O Reino do Faz de Conta do Partido Militar

"A democracia merece nosso empenho, nossa exposição, com todas as fragilidades que efetivamente temos", escreve Hildegard Angel

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viagra-militares-Exército (Foto: ABr)


Por Hildegard Angel, para o Jornalistas pela Democracia 

A mídia brasileira a pretexto de fazer oposição a Bolsonaro, e não ao Governo, adota práticas diversionistas – e isso desde o princípio do mandato, quando foram gastas laudas e laudas, horas e horas de noticiário para criticar a pretensão do filho 03 de ser nosso embaixador em Washington. Enquanto isso, as pedras rolavam por debaixo de panos jogados sobre os fatos pela própria mídia.

No primeiro mês, do primeiro ano deste Governo, o presidente em exercício, general Mourão, e o chefe de gabinete civil, Onyx Lorenzoni, decretaram o fim da transparência no Brasil, com a nova Lei do Sigilo, que antes podia ser determinado apenas pelo presidente, o vice, os ministros e comandantes militares, e conferiram a mesma autoridade de determinar o que é sigiloso, secreto, ultrassecreto aos servidores públicos, chefes de autarquias, diretores de empresas de capital misto. A notícia passou batido, já que o interesse era discutir se Dudu Bolsonaro fritava hambúrguer na grelha ou na chapa.

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Agora, as atenções estão voltadas para a disfunção herética dos militares, a aquisição dos viagras, das próteses penianas, dos remédios para calvície e da não mais de meia dúzia de frascos de botox, enquanto sob nossos narizes passam regimentos de militares inativos se lançando candidatos a deputados e divulgando fotos vestindo farda, usando a designação hierárquica como deputado federal ou como candidato, contrariando o Estatuto dos Militares, Artigo 28 da Lei 6.880, de 9 de dezembro de 1980.

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O deputado General Peternelli saudou o Dia do Serviço da Intendência, em 12 de abril, louvando o marechal Bitencourt, então Ministro da Guerra, e que, após sucessivas derrotas em CANUDOS, percebeu que o mau desempenho das tropas resultava da logística e da cadeia de suprimentos, às quais ele sistematizou e organizou o fluxo, vencendo (escrito em caixa alta) a guerra. Será que o general Peternelli quer mesmo discutir Canudos com os historiadores?

Essas lebres têm sido muito apropriadamente levantadas pelo coronel de reserva Marcelo Pimentel em seu Twitter, que já alcança quase 17 mil seguidores, em cuja apresentação do perfil está a frase do General Peri Bevilacqua: “Quando a política entra no quartel por uma porta, a disciplina e a sensatez saem pela outra”.

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Para Marcelo Pimentel quem governa o Brasil é o Partido Militar, usando Bolsonaro apenas como um fantoche, que o coronel também chama de “mamulengo dos militares”. O projeto de poder então não seria de Bolsonaro, “mas dos generais que o inventaram candidato, o fizeram presidente e o usam como Cavalo de Tróia para ocupar cabeça, entranhas, a alma da máquina do Estado. E pergunta se com dezenas de generais na Petrobras a imprensa ainda não enxergou isso.”

Se alguém ainda tem dúvidas sobre se há militar patriota no Brasil, precisa acessar o Twitter de Pimentel, @marcelopjs .

Uma leitura de poucos minutos de seus tuítes é altamente esclarecedora, informativa, e faz o que os analistas, os intelectuais, o que nós, os jornalistas brasileiros, não fazemos. Inclusive nós, da mídia progressista, que muitas vezes nos deixamos capturar pela pauta maliciosa da grande mídia.

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Voltando às próteses penianas, Marcelo ironiza a imprensa por chamar esses gastos de “roubo”, já que o FUNSEX é o SUS dos militares, e como este também adquire medicamentos, e com desconto em folha dos militares.

A imprensa distrai o brasileiro com firulas, enquanto generais e coronéis assinam ordens do dia laudatórias ao Golpe de 64 e à ditadura, “e ocupam cabeça, entranhas e alma da máquina governamental, usando o capitão como fantoche, enquanto recebem salários fura-teto”, ele posta.

Assim como compara a “novela da visita de pastores a Bolsonaro”, com sigilo imposto pelo GSI do general Heleno, ao mesmo tipo de armação que ele atribui à reunião secreta - e filmada!!! - de abril de 2020, que envolveu a encenação da saída de Moro do governo.

Outro alerta do coronel da reserva é quanto ao uso repetido pela mídia da expressão “bolsonarismo” para descrever fenômenos que já têm conceitos adequados muito mais claros, como são reacionarismo, fisiologismo, autoritarismo, machismo, que só ajuda a fortalecer o nome eleitoral do “espantalho”.

Estamos, sim, sob o governo, o comando e o poder do Partido Militar. A pior mídia é a que não quer ver e se atribui uma influência e um poder sobre os rumos da Nação que verdadeiramente não possui.

O jornalismo de hoje não é mais conteúdo, investigação, informação. É entretenimento. É uma “harmonização facial” da realidade brasileira, um enfeite, uma distração, assim como seus apresentadores e suas apresentadoras harmonizam as faces e desenham as sobrancelhas para serem suficientemente atrativos para o público.   

Vamos lembrar Roberto Marinho, no Golpe de 64, para o qual seu jornal tanto atuou e se empenhou. A divulgação em 2015 do telegrama, datado de sábado, 14 de agosto de 1965, 12:30 a.m., enviado pela Embaixada Americana no Rio de Janeiro ao seu Departamento de Estado em Washington foi altamente reveladora, apesar de “baixamente” repercutida.

Eis sua tradução: 1. “Este relata a conversa no almoço altamente confidencial de sexta-feira (na véspera) com Roberto Marinho, editor de O Globo, abordando o problema da sucessão presidencial. A proteção da fonte é essencial.

2.  “Há alguns meses, Marinho se convenceu que a manutenção de Castello Branco como presidente por um período mais longo é indispensável para a continuidade das atuais políticas do governo e para evitar uma desastrosa crise política aqui. Ele tem trabalhado discretamente com um grupo que inclui o General Ernesto Geisel, chefe militar do gabinete da Presidência, o general Golbery, chefe do Serviço Nacional de Informação, Luís Vianna, chefe do Gabinete Civil, o deputado Paulo Sarasate [UDN, cearense], um dos amigos mais íntimos do presidente, e outros com esse fim em vista.

3.  “No início de julho, a pedido do grupo, Marinho conversou em almoço privado com o presidente, no qual encontrou Castello fortemente resistente a qualquer forma de continuação de mandato ou reeleição, mas disposto a prometer não fazer declarações ainda mais firmes, como ameaça de renúncia em caso de reeleição, como já havia feito.

4.  “Marinho também obteve autoridade para sondar o embaixador Juracy Magalhães em Washington sobre a disposição de Juracy em retornar ao cargo de Ministro da Justiça, o que ele indicou que faria após as eleições de outubro [eleições estaduais em 3 de outubro de 1965].

5.  “O objetivo deste movimento é duplo: ter Juracy à mão, como possível candidato alternativo, e melhorar o funcionamento deste ministério politicamente importante, cujo atual chefe Milton Campos é um velho senhor altamente respeitável, mas totalmente ultrapassado.

6.  Em 31 de julho, Marinho teve segunda conversa íntima com o presidente em que colocou pressão no ponto que as eleições presidenciais diretas em 1966 sem o próprio Castello como candidato concorreriam [“para aumentar a crise”, imaginamos que seja, já que o telegrama foi divulgado incompleto].

Não sem razão, historiadores chamam o Golpe de 64 de “empresarial-militar”. Marinho desejava um Ministro da Justiça para chamar de seu. Juracy Magalhães foi Ministro da Justiça de 19 de outubro de 1965 a 14 de janeiro de 1966.

Juracy não foi o único. Armando Falcão, Ministro da Justiça de Geisel, de 15 de março de 1974 a 15 de março de 1979, trafegava pelos corredores do Globo como funcionário da casa, “assessor de dr. Roberto”.

Foi de Falcão a providência da elaboração do projeto de lei para a fusão dos estados da Guanabara e do Rio de Janeiro, que passou a vigorar em 15 de março de 1975. Mudança contra a qual Roberto Marinho anos mais tarde se insurgiu, pelo bom senso e talvez por ter se dado conta do prejuízo que a fusão causou às suas organizações, sediadas no Rio de Janeiro, e ao seu patrimônio pessoal, quase todo no Rio de Janeiro.

Falcão era leal apenas a si mesmo. Conseguiu o malabarismo de ser ministro de JK, de Jânio Quadros, apoiar o golpe contra Jango, passar-se para a Arena e virar golpista de carteirinha, e deixou seu legado: quando houve a separação litigiosa de Roberto Marinho de sua segunda esposa, Ruth (foi uma mulher, a sra. Ruth, a primeira pessoa depois de Brizola a enfrentar Marinho), os advogados dela contra ele foram o filho de Armando Falcão e seu escritório.

Roberto Marinho dava as cartas. E deu por um bom tempo, enquanto os generais não haviam ainda tomado gosto, loteado o poder, distribuindo entre si as partes do latifúndio governamental.

Depois da vez de Castello foi a vez de Costa e Silva, depois chegou a vez de Médici, a vez de Geisel, a vez de Figueired - última vez, para desgosto de quem perdeu a vez.

Quando os militares se enraizaram no poder, com seus porões, os subterrâneos de chumbo, seu AI-5, o domínio de todos os campos, Marinho não mais determinava os destinos da Nação, ele se dobrava às imposições da censura ao seu jornalismo, às proibições de suas novelas globais.  

Agora é a vez do Partido Militar.

Como se darão as eleições de outubro sob a vigilância dos militares? Eis a questão.

Desde 2019, o Brasil está marchando para os quarteis com a cabeça de papel, pois sua imprensa parece não ter miolos. Eles fingem que não mentem, nós fingimos que acreditamos.

O Reino do Faz de Conta de Monteiro Lobato era o Sítio do Picapau Amarelo. E tudo era fantasia, encantamento, surpresas felizes. Era uma imaginação construtiva, que fazia o pensamento voar com plena liberdade, passear pelo imaginário brasileiro, as lendas das florestas, os mitos, a Cuca, o Saci Pererê.

O Reino do Faz de Conta do fantoche do Partido Militar é só tapeação, maldade e violência. É ódio, é mentira, ofensa e perversão. É o Reino que despreza e estupra as mulheres, pratica a pedofilia impunemente, impede criança violentada de abortar, quebra braço de idoso que buzina, elogia torturador, promove coronel torturador a marechal, posta fotos de tortura, em que mito e minto é a mesma coisa, nada é real, tudo é mentira, depreda, devasta, queima, arde, proíbe, censura, é o inferno, o inominável, o inenarrável.  

Precisamos estar unidos, atentos e fortes para tirá-los do poder através do voto, missão que pode parecer impossível, e assim é se lhes parece.

A Democracia merece nosso empenho, nossa exposição, com todas as fragilidades que efetivamente temos.

Este artigo não representa a opinião do Brasil 247 e é de responsabilidade do colunista.

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