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Camilo Irineu Quartarollo

Autor de nove livros, químico, professor de química, com formação parcial em teologia e filosofia.

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O sequestro

O primeiro sequestro não foi o de Maduro, mas o da verdade.

Cilia Flores e Nicolás Maduro (Foto: Adam Gray/Reuters)

Enquanto Maduro é prisioneiro nos Estados Unidos, Trump exibe seu troféu e se impõe ao governo venezuelano. Apregoa-se que os americanos retiraram um “ditador” do poder. Contudo, essa narrativa não vale para ditaduras amigas, como as da Arábia Saudita, Coreia do Norte e outras.

A imprensa hegemônica já fazia a cabeça dos incautos. A versão tendenciosa de “ditador” justificaria eventual sequestro e deposição de seu presidente. Em realidade, a Venezuela, com foco na democracia direta, fez consultas frequentes a 4,5 mil comunas ou coletivos. As participações populares no país de Maduro são mais numerosas e decisivas que as dos EUA e mesmo do Brasil. O primeiro sequestro não foi o de Maduro, mas o da verdade. O falso epíteto de Maduro, de ditador, foi a chave para prendê-lo sem comprovação alguma, uma vez que foi pré-condenado moralmente.

Nicolás Maduro Moros é o único presidente legal da Venezuela, por ora sequestrado. Delcy Rodríguez, a vice, é aceita amplamente pelos venezuelanos. Por outro lado, são recusados o falso eleito González, a laureada Maria Corina e o Trump faceiro. O presidente Maduro é acusado de liderar o “Cartel de Los Soles”. Expressão imprópria, usada para ludibriar a opinião pública internacional, a qual desconhece o contexto idiomático. Na Venezuela, todos sabem: a “insígnia dos sóis” é a que os comandantes venezuelanos usam em seus uniformes, com sóis no lugar de estrelas. A correlação surgiu da própria imprensa venezuelana em 1993, quando da acusação de dois generais do governo de Andrés Pérez.

Para a imprensa dominante, Maduro ficou como “ditador”. Já Trump é referido como “o presidente”. Qual a participação popular dos americanos na política de Trump? O tal dita leis, desobedece princípios internacionais e põe o ICE contra a população civil de seu país. Diante de 8,3 bilhões de humanos, Trump governa exclusivamente como quer. Só falta emitir o dólar com a sua foto de espelho.

Os americanos começam a deter navios com petróleo bolivariano ou de falsa bandeira. Não os afundam como fizeram com mais de cem barcos de pescadores, fulminados cruelmente com mísseis. Por fim, Trump mesmo confessa a real pretensão dos EUA: o petróleo.

O degelo da Groenlândia, nesta crise climática, escancarou o brilho subjacente desse território dinamarquês. Trump já aguçou os olhinhos de um Ebenezer Scrooge, de feições congeladas, sobre essa riqueza oportuna. Havendo ocasião, o que faz pensar os militares brasileiros e pretensos protetores da Amazônia que Trump não venha a se descongelar por aqui? O governo Lula tem buscado parceiros econômicos recíprocos, como o recente tratado com a União Europeia, pois a guerra é econômica.

Há, porém, muitos ineptos da diplomacia brasileira, como Jair e Tarcísio, usando adereços americanófilos ou rasgando-se em falsos elogios e declarações patéticas, como a “sou apaixonado por ele”, mesmo que Trump sinta a “química” de outrem. Por bem menos, os fantoches da Venezuela foram preteridos, os quais também não sabem administrar.

As atitudes subservientes de Tarcísio e de Jair envergonham os brasileiros – não somos reféns da hipocrisia. A tradição diplomática brasileira respeita a todos, mas não se rebaixa a ninguém: é a nossa química.

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.