O segundo tuíte do general Villas Bôas

Jornalista Denise Assis afirma que o general Eduardo Villas Bôas tentou esconder no livro dele uma decisão tomada junto com o general Sergio Etchegoyen de "interromper o processo democrático" no governo Dilma. "Sergio pilotou todo o processo de 'militarização' da nova face do governo, desde o nascedouro do golpe", acrescenta. "Villas Bôas falseou com a verdade"

General Eduardo Villas Bôas
General Eduardo Villas Bôas (Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil)
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Por Denise Assis, do Jornalistas pela Democracia

O livro recém-lançado “General Villas Bôas – conversas com o comandante” -, fruto de 13 horas de entrevistas com o historiador e diretor do CPDOC (FGV), Celso Castro, foi o segundo tuíte do general. Teve a intenção de jogar gasolina no cenário político já bastante aquecido pelo resultado de 4 x 1, obtido pela defesa do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, no Supremo Tribunal Federal (STF), na véspera da divulgação do livro e de colocá-lo na foto dos livros de história, no tamanho que ele quer frequentá-los.

Na terça-feira, (09/02) a Segunda Turma do STF validou o acesso do ex-presidente Lula e de seus advogados aos diálogos apreendidos pela operação “Spoofing”, da PF. Os arquivos contêm o registro de conversas trocadas entre o ex-juiz Sergio Moro e procuradores da força-tarefa da Lava-Jato de Curitiba. Durante o julgamento, o ministro Gilmar Mendes comparou a atitude do procurador Deltan Dallagnol, à frente das investigações, com a dos torturadores da ditadura. Um tema “delicado” para o general, que se abespinhou vendo um ministro do STF – que ele havia acuado às vésperas das eleições de 2018, com o seu primeiro tuíte – assumindo um discurso próximo da verdade histórica que eles teimam em negar.

Foi, também, uma tentativa de desviar o foco do general Eduardo Pazuello, que na semana anterior havia criado um tremendo mal-estar nas fileiras da ativa, quando optou por ser ouvido pela Polícia Federal, sobre os seus desmandos à frente da Pasta da Saúde, em plena pandemia, no hotel de trânsito dos oficiais da Força, em Brasília. A atitude de Pazuello puxou para o interior dos quartéis o seu desempenho pífio e genocida, principalmente no que diz respeito a Manaus. Villas Boas se apressou em colocar o livro na rua, a fim de empanar o vexame.

Acontece que ao trazê-lo à luz, com suas memórias, o terremoto se espraiou e sacudiu os brios do Supremo, que depois de três anos se posicionou, na pessoa do ministro Fachin, quanto à ameaça sofrida. E só emitiu uma nota em defesa da casa diante das revelações estarrecedoras contidas nas mensagens da Vaza-Jato.

Villas Bôas quer fazer prevalecer a sua versão dos fatos, mas falseou com a verdade em detalhes importantes. Ao convidar todo o Comando do Exército para dedilhar o teclado do computador do seu gabinete, na elaboração do tuíte, tentou deixar de fora da decisão de interromper o processo democrático, o primo de sua mulher, o general Sergio Etchegoyen. Negou, no livro, que o tenha envolvido na operação, quando na verdade Sergio pilotou todo o processo de “militarização” da nova face do governo, desde o nascedouro do golpe.

Desde antes, ainda durante o governo Dilma, o general Etchegoyen vinha costurando com o comandante Villas Boas a recriação do Gabinete de Segurança Institucional que o teria, claro, no comando. Na opinião de ambos, a ABIN havia perdido força e razão de ser. Embora nada fizessem para encerrar as atividades da Agência, consideravam que o Gabinete teria mais força e influência, e por isto tudo fizeram para colocá-lo de pé.

Como bem descreveu Michel Temer, em seu livro de “memórias”, a conspiração para a derrubada de Dilma teve apoio incondicional de Etchegoyen, que não só o levou ao comandante Villas Boas, (o contraparente), como foi o “farol” do seu inapropriado governo. Sergio costurou durante todo o tempo com Michel e Villas Boas todos os passos do golpe. Entronizado no cargo, Michel discutiu com Sergio Etchegoyen a formação do novo “governo”.

Conseguida a cadeira presidencial, restava saber quem viria para o comando do ministério da Defesa, onde Michel gostaria de ter um dos seus advogados. A ideia foi rechaçada e ele então trouxe para a mesa de discussão o nome do filho do ex-governador de Minas, Nilton Cardoso, o Niltinho. Villas Bôas deu um chilique. “O rapaz nem sequer serviu o Exército!!!”, esbravejava. Foi grande o desfile de nomes, até que Etchegoyen tirou da cartola, Raul Jungmann, que havia redigido um documento relativo às FAs, com muita competência. Batido o martelo, Jungmann, que no momento não era mais nada na política, foi trazido à cena e feito ministro.

Em seguida, Sergio trabalhou para aproximar de Michel a sua “patota”: Braga Neto e o general Richard Nunes, embora sem ter ainda como alocá-los. Foi então que veio o carnaval, os arrastões, e a invasão do aeroporto Santos Dumont – área de Segurança Nacional – por um bloco de foliões. Estava, enfim, definido o papel para os seus amigos. Sergio articulou pela intervenção do Rio de Janeiro, com Braga Neto e Nunes à frente dos trabalhos.

Tudo em seu lugar, seguiu sendo a grande estrela do governo de Michel, até que as feições da candidatura a ser abraçada pelo meio militar trouxe o nome de Bolsonaro. Embora tão linha dura quanto a proposta que se colocava, Etchegoyen se posicionou contra o apoio a Bolsonaro, o que acabou por desgastá-lo.

Sergio esperou que Michel deixasse tudo apalavrado com o governo que – para nossa desgraça – triunfou, para ser deslocado para a embaixada americana. Como prêmio de consolação e serviços prestado, sempre com total apoio de Villas Boas, pleiteou o cargo, mas não levou. Bolsonaro considerou mais de acordo nomear um perito em fritar hamburguer, ou seja, o filhinho Eduardo, para os EUA. Nem um nem outro. A ideia naufragou. Hoje, Sergio pendurou o casaco de general, onde reluzem quatro estrelas conquistadas ao longo da carreira militar, no cabide da sala e cuida de uma estância no interior do Rio Grande do Sul.

Na planície, as memórias do general Villas Bôas transbordaram para o Congresso, onde um deputado fascista, da turma do gabinete do ódio navegou em suas ideias golpistas e, com a anuência de Bolsonaro, testa os limites da nossa democracia adolescente. Resolveu esticar a corda. Vamos ver para que lado ela arrebenta.

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