Sayid Marcos Tenório avatar

Sayid Marcos Tenório

Historiador e especialista em Relações Internacionais. É vice-presidente do Instituto Brasil-Palestina (Ibraspal) e autor do livro 'Palestina: do mito da terra prometida à terra da resistência' (Anita Garibaldi/Ibraspal, 2019. 412 p)

28 artigos

HOME > blog

O sionismo como engrenagem global de dominação

A obra de Berenice Bento não se limita a analisar o sionismo como ideologia ou projeto estatal, mas o desmonta como engrenagem global de produção de poder

Manifestantes queimam bandeira de Israel (Foto: Reuters)

Em tempos de censura travestida de moralidade política, a publicação de Dispositivo sionista e seus descontentes surge como um gesto intelectual de ruptura e, mais do que isso, como um ato de coragem, recolocando o debate no terreno da história, do direito internacional e da luta por justiça.

A obra da socióloga Berenice Bento não se limita a analisar o sionismo como ideologia ou projeto estatal, mas o desmonta como engrenagem global de produção de poder, um verdadeiro dispositivo que produz narrativas, silencia críticas e reorganiza o campo do possível no debate público internacional.

A força do livro está precisamente em sua chave analítica. Ao mobilizar a noção foucaultiana de “dispositivo”, Berenice Bento revela que o sionismo não opera apenas por meio da ocupação territorial e limpeza étnica na Palestina, mas através de uma rede sofisticada de produção de verdades. 

Trata-se de um sistema que articula universidades, meios de comunicação, legislações e discursos institucionais para impor uma leitura única do que ocorre na Palestina ocupada. Nesse arranjo, a crítica ao Estado de “Israel” não é apenas contestada, ela é interditada, desqualificada, criminalizada.

É nesse ponto que a autora desvela um dos mecanismos mais eficazes desse dispositivo, que é a equivalência forçada entre antissionismo e antissemitismo. 

Ao denunciar essa operação, o livro expõe uma tecnologia política de silenciamento que transforma a denúncia de um projeto colonial em suposta expressão de ódio racial, através da acusação enfadonha de antissemitismo. 

O resultado é devastador para o debate público, porque cria-se um ambiente em que a crítica se torna tabu, e o dissenso, um risco. Berenice Bento, ao contrário, reabre esse campo interditado e recoloca a questão em seus termos políticos e históricos.

Mas o livro não se limita à denúncia. Ele também mapeia as fissuras. Os “descontentes” que dão nome à obra são aqueles que recusam o consenso imposto. São as vozes críticas que emergem tanto fora quanto dentro do próprio mundo judaico.

Ao evidenciar essas dissidências, Berenice Bento rompe com a narrativa de homogeneidade identitária e demonstra que o sionismo não fala, e nunca falou, em nome de todos. Essa operação é central. Ao pluralizar o campo, a autora desmonta uma das bases simbólicas mais poderosas do dispositivo.

Ao mesmo tempo, a obra insere o sionismo no contexto mais amplo das dinâmicas de poder global. O apoio ocidental ao Estado de “Israel” deixa de aparecer como simples alinhamento diplomático e passa a ser compreendido como parte de uma arquitetura geopolítica mais profunda, na qual interesses estratégicos, militares e ideológicos se entrelaçam. 

A Palestina, nesse quadro, não é apenas um território ocupado, mas um laboratório onde se testam e se legitimam categorias como “terrorismo”, “segurança” e “autodefesa”.

O livro tem o mérito de recusar a neutralidade. Em um cenário em que a academia frequentemente se refugia na linguagem asséptica da análise, a professora Berenice Bento assume que pensar é também tomar posição. 

Sua escrita não é apenas descritiva, é interventiva. Ela não apenas interpreta o mundo, ela confronta os regimes de verdade que o sustentam.

Ler Dispositivo sionista e seus descontentes hoje é mais do que um exercício intelectual. É um chamado. Um chamado a romper o silêncio imposto, a desafiar as narrativas dominantes e a recolocar a questão palestina no terreno da história, do direito internacional e da luta por justiça.

No Brasil de consensos fabricados e silêncios impostos, a voz de Berenice Bento se afirma como uma das mais contundentes do pensamento crítico contemporâneo. Ela alia rigor acadêmico e coragem intelectual para confrontar estruturas de poder e desestabilizar narrativas hegemônicas, recusando qualquer neutralidade diante da injustiça.

Sua obra Dispositivo sionista e seus descontentes ultrapassa os limites da academia, rompe cercos e se inscreve como expressão viva de uma crítica comprometida com a verdade histórica e com as lutas por justiça.

Carreira 3D • Investidor 3D • Consumo consciente

O Dinheiro 3D é um guia prático para quem quer evoluir financeiramente com visão, estratégia e equilíbrio.

Saiba mais

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.