O significante Lula

O linguista Gustavo Conde faz uma análise sobre o nome de Lula no cotidiano linguageiro das pessoas: "o significante 'Lula', no entanto, não deixa de ser nome próprio quando se torna significante. É por isso que nem todo ódio do mundo e nem toda a corrupção do poder judiciário pôde ou pode derrotá-lo". Conde ainda diz: "Lula está nas mentes mas também está na linguagem, subversivo, revolucionário, afeto infiltrado até nos corações mais frívolos."

Resumindo um pouco: o ódio ao PT foi tanto, a síndrome de derrota para o PT foi tanta, a frustração pelo sucesso do PT foi de tal magnitude, que eles aceitaram até um "Bolsonaro".

E alguns continuam aceitando. Todos nutridos ainda exclusivamente pelo ódio ao PT - inclusive alguns cidadãos com curso "superior", também chamados injustamente de "intelectuais". Eles não passam nem perto de uma "leitura" de Bolsonaro. Eles fogem dessa "leitura" como o diabo foge da cruz.

Porque, caras-pálidas, até estes cidadãos do ódio, que veem tudo como deboche e escárnio, sabem que não há absolutamente nada para se ler em Bolsonaro. 

Como afirma com todas as letras a porção civilizada da comunidade internacional, Bolsonaro é o maior protótipo de idiota que a face da Terra já teve a infelicidade de suportar. 

A idiotia chegou a um novo patamar com Bolsonaro. É a já velha frase de efeito: "suas definições de 'imbecilidade extrema' foram atualizadas". 

'Bolsonaro' já é adjetivo, já é insulto, já é ofensa. Uma vida 'bolsonara' é a nova significação para uma vida degradada moralmente, com requintes de crueldade suicida, grotesca, escatológica, coprofálica, terrorista. 

A literatura vai usar essa nova fonte de sentido para o testemunho futuro do horror que se aproxima. 

Na falta de produzir qualquer sentido, na ausência plena de subjetividade, Bolsonaro acabou por se desprender da conjunção "nome próprio-sujeito" e se transformou, ele mesmo, em um significante à deriva, fonte do mais baixo nível constatável de toda e qualquer manifestação não-humana, encarnada miseravelmente em um "indivíduo" que anda e respira. 

Reiterando, pois a constatação tem cifra psicanalítica: na ausência de subjetividade, resta apenas o significante. 

Ou ainda: na ausência de sentido, sobra sua aniquilação, vísceras simbólicas, avesso estrutural, repulsão, medo, paralisia, todo o espectro das abominações inscrito em uma única palavra que não é mais um nome próprio e sim um nome impróprio, um verbete de dicionário fadado a nos expiar e a servir de espelho do nosso contrário.

O trânsito "nome próprio - adjetivo" é, curiosamente, o inverso da origem estrutural mais comum de todo e qualquer nome próprio: parte-se do sentido para se chegar à nomeação. Nomes próprios indígenas são nomes de gestos e práticas. 

Mas nomes próprios ocidentalizados também o são. Claudio (de claudicar, mancar), Paulo (de paulatino, pequeno), Renato (de renascido). 

A história dos sentidos apaga todas essas origens, está claro, até porque o funcionamento social do nome próprio é direcionado para que ele "identifique" uma pessoa e, assim, exclua-se da cadeia significante dos substantivos, verbos e adjetivos que, por sua vez, são móveis e reciclam o sentido em seus deslocamentos sintáticos. 

A desumanidade impregnada neste indivíduo que atende pelo nome de 'bolsonaro' - assim mesmo, com letra minúscula - é tal que ele alcançou a proeza de subverter um processo simbólico de milhares de anos: um significante que sai da identificação subjetiva e migra para a significação vulgar.

'Bolsonaro' não caminha apenas para ser o mais tóxico adjetivo da história, mas caminha para realmente nos servir de exemplo definitivo da anti-humanidade através da própria linguagem, linguagem esta impossível de ser sabotada - se contemplada com método e afeto. 

Palavras são história pura, carregam em si toda a movimentação de sentidos que lhes recobre. 

E, nesse sentido, é curioso como o 'amor', essa palavra tão surrada que ninguém entende muito bem, renova o seu sentido quando menos se espera. 

Todo esse processo de aniquilação chamado 'bolsonaro' só foi possível pela cólera acumulada no coração confuso daqueles que desperdiçaram quase uma vida inteira para sensualizar seu ódio a um ser humano dotado de extrema generosidade. 

O significante 'Lula' é carinho. É a contração afetuosa de 'Luiz'. É a memória da amizade, da infância, da juventude, da vida. Se 'bolsonaro' é o signo do horror, 'Lula' é um grito de libertação, uma esperança, um pulso que movimenta a autoestima do povo trabalhador de um país inteiro. 

Todo o entorno de significantes que habita concretamente o continente sígnico 'Lula' é impregnado de amor, de leveza, de musicalidade, de história e de afetos. 

A aliteração 'Lula lá' prolonga o regime dos afetos, duplicando a sílaba, brincando com a língua, evocando a criança que sonha, canta e vive o presente.

Assim ocorre com "olê, olê, olê, olá" e com todos os outros rastros de significante que povoam a significação de Lula, sujeito da história e dos afetos. 

A palavra 'amor' e tudo o que ela representa me parece o signo que sempre há de retornar diante dessas movimentações do sentido histórico. Porque o amor está na mensagem máxima daquele que foi e é o maior "influenciador" histórico da humanidade, querendo ela ou não: um palestino pobre que sabia discursar e circulava em meio ao povo quase como um sindicalista, há mais ou menos uns dois mil anos atrás. 

É preciso, portanto, não subestimar a palavra 'amor' e seus sentidos. 

Ora, é por isso que este ódio fascista brasileiro emergiu com tanta força: o excesso de amor triunfante (vencedor de eleições majoritárias) enlouqueceu os linchadores profissionais, maus perdedores contumazes. 

A dimensão deste ódio, portanto, que encarna neste governo de turno, é proporcional à explosão de amor e solidariedade que tomou conta do Brasil durante 13 saudosos anos, de paz e soberania. 

Esse acúmulo de cólera insana que nos devasta a todos vai se precipitando em nossa narrativa histórica como o grande e definitivo carimbo probatório: Lula, com sua generosidade e humildade, produziu o maior espetáculo de democracia que um povo soberano já teve a felicidade de testemunhar e experimentar. 

O significante 'Lula', no entanto, não deixa de ser nome próprio quando se torna significante. É por isso que nem todo ódio do mundo e nem toda a corrupção do poder judiciário pôde ou pode derrotá-lo.  

Lula está nas mentes mas também está na linguagem, subversivo, revolucionário, afeto infiltrado até nos corações mais frívolos. 

Eu diria: tente derrotar Lula e garanta o seu fracasso. 

Essa epopeia social da qual somos todos protagonistas vai acelerando para um novo patamar. É doloroso vivenciá-la, mas é igualmente excitante pulsar em sua engrenagem. 

Lula e seu nome-significante que faz estalar duas vezes a nossa língua no céu da boca não se submeteu ainda à imortalidade histórica porque ele não se deixa domesticar nem pela própria história. Ele quer mais. 

O legado que um sujeito desses é capaz de deixar, a história ainda não registrou - e é interessante que todos ainda tenhamos a humildade de aprender um pouco mais com ele.

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