O Silêncio que mata e a responsabilidade que nos cabe
Não podemos aceitar o feminicídio como uma fatalidade. Ele é o último estágio de um ciclo de violência que começa no controle, no insulto e na desqualificação
O Brasil assiste, estarrecido, a uma epidemia que não escolhe classe social, mas que tem alvo fixo: o corpo feminino. No Distrito Federal, os números do feminicídio não são apenas estatísticas frias; são gritos interrompidos em Ceilândia, no Plano Piloto, em Samambaia. Como militante das causas sociais, vejo com profunda dor que, enquanto avançamos em indicadores econômicos, retrocedemos no direito mais básico de todos: o direito à vida das mulheres.
Os dados nacionais revelam uma realidade vergonhosa. O Brasil figura entre os países com as maiores taxas de feminicídio do mundo. No DF, a letalidade da violência de gênero muitas vezes ocorre dentro de casa, sob o olhar de filhos que se tornam órfãos do feminicídio — uma tragédia geracional que o Estado ainda luta para amparar plenamente.
Não podemos aceitar o feminicídio como uma fatalidade. Ele é o último estágio de um ciclo de violência que começa no controle, no insulto e na desqualificação. É um crime evitável, e sua persistência denuncia falhas nas redes de proteção e, sobretudo, na cultura de posse que ainda domina as relações.
É aqui que quero fazer um chamado direto aos meus companheiros. Durante muito tempo, tratamos a violência contra a mulher como um "problema das mulheres". Erramos. O feminicídio é um problema dos homens. Somos nós que matamos, somos nós que agredimos e somos nós que, muitas vezes, nos silenciamos diante de "piadas" ou comportamentos abusivos de amigos e familiares.
"Não basta não bater; é preciso romper com a estrutura machista que nos cerca. O silêncio do homem diante da violência de outro homem é uma forma de cumplicidade."
O enfrentamento ao feminicídio exige que o homem abra mão do privilégio do controle. Precisamos de homens comprometidos com uma nova masculinidade, que entendam que o respeito à autonomia feminina não é uma concessão, mas um dever. Precisamos de homens que ocupem as ruas e as políticas públicas para dizer que não aceitaremos mais nenhum minuto de medo para nossas companheiras, filhas e irmãs.
No campo político, precisamos de orçamento robusto para as Casas da Mulher Brasileira e outros equipamentos públicos, monitoramento eficaz de agressores e educação de gênero nas escolas. Mas, no campo social, precisamos de um pacto de consciência.
O combate ao feminicídio no DF e no Brasil só será vitorioso quando cada homem se tornar um agente ativo na desconstrução do machismo. Que a nossa indignação se transforme em ação política e mudança de comportamento. Pela vida das mulheres, pelo fim do patriarcado e por uma sociedade verdadeiramente justa.
Nenhuma a menos.
* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.
