Vladimir Safatle avatar

Vladimir Safatle

Professor titular do Departamento de Filosofia da USP

35 artigos

HOME > blog

O sequestro de Maduro e a terceira onda colonial

Colonialismo 3.0 não disfarça: pilhagem e força bruta. Cabe responder com clareza, sabendo que a próxima fronteira do império é nosso quintal

Donald Trump e Lula (Foto: REUTERS/Brian Snyder | REUTERS/Adriano Machado)

Entre 1884 e 1885, as principais potências ocidentais se reuniram em Berlim para decidir como partilhariam o território africano entre si. O evento ficou conhecido como “Conferência do Congo”. Não faltaram discursos edificantes sobre tirar tais países da servidão e do atraso a fim de trazer o progresso e a liberdade. O resultado final foi a consolidação de uma segunda fase do processo colonial europeu, que durou até os anos setenta do século passado, quando as colônias portuguesas na África, as últimas pertencentes a uma potência europeia, enfim se libertaram. Durante quase um século, africanos e asiáticos conheceram bem o que o “progresso e a liberdade” europeus efetivamente significavam: saque de suas riquezas, genocídios, massacres administrativos, humilhação colonial. Nada muito diferente do que havia sido feito séculos antes nas Américas, no momento em que, pela primeira vez, o direito europeu se impôs como direito global.

Para quem imaginava que essa lógica abertamente colonialista e imperial havia ficado nos livros de história, o dia 03 de janeiro de 2026 está aí para desmentir. Pois o recente ataque dos EUA à Venezuela é apenas a coroação definitiva de uma nova época colonial, a terceira que se abre diante de nós, depois da “descoberta” das Américas e da “incursão civilizatória” na África, com as velhas palavras grandiosas e cínicas de sempre.

Acuados diante de uma crise do capitalismo global que simplesmente não passará mais, os EUA entenderam que o momento histórico exigia uma redivisão do globo a partir das principais potências nucleares, a fim de permitir o retorno das práticas mais explícitas de pilhagem e saque que marcaram a história da acumulação primitiva. Isso significava que não fazia mais sentido perder tempo em guerras contra potências nucleares, como a Rússia, nem fingir multilateralismo escutando seus impotentes aliados europeus. Na verdade, pela primeira vez na história, a ordem global se reconstruiria sem a hegemonia europeia. Assim, a Ucrânia foi deixada nas mãos de Putin, e a América Latina voltou a ser vista como espaço livre para todo tipo de intervenção norte-americana, a fim de manter os chineses longe. Não por outra razão, a primeira ameaça internacional de Trump foi contra o Panamá, com o objetivo de impor seus interesses na circulação de seu estratégico Canal. Agora, acordamos com o ataque à Venezuela e o sequestro de seu presidente.

Isso significa que se consolida paulatinamente uma nova desordem mundial, com a Europa como mero coadjuvante, a Rússia restabelecendo sua zona de interesse mais imediata, a China como potência que se prepara para retomar Taiwan e os EUA explicitando seu papel de vampiro da América Latina.

Ações norte-americanas dessa natureza na América Latina não são novidade. Basta lembrar do sequestro do então presidente do Panamá, Manuel Noriega, em 1989. Algo semelhante havia sido feito em 1983 contra a pequena ilha caribenha de Granada e seus líderes, ou contra o Haiti de Jean-Baptiste Aristide. Poderíamos acrescentar a essa lista todos os golpes de Estado patrocinados pelos EUA na região, com suas montanhas de cadáveres, seus aparelhos de tortura, de censura e de espoliação dos recursos regionais. No entanto, por um tempo pareceu que a experiência catastrófica das ditaduras latino-americanas havia deixado as intervenções mais explícitas no passado. Agora, temos a prova de que não é mais o caso. No momento do colapso do capitalismo fóssil, Elon Musk já havia dado a deixa de que os EUA iriam atrás do restante de energia que ainda existisse no globo, independentemente de onde estivesse, seja na Bolívia ou na Venezuela.

Não é difícil entender como essa ação destrói, de uma vez por todas, o quadro jurídico internacional criado a partir da Segunda Guerra. Tal quadro já havia sido seriamente abalado com a Guerra do Iraque, sob George W. Bush, quando EUA e Reino Unido invadiram o país sem nenhuma autorização da ONU e com a justificativa do dever de destruir supostas Armas de Destruição em Massa nas mãos de Sadam Hussein — armas que até hoje ninguém viu. Na prática, o que o mundo viu foi como apagar um país do mapa até reduzi-lo a um entreposto comercial de empresas norte-americanas. Depois, o restante da ordem mundial foi massacrado pela inação diante do genocídio em Gaza e pela perseguição norte-americana a juízes de Cortes Internacionais de Justiça, um dos poucos dispositivos de ordem internacional que se mostraram ativos diante de tamanha catástrofe. Agora, vemos como funcionará esse novo momento global.

Na justificativa de ações dessa natureza, podem-se usar os velhos argumentos surrados de sempre: que Maduro é um ditador, que fraudou eleições e coisas similares. De fato, seu governo foi catastrófico, e repito o que já escrevi em outra ocasião: não cabe à esquerda apoiar governos que atiram contra sua própria população e criam milhões de refugiados. Mas esse é um problema a ser resolvido pelos venezuelanos, em seu direito de autodeterminação e autogoverno. Tão ruim quanto Maduro é a oposição venezuelana, que vive de tentar dar golpes desde 2000.

Digo isso apenas para salientar que o fato de Maduro ser quem é não muda em nada o fato de que nenhum país ganha, com isso, autorização para invasão e tomada de governo. Se assim fosse, o primeiro país a cair deveria ser exatamente um dos maiores aliados dos EUA, a saber, a Arábia Saudita — um país que faz o Irã parecer uma democracia escandinava. Ou poderíamos falar do Estado genocida de Israel e de seu apartheid, pois, se há alguém neste mundo que mereceria um Tribunal Internacional, esse alguém é Benjamin Netanyahu. Ou da Hungria, ou da Turquia, ou… Ou seja, faz parte da história das práticas imperialistas escolher qual governo autoritário será apoiado e qual será destruído. O critério é simplesmente não estar mais alinhado aos interesses das potências coloniais. Quem quisesse fortalecer uma ordem mundial baseada em princípios elementares de justiça estaria, neste momento, buscando fortalecer Cortes Internacionais, e não destruí-las, como fazem os EUA.

No entanto, há algo ainda mais dramático para nós, brasileiros. É claro que, nesse novo colonialismo norte-americano na América Latina, os dois países que colocam problemas para tal estratégia são México e Brasil. E, entre esses dois, o principal problema é o Brasil, que tem sua própria estratégia geopolítica e já mostrou ser capaz de praticá-la sem precisar do aval dos EUA, enquanto o México tem uma economia muito dependente para pensar em voos maiores. Ou seja, o alvo principal nessa fase de retorno ao imperialismo explícito é o Brasil. O ataque contra a Venezuela não foi apenas contra a Venezuela: foi contra o Brasil.

Os EUA já tentaram nos desestabilizar no ano passado, mas sem sucesso. Certamente tentarão de novo, já que contam com o auxílio não apenas da extrema direita local, com seu sonho orgiástico de estar sob a bota de um império, mas também — e não poderia deixar de ser — dos nossos queridos “liberais”. Se me permitem, de toda a fauna que compõe a direita latino-americana, o “liberal” é a mais exótica. Sempre com uma tirada contra a “polarização”, contra a “cultura do cancelamento” e outras “divisões da sociedade”, ele nunca deixa de apoiar um golpe ou de ver como natural que uma potência ocidental invada um país, sequestre seu presidente e diga que, a partir de agora, vai tomar conta de seu petróleo.

Neste momento, abre-se um horizonte de guerra contínua à nossa frente. O capitalismo não consegue mais iludir ninguém com suas antigas promessas de estabilidade e de governança mundial. Promessas que nunca foram reais, mas que mobilizavam milhares de discursos e “análises” sobre espaços multilaterais paulatinamente construídos, “guerras justas”, coalizões de defesa da “razão” e “intervenções humanitárias”. Ao menos agora não teremos de lidar com tamanho cinismo. Nessa nova fase do colonialismo, as razões são claras. As defesas também terão de ser.

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.