O recado da Praça Vermelha

"O presidente da Rússia, Vladimir Putin, fez um apelo à unidade nacional para enfrentar os grandes desafios e ameaças com que o país se defronta. E enviou um sinal ao mundo, principalmente à superpotência americana, de que desempenha e pretende seguir desempenhando um papel de protagonista na cena internacional", escreve José Reinaldo Carvalho, editor internacional do Brasil 247

Parada da Vitória na Praça Vermelha em Moscou, 24 de junho de 2020
Parada da Vitória na Praça Vermelha em Moscou, 24 de junho de 2020 (Foto: Sputnik)
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Por José Reinaldo Carvalho, do Jornalistas pela Democracia - "É impossível imaginar o que teria acontecido no mundo se o Exército Vermelho não tivesse vindo em sua defesa". Pronunciadas em tom enfático perante 15 mil militares na manhã desta quarta-feira (24), em pleno verão moscovita, em uma Praça Vermelha engalanada, as palavras do presidente russo revestem-se de profundo significado.

O acontecimento é habitualmente comemorado a cada 9 de Maio, Dia da Vitória, mas neste ano foi adiada devido à pandemia de Covid-19. 

Putin pediu que o povo russo relembre os ingentes sacrifícios das gerações passadas durante a Grande Guerra Patriótica (1941-1945) e tenha sempre presente que foram os povos soviéticos os que pagaram o maior preço da luta contra o nazifascismo, a maior ameaça à humanidade na primeira metade do século 20. Ao exaltar a façanha da União Soviética, o líder russo enfatizou a importância de "proteger e defender a verdade" sobre aquela guerra. 

"Sempre vamos lembrar que o nazismo foi derrotado pelo povo soviético", disse Putin. "O povo soviético pôs fim ao Holocausto, salvou o mundo do fascismo".

O presidente observou que, depois de defender sua própria terra, os soldados soviéticos "continuaram a lutar". "Eles libertaram os Estados europeus dos invasores, puseram fim à terrível tragédia do Holocausto, salvaram o povo da Alemanha". 

Putin não deixou de frisar a importância da aliança antifascista e recolheu o ensinamento da história. "Apenas juntos podemos proteger o mundo de novas ameaças perigosas", asseverando que a Rússia está aberta ao diálogo e à cooperação com outros países. 

O mandatário falou o óbvio, por isso mesmo poderá ter causado estranheza e assombro nas forças obscurantistas, reacionárias e recalcitrantes quando se trata de encarar as verdades históricas. 

Mas as verdades históricas precisam ser sempre lembradas para que os acontecimentos trágicos jamais se repitam . E para que permaneça vivo na memória dos povos o espírito de resistência e luta que caracterizou a União Soviética e a façanha libertadora dos povos que constituíram aquele grande e poderoso país socialista. 

Os povos da União Soviética pagaram o mais terrível preço em vidas humanas e prejuízos materiais, com a morte de 27 milhões dos seus cidadãos, incluindo 7,5 milhões de soldados. 

As vitórias do Exército Vermelho nas históricas batalhas de Moscou (outubro de 1941 a janeiro de 1942), Stalingrado (agosto de 1942 a fevereiro de 1943), Kursk (entre a primavera e o verão de 1943) e Berlim, na primavera de 1945 permanecerão indelevelmente marcadas na memória da humanidade, como o tributo dos povos soviéticos para a causa da libertação.

A vitória sobre o nazifascismo foi fruto também da união dos povos e das forças democráticas no âmbito de cada país e da ação política e militar de uma ampla aliança internacional, de que fizeram parte a União Soviética, o Reino Unido e os Estados Unidos.

Mas há quem faça a leitura enviesada do discurso de Putin na comemoração do Dia da Vitória, atribuindo-lhe caráter eleitoreiro em face do referendo constitucional marcado para 1º de julho próximo. Pretende-se que Putin está jogando com o fervor patriótico que se mantém aceso quando ocorrem celebrações como esta. Seria uma cartada para manipular o sentimento popular, em um momento de evidentes dificuldades socioeconômicas no quadro da pandemia da Covid-19 que afetou imensamente a Rússia. Sobretudo, acusa-se Putin de arquitetar a sua unção como "ditador", ao postular o fim da limitação dos mandatos presidenciais. 

Não há dúvidas de que a afirmação dos valores patrióticos pode exercer influência no eleitorado e favorecer as emendas constitucionais propostas por Putin. Mas não foi este o aspecto principal. 

Essencialmente, o mandatário russo fez um apelo à unidade nacional para enfrentar os grandes desafios e ameaças com que o país se defronta. Decerto, a realização deste objetivo poderá ser mais factível na medida em que o apelo à unidade inclua medidas progressistas e gestos não apenas simbólicos para com os comunistas, força atuante no país. 

Igualmente, a Rússia envia um sinal ao mundo, principalmente à superpotência americana, de que desempenha e pretende seguir desempenhando um papel de protagonista na cena internacional, no novo quadro geopolítico de multipolaridade que vai sendo configurado em meio a contradições e conflitos.  

Os Estados Unidos já captaram a mensagem da Rússia e desde há algum tempo esboçam reação. O chefe da Casa Branca, Donald Trump, anunciou que os EUA provavelmente deslocarão para a Polônia, como sinal à Rússia, parte das tropas que serão retiradas da Alemanha. Encontram-se adiantados os acordos militares entre Washington e Varsóvia. 

O conceito estratégico da Otan toma como uma de suas principais tarefas conter a "ameaça russa". O papel geopolítico da Rússia pode elevar-se bastante se tiver em conta a ameaça do imperialismo estadunidense, enfrentá-lo com firmeza estratégica e discernimento tático, fazendo as escolhas certas e distinguindo-se no concerto mundial como país partidário da paz, como foi a União Soviética.

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