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Ricardo Nêggo Tom

Músico, graduando em jornalismo, locutor, roteirista, produtor e apresentador dos programas "Um Tom de resistência", "30 Minutos" e "22 Horas", na TV 247, e colunista do Brasil 247

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O sequestro de Maduro e a fragilização do Brasil diante do imperialismo estadunidense

No “Corolário Trump”, a América Latina é o quintal e a Venezuela, a piscina de petróleo dos EUA

Kuala Lampur, Malásia - 26/10/2025 - Presidente Luiz Inácio Lula da Silva durante encontro com o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, durante o 47ª Cúpula da Associação de Nações do Sudeste Asiático-ASEAN (Foto: Ricardo Stuckert/PR)

Antes de falar sobre a Doutrina Monroe 2.0, que foi ativada com sucesso após o ataque dos EUA contra a Venezuela, na madrugada deste sábado, faço um prelúdio para alertar quanto ao potencial, tão criminoso quanto a invasão estadunidense, da fake news que está sendo disseminada coordenadamente pela extrema-direita nas redes sociais, dando conta de que Nicolás Maduro, agora sob prisão pelos EUA, irá delatar a organização do Foro de São Paulo e a função do presidente Lula como o chefe do narcotráfico na América do Sul. Apesar de a informação ser mentirosa, sabemos que o bolsonarismo gosta de consumir panaceias para remediar o mal cognitivo que lhe acomete o cérebro e o mau-caratismo que lhe assola a alma.

Classificar o Foro de São Paulo como a organização criminosa que administra o tráfico de drogas na região, e Lula como chefe dessa organização, justificaria uma invasão dos EUA ao Brasil, a captura do presidente Lula e a tão sonhada criminalização da esquerda pelos bolsonaristas perante a opinião pública mundial. Ex positis, é bom estarmos atentos à fragilização do Brasil diante do imperialismo estadunidense e seu preposto no país – o bolsonarismo – após o sequestro de Nicolás Maduro e as falsas acusações de envolvimento com terrorismo e tráfico de drogas que lhe são imputadas por Donald Trump. Aliás, Trump precisará justificar ao resto do mundo, e de forma bem convincente, um porquê fático do ataque militar contra a Venezuela. E não bastará apenas uma fala do seu preposto na Argentina, Javier Milei, chamando Maduro de narcoterrorista e parabenizando os EUA pela intervenção militar, como a feita na Cúpula do Mercosul, em dezembro passado.

Digo isto porque algumas importantes lideranças da extrema-direita mundial, como Marine Le Pen (França) e Nigel Farage (Inglaterra), condenaram publicamente as ações de Trump na Venezuela, considerando-as uma violação ao direito internacional e à soberania dos Estados. É claro que Trump não está nem um pouco preocupado com uma possível rede de apoio internacional às suas ações. No entanto, um alto grau de reprovação por parte da comunidade internacional ao seu ato pode lhe render consequências desastrosas, como uma possível perda de capital político, por exemplo. Porém, como os EUA pensam apenas nos EUA – e boa parte dos seus cidadãos compartilham desse patriotismo, por vezes, sem humanidade – o “Corolário Trump” da Doutrina Monroe 2.0, que está em vigor, pode ser o último suspiro de um imperialismo fadado a uma queda a longo prazo.

Pode ser loucura da minha cabeça, mas a suposta química entre Donald Trump e Lula, e as palavras gentis do presidente estadunidense em relação ao brasileiro, tenha sido uma estratégia inspirada no “Big Stick”, a primeira extensão da Doutrina Monroe – o “Corolário Roosevelt” –, defendida pelo então presidente Theodore Roosevelt, cujo lema era: “Fale suavemente e tenha um grande porrete” (Big Stick). Dada a sua experiência política, não creio que Lula tenha caído, de fato, no conto da amabilidade pessoal de Trump. Porém, o presidente brasileiro se vê numa situação bastante delicada, com a invasão militar a um país vizinho e a deposição de um líder com quem sempre teve boas relações pessoais e comerciais. Eu já havia refletido sobre esta situação no programa “22 Horas”, da TV 247, quando questionei se, no teor da conversa telefônica entre Lula e Trump, o presidente brasileiro havia defendido a soberania da Venezuela diante do já revelado desatino trumpista de invadir o país. Uma vez que, se a casa do meu vizinho está em chamas, a minha também pode ficar chamuscada.

A questão aqui não é criticar os posicionamentos meramente formais do governo brasileiro com relação à situação na Venezuela, tanto na questão da demora para reconhecer a vitória de Maduro nas eleições como diante das sistemáticas ameaças imperialistas contra a soberania do país. O ponto é chamar a atenção com relação às consequências políticas dessa intervenção militar dos EUA, bem ao lado da nossa casa, em ano de eleições presidenciais no Brasil. As ações de Trump reacendem o ímpeto golpista da extrema-direita brasileira, que já está sendo beneficiada com o PL da Dosimetria, que reduz a pena de terroristas que atentaram contra o Estado brasileiro e relativiza o caráter criminoso e antidemocrático do 08/01. Volto ao prelúdio para comentar um trecho do pronunciamento de Trump, no qual ele chama Maduro de “chefão do narcotráfico” e o acusa de financiar o terror em diversas regiões dos EUA, ameaçando populações e “quebrando o dedo de pessoas que ameaçavam usar o telefone para denunciar suas ações”.

Tão tosca quanto alucinógena, a fala do presidente dos EUA combina guerra militar e híbrida como estratégia para derrubar os oponentes dos seus interesses políticos e comerciais. Dizer que Nicolás Maduro libertou os criminosos mais perigosos da Venezuela e os enviou aos EUA para aterrorizar a sacrossanta nação da América e sua população é de uma pusilanimidade ímpar. Trump é tão cretino que cita, sem nenhum pudor, o resgate da Doutrina Monroe e não esconde sua vaidade, fazendo um trocadilho que rebatiza tal política: “Doutrina Donaldroe”. Se nomeasse como “O petróleo da Venezuela é dos EUA”, ficaria mais legítimo e harmonizaria com outro trecho do pronunciamento, no qual ele anuncia que “os EUA vão administrar a Venezuela com um grupo, vamos reconstruir a estrutura petroleira, vamos receber os bilhões que vão ser pagos pelas companhias de petróleo e o petróleo vai fluir como tem que ser”.

Termino este artigo com mais um trecho do pronunciamento de Trump, no qual ele diz que “todas as figuras políticas na Venezuela precisam entender que o que aconteceu com Maduro pode acontecer e vai acontecer com vocês, se não forem justos com o seu próprio povo”. Uma clara ameaça, não apenas aos políticos venezuelanos, mas a todos os políticos da América Latina que não se enquadrarem no conceito de “justiça” do império estadunidense. E relembro que, há bem pouco tempo, Trump considerava injusto o tratamento dado a Jair Bolsonaro, à organização criminosa que ele comandava e ao “povo” que o apoiava. Será que Trump realmente soltou a mão dos golpistas brasileiros? Será que a “química” entre ele e Lula é o suficiente para que ele não retome a sua sanha imperialista contra a soberania brasileira? São perguntas que, até as eleições, teremos as respostas. Ele ainda ameaçou o presidente da Colômbia, Gustavo Petro, dizendo saber que ele é dono de fábricas de cocaína e exporta a substância para os EUA. Mentiras que já são verdades no Brasil, na voz de um bolsonarismo pronto para apoiar um golpe contra Lula e entregar o país ao tio Trump.

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.

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