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Washington Araújo

Mestre em Cinema, psicanalista, jornalista e conferencista, é autor de 19 livros publicados em diversos países. Professor de Comunicação, Sociologia, Geopolítica e Ética, tem mais de duas décadas de experiência na Secretaria-Geral da Mesa do Senado Federal. Especialista em IA, redes sociais e cultura global, atua na reflexão crítica sobre políticas públicas e direitos humanos. Produz o Podcast 1844 no Spotify e edita o site palavrafilmada.com.

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O racismo americano visto por Einstein; o gênio colocou o dedo na ferida

O pronunciamento de Einstein revelou como a América celebrava o gênio científico enquanto rejeitava sua denúncia frontal da desigualdade racial

Albert Einstein, a relatividade e o Brasil

Em 3 de maio de 1946, quando boa parte da elite intelectual americana já havia escolhido o conforto do silêncio, Albert Einstein decidiu romper a própria regra. Doente, cansado e avesso a cerimônias, aceitou falar em público não por vaidade acadêmica, mas por dever ético. Não foi em um templo consagrado do prestígio branco, mas na Lincoln University, a primeira universidade historicamente negra dos Estados Unidos.

A escolha do lugar foi um gesto político deliberado: Einstein não foi ali para ser celebrado, mas para confrontar uma ferida que a América insistia em chamar de passado. O consagrado cientista do século XX não ficou em cima do muro esperando que este se movimentasse.

Durante os vinte anos anteriores àquele dia, Einstein recusara sistematicamente convites para discursos universitários. Considerava títulos honorários ostensivos, solenidades previsíveis e celebrações vazias de pensamento crítico. Sua saúde se deteriorava, e o tempo lhe parecia precioso demais para ser gasto em rituais institucionais. Ainda assim, abriu uma exceção. Não por reverência acadêmica, mas porque compreendia que certos silêncios custam mais caro do que qualquer esforço físico.

Viajou de Princeton, em Nova Jersey, até as terras agrícolas do Condado de Chester, na Pensilvânia. Encontrou uma plateia de jovens negros de paletó e gravata, atentos, disciplinados, conscientes da raridade daquele momento. Iniciou sua fala abordando a teoria da relatividade, talvez para situar o público ou cumprir uma expectativa formal. 

Em seguida, deslocou o eixo do discurso com precisão cirúrgica. Passou da física à estrutura social americana. E foi direto ao ponto.

“A separação das raças não é uma doença das pessoas negras”, afirmou. “É uma doença das pessoas brancas. Não pretendo ficar quieto sobre isso.” Não havia metáforas atenuantes nem diplomacia calculada. Tratava-se de um diagnóstico moral exposto em voz alta, em um país que já demonstrava enorme habilidade em ocultar seus próprios mecanismos de exclusão.

A reação da grande imprensa foi reveladora. Jornais que celebravam Einstein como o homem capaz de decifrar os mistérios do universo ignoraram quase completamente suas palavras sobre o racismo americano. O discurso na Lincoln University foi tratado como irrelevante, periférico, inconveniente. Um historiador resumiria depois o episódio com precisão incômoda: aquelas declarações afundaram em um “buraco negro histórico”.

O silêncio, porém, não era novidade. Quatro meses antes, em janeiro de 1946, Einstein já havia publicado um ensaio contundente na revista Pageant, intitulado “A Questão Negra”. O texto era direcionado a um público majoritariamente branco e não oferecia zonas de conforto. Logo nas primeiras linhas, o autor deixava claro que escrevia como alguém que vivia nos Estados Unidos havia pouco mais de uma década, atento, alerta e consciente do quedo que testemunhava diante de seus olhos.

No ensaio, Einstein abandonou qualquer linguagem conciliatória. Escreveu como quem acusa, não como quem sugere. Identificou sem rodeios o limite estrutural da democracia americana: a igualdade funcionava como privilégio racial, não como princípio universal. 

Reconheceu o antissemitismo que conhecia pessoalmente, mas fez questão de situá-lo em perspectiva diante da violência sistemática imposta aos negros. Não se tratava de preconceitos equivalentes, mas de uma hierarquia organizada de desumanização. 

O ponto decisivo era outro: ao permanecer em silêncio, a sociedade branca naturalizava sua própria violência. Falar, para Einstein, não era um gesto retórico — era a única forma de não participar da engrenagem.

Ele avançou então sobre as raízes históricas do problema. Recordou que os ancestrais dos americanos brancos haviam arrancado negros de suas terras, explorando-os impiedosamente em nome de riqueza e comodidade. A escravidão não era um desvio moral isolado, mas a fundação econômica e simbólica de uma ordem social que insistia em se perpetuar por meio do preconceito moderno.

Durante décadas, essa dimensão do pensamento de Einstein permaneceu obscurecida. As fotografias de sua visita à Lincoln University raramente circularam. O cientista engajado não se encaixava na imagem confortável do gênio abstrato, isolado das contradições humanas. Esse apagamento começou a ser revertido apenas em 2006, quando os historiadores Fred Jerome e Rodger Taylor publicaram Einstein sobre Raça e Racismo, reunindo textos, documentos e imagens que revelavam sua atuação consistente em defesa dos direitos civis.

Desde então, novas gerações passaram a conhecer um Einstein menos conveniente e menos neutro. Um intelectual que compreendia que ciência sem ética é evasão e que a neutralidade, diante da injustiça, não é equilíbrio — é adesão silenciosa.

Hoje, aquelas palavras não ecoam como simples registro histórico, mas como acusação em aberto. O racismo não desapareceu; apenas trocou de linguagem, de plataforma e de legitimadores. Quando algoritmos reproduzem exclusões, quando lideranças normalizam o preconceito em nome da ordem ou da tradição, o silêncio volta a ser vendido como prudência. Einstein recusou essa farsa. 

Ao falar na Lincoln University, deixou um critério incômodo para qualquer intelectual: não basta explicar o mundo com precisão se se aceita que parte da humanidade continue fora dele. 

A omissão, ensinou ele, também escreve a história — quase sempre ao lado errado. depois de um mundo ter se mostrado indignado com a publicação do presidente norte-americano retratando o casal Obama como macacos, nada me parece mais oportuno que a repetida leitura desse artigo.

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.