O sequestro semiótico da Bandeira e o verdeamarelismo

Poderíamos dizer que todo o nó que produz o que se denomina como polarização, pode começar a ser desatado pela restituição da Bandeira ao seu devido lugar. O resgate desse sequestro é, talvez, o primeiro passo para desarmar a bomba relógio do fascismo tupiniquim

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Domingo, 3 de maio do ano de 2020, a humanidade passa por uma das maiores pandemias da sua história, onde há a necessidade de distanciamento social para evitar o contágio em massa pelo vírus covid-19. No Brasil, ocorrem manifestações político-partidárias em apoio ao presidente Jair Bolsonaro. São manifestações que exibem ambiguidades, mas que há elementos com muita consistência. Estou me referindo ao campo simbólico. A imagem de pessoas vestindo a camiseta da CBF e enroladas na Bandeira Nacional já viraram clichê em nosso tempo! Imagem muito bem retratada pela Escola de Samba Tuiuti, no carnaval de 2018. Entretanto representam um movimento político que age no campo simbólico, pelo menos, desde da segunda metade do século passado. 

Quando o Brasil ganhou a primeira Copa do Mundo, em 1958, o tema “A Copa do Mundo é nossa! Com brasileiro não há quem possa!” virou uma espécie de signo do desenvolvimentismo da era JK. Mas foi em 1970, no tricampeonato, em pleno período conhecido como “Anos de Chumbo” da ditadura civil-militar, que a Bandeira Nacional ganhou as ruas, numa clara apropriação simbólica do sentimento de vitória por parte do governo e seus apoiadores, colocado na marchinha “90 milhões em ação. Pra frente, Brasil”, perseguindo os ideais trazidos nos slogans “Brasil Grande” e “Brasil, ame-o ou deixe-o”. A vinculação com o futebol é, não só a marca, mas a gênese de um patriotismo calhorda. Um patriotismo passional que torna as pessoas em defensoras violentas de ideais ambíguos. Amam a Bandeira e suas cores, ao passo que apoiam as sabotagens à Pátria em “tenebrosas transações” como foi a venda da Embraer, a entrega da Base de Alcântara, o esfacelamento da Petrobrás, etc. É um patriotismo com muita paixão e pouca, ou nenhuma, razão! 

A chave da questão está no verdeamarelismo, conceito utilizado por Marilena Chaui (2000), em “Brasil: mito fundador e sociedade autoritária”. É basicamente uma ideologia ancorada na geopolítica da dependência, defendida pelas classes sociais dominantes que se pretendiam o elo entre a o Brasil com o mundo desenvolvido, que de maneira violenta sempre impôs suas agendas políticas, econômicas e sociais aos brasileiros. O verdeamarelismo, segundo a filósofa, podemos entender assim, como ideologia dá condições para luta de classes brasileira. Portanto, a sua reedição implica a reedição dos cenários de absurdas desigualdades econômicas e sociais dos anos da ditadura. 

Ao que parece, o atual verdeamarelismo ignora as mudanças pelas quais o País passou ao longo de décadas: mesmo com o fim da ditadura e a Constituição de 1988, os impactos destrutivos do neoliberalismo entre os anos 80 e 90, o surgimento do Real e a estabilidade da moeda, a inserção do Brasil entre as maiores economias de mercado do Mundo! Se reeditou, levantando antigas posturas subservientes dos anos de 1970 aos anos 2000. A subserviência fica clara com a presença das bandeiras dos EUA e de Israel nos atos políticos recentes. A passionalidade fica mais que escancarada pela a adoração ao seu líder do momento, aclamado como “mito”, de forma muito semelhante que muitos alemães gritavam “führer” nas décadas de 30 e 40 do século XX. 

Politicamente, podemos apontar a apropriação de um signo nacional por parte movimentos arquitetados para a tomada do poder no Brasil pela via golpista, como o fazemos neste texto. Mas deixemos aos sociólogos, psicólogos sociais, etc. a hipótese de relacionar a necessidade do verdeamarelismo em soltar o grito de “...sou brasileiro, com muito orgulho...” ao grande desgosto gerado pelo 7 a 1 na copa de 2014. Hipótese que também pode relacionar a crescente adesão ao verdeamarelismo bolsonarista com a ausência de jogos de futebol nos estágios e na televisão, o que também explicaria a opção por manifestar-se aos domingos. Hipótese que também, e talvez de forma mais reveladora, fez com que o período mítico referenciado pelo atual verdeamarelismo seja os anos 70 do século passado! Período do tricampeonado, do “milagre econômico”, do estado altamente policialesco e violentamente controlador da mídia, portanto “sem corrupção”.   

A partir das denominadas Jornadas de Junho de 2013, surgiram manifestações políticas autoproclamadas apartidárias. Inicialmente com pautas progressistas como a apropriação da cidade como direito cidadão, ao se amplificar sem pautas nacionais definidas, estes grupos logo se manifestaram contrários à corrupção. Não demorou para o sentimento anticorrupção mirar o Partido dos Trabalhadores, o PT, o partido da Presidência. O antipetismo existente desde de sua fundação nos anos de 1980, se amplifica com a campanha midiática provocada e abastecida pela República de Curitiba, e pela campanha eleitoral de 2014, quando também foi consolidado o sequestro semiótico da Bandeira e a reedição do verdeamarelismo, com a campanha baseada no ódio ao adversário promovida por Aécio Neves (PSDB). Foi criado, contudo, uma espécie de senso comum opondo os “verde amarelo” dos “cidadãos de bem e patriotas” contra os “vermelhos comunistas e corruptos”. Estas campanhas criaram a possibilidade de se transformar um partido político em inimigo público da Nação. O slogan “Meu partido é o Brasil” surgiu neste momento como ideia encampada por Aécio após sua visita em campanha no RS, onde o slogan “Meu partido é o Rio Grande”, utilizado pela campanha José Ivo Sartori (PMDB), se mostrava eleitoralmente muito potente por desvincular o candidato do histórico político da sua sigla, por despolitizar o debate, apelando para a passionalidade e pertencimento das pessoas. 

Aparentemente, e isso é impressão minha, a fragilidade da república enquanto forma de governo, a falta de pertença do brasileiro em geral com aquilo que lhe foi imposto de cima para baixo – longe da defesa da monarquia – tenha gerado uma espécie de patriotismo subnutrido. Sobretudo no campo democrático, por conta da forte associação dos Símbolos Nacionais ao militarismo da ditadura civil-militar do século XX. Talvez por conta dessa memória social, grande parte dos brasileiros posicionados no espectro político desde a centro-direita até a estrema esquerda, não se importaram com o sequestro semiótico de um signo nacional por parte de grupos da direita e da extrema direita. Não há, ao que parece, repercussão a este sequestro nos veículos da grande mídia, assim como não vejo nenhuma indignação mais contundente por parte dos campos progressistas na blogosfera acerca do uso da Bandeira como bandeira partidária. 

O que podemos considerar um equívoco inclusive pragmático, pois todo o poder do verdeamarelismo está sendo empregado em favor de agendas neoliberais que em nada beneficiam a grande maioria da população. Pelo contrário, as reformas trabalhista e da previdência social, os arrochos e políticas de austeridades já estavam sendo sentidas através do empobrecimento de milhões de brasileiros e demonstradas na disparada negativa dos indicadores econômicos, antes da pandemia. As reformas são defendidas pelo verdeamarelismo, como necessárias para “compensar a corrupção dos governos de centro-esquerda”, a despeito de todos os superávits verificados pelos governos Lula e Dilma. Não é por acaso que há, inclusive, movimentos institucionais pela cassação do registro do Partido dos Trabalhadores. Este pseudo patriotismo, o verdeamarelismo, vê na possível cassação de um partido político “inimigo da Pátria”, um signo digno dos seus festejos ufanistas. 

Entretanto a Bandeira do Brasil é um Símbolo Nacional! E como tal, não pode representar um movimento político! Não deve ser utilizada como estandarte ideológico! Sobretudo, a sua apropriação indevida já é forte indício de ruptura institucional. Todo este cenário autoritário foi gestado a partir das campanhas midiáticas que subverteram conceitos em prol de interesses. Poderíamos dizer que todo o nó que produz o que se denomina como polarização, pode começar a ser desatado pela restituição da Bandeira ao seu devido lugar. O resgate desse sequestro é, talvez, o primeiro passo para desarmar a bomba relógio do fascismo tupiniquim.

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