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Gustavo Tapioca

Jornalista formado pela Universidade Federal da Bahia e MA pela Universidade de Wisconsin-Madison. Ex-diretor de redação do Jornal da Bahia, foi assessor de Comunicação Social da Telebrás, consultor em Comunicação do Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) e do (IICA/OEA). Autor de "Meninos do Rio Vermelho", publicado pela Fundação Casa de Jorge Amado.

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O Salão Oval de Trump é o bunker de Flávio Bolsonaro

Acuado pelo caso Vorcaro, o pré-candidato do PL abandona a fantasia da moderação, volta ao bolsonarismo raiz e tenta preservar força para 2026 e 2030

Flávio Bolsonaro e Donald Trump (Foto: Reprodução/X/@FlavioBolsonaro)
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A viagem de Flávio Bolsonaro a Washington não é apenas um gesto de campanha. É uma confissão política. Quem acredita que está ampliando sua base fala com o país. Quem teme perder a própria base corre para o bunker trumpista da ultradireita global.

Há momentos em que uma fotografia vale menos pelo que mostra do que pelo que tenta esconder. A imagem de Flávio Bolsonaro ao lado de Donald Trump, depois de dias de expectativa, desgaste e constrangimento, não deve ser lida apenas como demonstração de força internacional. Deve ser lida, sobretudo, como operação de defesa. A foto não prova que Flávio cresceu. Revela que ele precisou se refugiar.

Depois do escândalo envolvendo Daniel Vorcaro, Banco Master e o financiamento suspeito do filme Dark Horse, a candidatura de Flávio entrou em nova fase. A aposta inicial era apresentá-lo como um Bolsonaro mais palatável, menos explosivo, mais aceitável para o mercado, para a mídia conservadora e para setores da direita que desejavam derrotar Lula sem carregar todo o peso tóxico do bolsonarismo raiz.

Essa operação sofreu um abalo profundo

O Brasil 247 publicou nesta quarta-feira, 27, que, após o encontro com Trump, Flávio teria reuniões no Departamento de Estado dos Estados Unidos e poderia cumprir agendas com parlamentares republicanos em Washington. No mesmo dia, o artigo “Estratégia de um derrotado” apontou a mudança essencial: Flávio estaria retomando o bolsonarismo raiz como estratégia defensiva para conter danos e preservar força política.

Daniela Lima, no UOL, chegou ao mesmo ponto por outro caminho. Segundo ela, rivais veem Flávio mudando a rota para buscar amparo no núcleo duro bolsonarista, tentando impedir que os eleitores mais fiéis a Jair Bolsonaro se desgarrem do herdeiro do clã antes da campanha oficial no rádio e na TV.

É aqui que a fotografia com Trump ganha seu verdadeiro sentido. Ela não é expansão. É contenção. Não é ponte com o centro. É trincheira para a extrema direita. Não é demonstração de segurança. É tentativa de recompor a moral da tropa.

Flávio não foi a Washington para convencer o eleitor moderado brasileiro. Foi para dizer ao bolsonarismo que ainda é o herdeiro reconhecido pelo chefe da ultradireita global. O Salão Oval de Trump é o bunker de Flávio Bolsonaro.

A candidatura que mudou de função

A pergunta que começa a circular nos bastidores é dura: a campanha de Flávio já teria concluído que a eleição de outubro está perdida para Lula? Não há prova pública disso. Nenhuma campanha presidencial admite derrota antes da hora. Mas os sinais apontam para uma mudança de função política da candidatura. Flávio ainda disputa para vencer. Mas talvez já esteja, ao mesmo tempo, disputando para não morrer.

Essa diferença é decisiva.

Vencer Lula em 2026 continua sendo o objetivo máximo da direita. Mas, se a vitória parecer cada vez menos provável, o objetivo realista passa a ser outro: chegar ao segundo turno, perder por margem administrável, manter a base bolsonarista unida, eleger um Congresso ainda mais hostil ao governo Lula e sair da eleição como líder natural da oposição para 2030.

Nesse cenário, uma derrota apertada não seria tratada como derrota. Seria transformada em narrativa.

Flávio diria que enfrentou Lula, a máquina federal, a Justiça, a imprensa, o sistema, o “globalismo”, os “comunistas” e quase venceu. Diria que foi vítima de perseguição. Diria que o escândalo Vorcaro foi armação. Diria que o povo conservador resistiu. Diria que 2030 começou no dia seguinte à apuração de 2026.

É por isso que a foto com Trump importa tanto. Ela não serve apenas para outubro. Serve para novembro. Serve para os quatro anos seguintes. Serve para preservar Flávio como ativo político, mesmo em caso de derrota.

Valdemar olha para Flávio, mas pensa no PL

A entrevista de Valdemar Costa Neto, presidente do PL, à GloboNews acrescenta outra camada à crise. Na leitura do professor João Cezar de Castro Rocha, Valdemar não parece empenhado em salvar a candidatura de Flávio Bolsonaro a qualquer custo. Parece empenhado em salvar o próprio PL. Essa diferença muda tudo.

Valdemar é menos um ideólogo do bolsonarismo do que um operador profissional da máquina partidária. Enquanto o sobrenome Bolsonaro rende votos, bancada, dinheiro público e poder de barganha, ele é protegido. Quando começa a contaminar o projeto eleitoral, passa a ser administrado como risco.

É nesse ponto que a foto com Trump ganha ainda mais sentido. Flávio não correu a Washington apenas para enfrentar Lula ou responder ao escândalo Vorcaro, ao qual está profundamente ligado. Correu também para mandar um recado ao próprio PL: ainda tenho Trump, ainda tenho base, ainda tenho valor eleitoral.

O Salão Oval virou bunker porque o perigo já não vem só de fora. Vem também de dentro da direita.

Valdemar pode até defender Flávio publicamente enquanto isso for conveniente. Mas sua prioridade é preservar o PL como maior máquina da direita brasileira. Se Flávio se mostrar inviável, o partido buscará outra saída. Valdemar Costa Neto não morre abraçado a candidato ferido. Ele calcula, recua, reposiciona-se e negocia. Afinal, o PL foi o partido que mais recebeu recursos do Fundo Partidário em 2025.

Segundo dados oficiais do TSE, o PL, partido do qual Valdemar é presidente, recebeu R$ 192,1 milhões em dotações orçamentárias do Fundo Partidário, mais R$ 16,4 milhões provenientes de multas eleitorais. Somando as duas fontes, o total chegou a R$ 208,6 milhões em 2025.

Flávio, portanto, precisava da foto. Precisava provar que ainda vale o custo político de ser mantido como candidato.

A burguesia dividida

A análise de Breno Altman, no Opera Mundi, ajuda a organizar o quadro eleitoral. Segundo ele, aquilo que chama de burguesia — os donos do dinheiro e do poder — estaria hoje dividido em três frações.

A primeira é a que queria uma terceira via com força real, especialmente Tarcísio de Freitas. Tarcísio era o candidato ideal para parte do mercado e da direita liberal: conservador, privatista, com discurso de gestão, sem o estilo destrutivo de Jair Bolsonaro e com capacidade de dialogar com setores empresariais que temem a instabilidade do bolsonarismo puro-sangue. Mas Tarcísio preferiu disputar novamente o governo de São Paulo e esperar 2030.

Sem Tarcísio, essa fração do andar de cima ficou sem seu candidato dos sonhos. E, na falta de alternativa forte, passou a aceitar Flávio Bolsonaro como o candidato possível. Não por entusiasmo. Por cálculo. Não porque Flávio seja confiável. Mas porque carrega o sobrenome Bolsonaro, segura a base radical e pode levar a disputa ao segundo turno.

A segunda fração ainda procura uma terceira via. Olha para Ronaldo Caiado, Romeu Zema, Renan Santos, Aécio Neves, Joaquim Barbosa e outros nomes que aparecem ou tentam aparecer nas pesquisas. Mas essa terceira via continua com o mesmo problema de sempre: existe nos editoriais, nos salões, nos institutos de pesquisa, nos seminários acadêmicos e nas conversas do mercado e do bar, mas não se transforma em força popular capaz de romper a polarização.

A terceira fração já trabalha com a hipótese de Lula vencer. Essa parte do poder econômico pode combater Lula publicamente e negociar com ele reservadamente. Pode financiar adversários e, ao mesmo tempo, abrir pontes com o governo. Pode fazer discurso contra o PT e pedir cargos, influência, garantias, juros, orçamento, obras, marcos regulatórios, controle sobre estatais, agronegócio, mineração, energia e sistema financeiro.

É o velho realismo das elites brasileiras: hostilidade no palanque, negociação na sala fechada e sem celular. A crise Vorcaro acelerou essa divisão. Antes dela, Flávio tentava ser candidato de ampliação. Depois dela, passou a ser candidato de contenção. Essa talvez seja a mudança mais importante.

O objetivo imediato não é mais convencer o Brasil de que Flávio é moderado. Essa fantasia perdeu força. O objetivo agora é convencer o bolsonarismo de que Flávio ainda é Bolsonaro. Que ainda tem Trump. Que ainda tem Washington. Que ainda tem a bênção simbólica da ultradireita global. Que ainda pode ser o nome de 2026. Ou, se necessário, de 2030.

A eleição de 2030 já começou

Se Lula vencer em 2026, não poderá disputar uma nova reeleição consecutiva em 2030 pelas regras eleitorais. O campo democrático terá de construir outro nome, sem o mesmo recall popular, sem a mesma ligação afetiva com os setores mais vulneráveis da população e sem a biografia que fez de Lula uma exceção na história política brasileira.

Lula chegaria ao fim de um eventual quarto mandato com idade avançada, submetido ao desgaste natural de qualquer governo, ainda mais se cercado por um Congresso dominado pela direita. A oposição sabe disso. A burguesia sabe disso. O bolsonarismo também. Daí a estratégia provável: mesmo que Lula vença, ele precisa vencer cercado.

Cercado por uma Câmara mais conservadora. Cercado por um Senado mais bolsonarista. Cercado por CPIs, chantagens orçamentárias, sabotagens legislativas, bloqueios institucionais, crises fabricadas, guerra cultural permanente e pressão da mídia empresarial.

A direita pode aceitar perder o Planalto em 2026 se ganhar as condições políticas para inviabilizar o governo Lula e preparar 2030 como a eleição do “fim de ciclo”. Nesse sentido, 2026 pode deixar de ser apenas uma eleição presidencial. Pode se tornar a primeira batalha de 2030.

O bunker e o futuro

Para Lula, o perigo não está apenas em Flávio vencer. Está também em Flávio perder preservando força.

Uma vitória de Lula contra um bolsonarismo desmoralizado abriria espaço para governar com mais legitimidade. Mas uma vitória apertada contra uma direita radicalizada, com bancada ampliada no Congresso e narrativa de revanche para 2030, poderia produzir um governo sitiado desde o primeiro dia. Esse é o plano possível da direita: se não puder derrotar Lula agora, que ao menos o impeça de governar.

Se não puder conquistar o Executivo, que capture o Legislativo.

Se não puder vencer 2026, que transforme 2026 em preparação para 2030.

Nesse desenho, Flávio Bolsonaro não precisaria sair de outubro como presidente. Bastaria sair como chefe da oposição. Bastaria chegar vivo. Bastaria perder sem ser destruído. Bastaria manter o sobrenome Bolsonaro como senha de mobilização permanente.

A foto com Trump, portanto, é mais do que uma imagem. É uma estratégia condensada. Ela diz que Flávio voltou ao lugar de onde nunca saiu: o bolsonarismo raiz. Diz que a direita liberal continua órfã de um candidato plenamente confiável.

Diz que a burguesia se divide entre o bolsonarismo possível, a terceira via improvável e a negociação pragmática com Lula.

Diz que Valdemar Costa Neto já calcula menos a salvação de Flávio do que a sobrevivência do PL. Diz que 2026 pode ser disputado como eleição presidencial, mas também como ensaio geral de 2030. E diz, sobretudo, que Flávio Bolsonaro já não tenta apenas parecer forte. Tenta impedir que sua fraqueza vire colapso.

O Salão Oval de Trump é o bunker de Flávio Bolsonaro porque abriga uma candidatura ferida, uma direita sem rumo único e um projeto autoritário que ainda não desistiu do Brasil.

Lula pode vencer 2026. Mas a pergunta decisiva é outra: vencerá com força suficiente para governar? Ou vencerá cercado por uma direita que já terá transformado sua derrota em plano de guerra para 2030?

Esse é o verdadeiro sentido da viagem a Washington.

Flávio foi buscar em Trump não apenas uma foto. Foi buscar oxigênio. Foi buscar abrigo.

Foi buscar tempo.

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.