O rei está nu
Memória de 1968, o silêncio da ditadura e as inquietações de um filho diante da crise institucional brasileira de hoje
Cresci em uma família de políticos com “P” maiúsculo — daqueles para quem a política era vocação pública, debate de ideias e compromisso com o país. Nada a ver com a classe improvisada que, em grande parte, passou a ocupar esse espaço nas últimas décadas. Meu pai foi cassado logo após o golpe de 1964 e, naturalmente, o tema sempre fez parte da minha vida. Ainda assim, segui outro caminho, por recomendação expressa dele. “Você vai trabalhar para o time que sempre ganha: o mercado financeiro”, dizia. Obedeci. Construí minha vida profissional nesse universo ao longo de mais de quatro décadas. Mas nunca deixei de pensar sobre política, nem de questionar os rumos do país.
Na minha casa, o debate começava no café da manhã e frequentemente atravessava o dia até a mesa do jantar. Meu pai dava o tom dessas conversas, quase sempre entre a lucidez e a frustração. Não era para menos. Ele havia sido cassado, afastado da vida pública e obrigado a conviver com o silêncio imposto pela ditadura. Eu vivi toda a minha adolescência naquele ambiente pesado, em que as conversas eram muitas vezes interrompidas pela cautela e pelo medo.
Meu pai partiu em 2006. Muitas vezes me pego imaginando o que diria se estivesse vivo hoje, observando o momento político que o Brasil atravessa. Ele costumava afirmar, com uma mistura de amargura e resignação, que o país havia perdido uma oportunidade histórica. Chegou a aconselhar a todos da família que fossem embora. Dizia que o Brasil era uma causa perdida.
Curiosamente — talvez por coincidência, talvez por um impulso inconsciente — dois de seus filhos acabaram seguindo esse caminho. Eu vivo há mais de vinte anos nos Estados Unidos, e uma de minhas irmãs construiu sua vida na Inglaterra.
Hoje acordei pensando nele e lembrando de uma série de artigos que escreveu em 1968, quando era diretor administrativo da Última Hora, jornal de seu amigo e aliado Samuel Wainer. O título da série era provocador: “O Rei Está Nu”. Aqueles textos lhe custaram uma visita ao DOPS e uma advertência direta do general Haddock Lobo para que moderasse o tom. Era a véspera de mais um endurecimento do regime: o AI-5 estava prestes a ser decretado.
Meu pai já havia sido cassado pelo AI-1, na primeira leva de punições logo após o golpe. Nos artigos, ele criticava duramente a política econômica conduzida pelo então czar da economia, Delfim Netto, e o propagandeado “milagre econômico” que o regime afirmava estar construindo — um milagre financiado por dólares emprestados e grandes obras de impacto, enquanto o país real continuava carente do básico: educação, saneamento e reforma agrária.
Mais de meio século se passou. E, no entanto, a sensação incômoda de exposição parece ter retornado. O nosso “rei nu” de hoje parece ainda mais evidente.
A nudez não é apenas econômica. Ela é institucional.
A mais alta corte do país parece nua. O Congresso também está nu. O topo da República encontra-se exposto diante de uma sociedade perplexa, que observa, muitas vezes sem compreender plenamente a dimensão do que está acontecendo.
Vivemos uma crise institucional profunda, talvez uma das mais delicadas da história recente do país. Chegamos a um ponto de inflexão que apenas democracias maduras conseguem enfrentar sem romper as próprias estruturas.
É nesse momento que a memória insiste em voltar. E, com ela, uma pergunta que atravessa gerações.
Será que meu pai, em 1968, tinha razão quando aconselhava que abandonássemos o país?
Hoje, ao olhar para minhas filhas, percebo que me encontro diante do mesmo dilema que um dia o atormentou. Devo dizer que fiquem e lutem por um país melhor? Ou aconselhá-las a partir em busca de horizontes mais previsíveis?
Talvez cada geração brasileira acabe, cedo ou tarde, enfrentando a mesma dúvida. E talvez seja esse o sinal mais inquietante de todos: mais de meio século depois, ainda seguimos tentando descobrir se o rei continua nu.
* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.
