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Maria Luiza Falcão Silva

PhD pela Heriot-Watt University, Escócia, Professora Aposentada da Universidade de Brasília e integra o Grupo Brasil-China de Economia das Mudanças do Clima (GBCMC) do Neasia/UnB. É autora de Modern Exchange Rate Regimes, Stabilisation Programmes and Co-ordination of Macroeconomic Policies, Ashgate, England.

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O sofrimento de Cuba e a hipocrisia do mundo

A ilha atravessa uma das crises mais difíceis desde o chamado Período Especial dos anos 1990

Pessoas na rua durante um apagão em massa em grande parte do país, em Havana, Cuba (Foto: Norlys Perez/Reuters)

Há momentos na história em que o sofrimento de um povo ultrapassa disputas ideológicas e se impõe como aquilo que realmente é: uma questão humana.Cuba vive hoje um desses momentos.

A ilha atravessa uma das crises mais difíceis desde o chamado Período Especial dos anos 1990.

Entre os anos 1960 e 1991, a União Soviética (URSS) foi o principal sustentáculo da economia cubana. Ela comprava açúcar cubano acima do preço de mercado, fornecia petróleo barato e concedia créditos e ajuda econômica. Estima-se que os subsídios soviéticos chegavam a US$ 4–6 bilhões por ano em valores da época.

Quando a URSS colapsou em 1991, Cuba viu suas exportações despencarem, o que desencadeou o chamado “Período Especial em Tempos de Paz”,

O Período Especial, iniciado em 1991, marcou a mais profunda crise econômica da história recente de Cuba. Com o desaparecimento do principal parceiro comercial e financiador da ilha, o país perdeu cerca de 85% de seu comércio exterior e viu seu Produto Interno Bruto (PIB) cair dramaticamente. A escassez tornou-se parte da vida cotidiana: faltavam combustível, alimentos, peças de reposição e até eletricidade, com apagões que chegavam a durar até 16 horas por dia. O transporte praticamente colapsou, a população passou a utilizar bicicletas em massa e a dieta alimentar foi drasticamente reduzida, provocando inclusive crises nutricionais associadas à falta de vitaminas.

Para sobreviver, Cuba foi obrigada a realizar adaptações profundas, abrindo espaço para o turismo internacional, investimentos estrangeiros limitados e novas formas de produção agrícola. A sociedade cubana atravessou aquele período com enormes sacrifícios, reorganizando sua economia em condições extremas de isolamento.

A Venezuela de Hugo Chávez preencheu parte desse vazio assumindo, nos anos 2000, o papel de principal parceiro energético da Ilha, enviando petróleo subsidiado em troca de cooperação médica e técnica. 

Essa parceria permitiu a Cuba superar parte das dificuldades do Período Especial — mas  criou um certo grau de dependência que com a recente inusitada invasão da Venezuela pelos Estados Unidos de Donald Trump e o sequestro do presidente Nicolás Maduro e sua esposa fizeram Cuba mergulhar em uma crise energética de proporções avassaladoras.

Seus 11 milhões de habitantes vivem momentos dramáticos. Falta combustível, a energia elétrica falha com frequência, alimentos escasseiam, hospitais operam sob enorme pressão. Para uma sociedade que, apesar de seus limites materiais, conseguiu construir um sistema de saúde admirado internacionalmente e níveis de educação comparáveis aos de países muito mais ricos, o contraste atual é particularmente doloroso.

Mas diante desse cenário surge uma pergunta inevitável: quem vai socorrer Cuba?

A narrativa dominante costuma apresentar o drama cubano como resultado exclusivo de falhas internas do modelo econômico da Ilha. Essa explicação é confortável para muitos, mas profundamente incompleta e equivocada.

Desde 1962, Cuba vive sob um dos regimes de sanções econômicas mais prolongados da história contemporânea. O embargo imposto pelos Estados Unidos (EUA) — posteriormente ampliado por leis como a Helms-Burton — não se limita a uma simples restrição comercial bilateral

A Lei Helms-Burton, aprovada pelos EUA em 1996, endureceu e ampliou o embargo econômico contra Cuba. Ela transformou o embargo em lei — dificultando que um presidente americano o suspenda — e passou a permitir que empresas estrangeiras que utilizem propriedades nacionalizadas após a Revolução de 1959 sejam processadas nos tribunais dos Estados Unidos. Na prática, a lei internacionalizou o bloqueio ao tentar punir, também, companhias e bancos de terceiros países que façam negócios com Cuba.

Isso significa que a ilha enfrenta enormes obstáculos para comprar alimentos, adquirir medicamentos, obter financiamento internacional ou simplesmente realizar transações financeiras básicas.

Mas é preciso também dizer com clareza por que esse bloqueio existe. Ele não nasceu de uma disputa comercial comum nem de divergências diplomáticas circunstanciais. O embargo foi imposto após a Revolução de 1959, quando Cuba decidiu romper com a estrutura econômica dependente que subordinava a ilha aos interesses de empresas e capitais norte-americanos. Cuba bravamente enfrentou o imperialismo estadunidense sob a liderança de Fidel Castro. A Revolução desafiou uma ordem regional em que a Ilha funcionava praticamente como extensão econômica dos interesses dos Estados Unidos

A nacionalização de refinarias, usinas de açúcar, bancos e companhias estrangeiras — muitas delas dos Estados Unidos — foi interpretada em Washington como uma afronta estratégica em plena Guerra Fria. Desde então, o objetivo explícito da política norte-americana tem sido pressionar economicamente o país até provocar o colapso do regime ou forçar uma mudança política interna. Em outras palavras, o bloqueio econômico que atravessa gerações não é apenas uma sanção: é uma estratégia prolongada de desestabilização, de estrangulamento da economia cubana destinada a produzir mudança de regime.

Há também uma dimensão histórica que ajuda a compreender por que Cuba se tornou alvo de tanta hostilidade. A Revolução de 1959 não foi apenas uma mudança de governo; foi a tentativa de romper com uma estrutura profundamente desigual que havia transformado a ilha em uma economia dependente, marcada pela concentração de terras, pela pobreza rural e pela forte presença de interesses estrangeiros. 

Ao longo das décadas seguintes, Cuba tornou-se símbolo — para admiradores e críticos — de uma experiência política que ousou desafiar diretamente a hegemonia dos Estados Unidos no hemisfério ocidental. Esse desafio teve um preço alto. O país pequeno que decidiu trilhar um caminho próprio passou a enfrentar pressões políticas, diplomáticas e econômicas que poucas sociedades suportariam por tanto tempo.

O bloqueio não aparece apenas nas estatísticas macroeconômicas. Ele se manifesta na vida cotidiana. Navios evitam atracar em portos cubanos por medo de sanções. Bancos recusam transferências internacionais. Equipamentos médicos que contêm componentes americanos não podem ser vendidos à ilha. Até mesmo doações humanitárias enfrentam barreiras burocráticas e financeiras.

Ainda assim, ano após ano, a Assembleia Geral da ONU vota quase por unanimidade contra o embargo. Mais de 180 países condenam essa política. Apenas Estados Unidos e um ou dois aliados votam contra.

E, no entanto, nada muda.

Apesar de todas as dificuldades, Cuba continua sendo um caso singular no mundo contemporâneo. Um país pequeno, pobre em recursos naturais e submetido a décadas de pressão econômica conseguiu formar um dos maiores contingentes de médicos por habitante do planeta. Durante crises sanitárias internacionais — da epidemia de Ebola à pandemia de COVID-19 — brigadas médicas cubanas foram enviadas a dezenas de países, inclusive à Europa.

Enquanto muitos sistemas de saúde colapsavam, médicos cubanos salvavam vidas fora de seu próprio país.

Há uma dimensão profundamente ética nessa história. Cuba não é apenas um Estado; é também uma sociedade que construiu parte de sua identidade política em torno da solidariedade internacional.

Talvez por isso o sofrimento atual da ilha provoque uma sensação tão forte de injustiça e indignação.

O que impressiona hoje é o silêncio. Grandes potências discutem cadeias tecnológicas, rivalidades estratégicas, inteligência artificial e novas arquiteturas geopolíticas. Trilhões de dólares circulam diariamente nos mercados financeiros globais. Orçamentos militares atingem níveis históricos.

E, no entanto, uma pequena ilha do Caribe enfrenta dificuldades para manter seu sistema elétrico funcionando.

Não se trata de romantizar Cuba nem de ignorar os desafios internos que a economia cubana enfrenta. Reformas são necessárias, diversificação produtiva é urgente, e o próprio governo cubano reconhece esses dilemas. 

Nenhuma sociedade resiste ao enfrentamento de um cerco econômico dessa magnitude por mais de seis décadas.

Talvez o drama cubano nos obrigue a encarar uma pergunta incômoda. Em um mundo que mobiliza recursos gigantescos para guerras, rivalidades estratégicas e disputas geopolíticas, por que é tão difícil mobilizar solidariedade para aliviar o sofrimento de um povo?

Cuba não pede caridade. Pede apenas a possibilidade de respirar economicamente sem o peso de um bloqueio que já atravessa gerações.

A ilha que enviou médicos ao mundo inteiro quando outros fechavam fronteiras hoje enfrenta apagões, escassez e incerteza. Ainda assim, o povo cubano continua resistindo com uma dignidade silenciosa que impressiona qualquer observador honesto.

Talvez seja justamente essa dignidade que torne o silêncio internacional ainda mais perturbador.

Porque, no fundo, a pergunta permanece — simples e brutal:

Quem vai socorrer Cuba?

Ou será que o mundo continuará assistindo, em silêncio, ao sofrimento da população de uma pequena ilha que ousou acreditar que poderia escolher seu próprio destino?

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.