é claro, do contato com as populações que viviam nos pueblos (pequenas vilas) ao longo dos trajetos percorridos em duas semanas em território venezuelano.
Num outro cenário, nunca é demais lembrar que a América do Sul sempre foi o quintal para maldades dos EUA. Para ficar em apenas dois exemplos dos anos 60/70 do século passado, podemos citar os golpes no Brasil e no Chile, que resultaram em conhecidas e sanguinárias ditaduras. A bola da vez agora é a Venezuela, com o claro objetivo, após a derrubada do governo, de se apropriar dos reservatórios de petróleo do país. Na manjada tática imperialista de domínio de territórios, primeiro são traçados os objetivos, geralmente econômicos, e depois a justificativa (desculpa esfarrapada) para a invasão. Várias outras ocupações espalhadas pelo planeta seguiram mais ou menos o mesmo roteiro.
Quem garante que Brasil, Colômbia e Cuba, não exatamente nessa ordem, não podem ser os próximos escolhidos para outra apropriação? Não nos esqueçamos de que o tresloucado louro presidente do império é empresário do setor imobiliário e, numa descarada grilagem global, todo terreno conquistado pode ser um bom negócio para ele, família e sócios.
Por aqui, no país da jaboticaba, com as eleições gerais que vão rolar neste ano de 2026, precisamos ficar espertos com os candidatos que gostam de fazer teatrinho para a mídia para ganhar as eleições. Após a redemocratização, com o fim do período ditatorial de 1964 a 1985, o primeiro e o penúltimo candidatos eleitos presidentes acabaram ganhando as eleições e levando sua história familiar para o governo, com o objetivo de transformar o bem público em bem privado. Que bacana, não?
“Quanto mais se teatralizar a política – quanto mais os cidadãos forem reduzidos a público, a espectadores das decisões políticas –, menor será o caráter político das políticas adotadas, menor seu compromisso com o bem comum, com a res publica que dá nome ao regime republicano. Em suma, quanto mais o governante concorrer para sua popularidade, menos será republicano, e maior risco correremos de que, esquecendo o público pelo publicitário, ele se aproprie da coisa comum para fins privados.” [2]
Um Bozosaurus rex [3] incomoda muita gente. Dois Bozosaurus rex incomodam muito mais. Até quando vamos aguentar? “A soberania nacional é a coisa mais bela do mundo, com a condição de ser soberania e de ser nacional” (Machado de Assis).
Fontes [1] “OEA, Guarani e Democracia”, artigo de Heraldo Campos, de 30/12/2025. https://cacamedeirosfilho.blogspot.com/2025/12/oea-guarani-e-democracia.html
[2] “A sociedade contra o social: o alto custo da vida pública no Brasil”. Livro de Renato Janine Ribeiro. São Paulo: Companhia das Letras, 2000, p. 105.
[3] “Bozosaurus rex”, artigo de Heraldo Campos, de 03/06/2025. https://cacamedeirosfilho.blogspot.com/2025/06/bozosaurus-rex.html
* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.

