O sonho insano de Santa Teresa d’Ávila

O que é aquilo com que sonhamos? Não será preciso conhecer com exatidão nosso objetivo para podermos saber como agir? Podemos começar. Não sei se iremos muito longe, mas tentar não nos custará muito.

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O que é aquilo com que sonhamos? Não será preciso conhecer com exatidão nosso objetivo para podermos saber como agir? Podemos começar. Não sei se iremos muito longe, mas tentar não nos custará muito.

Santa Tereza d’Ávila escreveu que, quando criança ainda, sonhava com “um são Lorenço atado, estendido sobre a grelha, as chamas o envelopando, as brasas parecendo vivas (...) Aquela carne generosa assando e grelhando, suas entranhas abertas - a chama queima e devasta os seios daquele peito que jamais renegará”. Uma história maravilhosamente abominável, declarada por uma santa à procura de seu próprio martírio.

Não transmito essa narrativa com o intuito de chocar, mas de tentar entender o que é aquilo com que sonhamos. Alguém pode imaginar que a santa espanhola era uma masoquista fanática, uma entusiasta da dor, mas isso seria passar tão longe do problema e por fim resolvê-lo (sem solucioná-lo) por meio desses clichês que não fazem senão reproduzir ruidosamente um silêncio tipificado. Uma perversão, talvez, coincidente com esse catolicismo terrorista da época dos impérios religiosos, do colonialismo, terrorismo branco e cristão que hoje retorna? A resposta é excessivamente fácil. Respondê-la assim poderia até revelar algo do acontecimento, da época, da acumulação primitiva e dos fogos à noite, em praças espanholas - mas não revelaria nada sobre nós. É, portanto, pouco. Se ao nos entregarmos ao martírio do pensamento não descobrimos nada interior, então talvez tenhamos aberto e solucionado um enigma distante; contudo, descobrimos alguma verdade, sob o prejuízo de termos mentido para nós mesmos.

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“Fogo que arde sem se ver”: o que essa ideia quase pagã do amor cristão nos ensina? E o que nos ensina a imaginação da menina rica na Espanha do século XVI, delirando sobre figuras de carne estraçalhada como hoje os meninos e meninas deliram sobre grupos musicais - de atletas, dançarinos, cantores, todos iguais e martirizados pela coreografia do trabalho e da angústia?

Em parte, podemos dizer que sonhamos com um mundo sem contradição. Quando, aliás, resolvemos o enigma pelo caminho fácil do sadomasoquismo estamos abandonando a contradição e vendo o compreensível, o fácil, arriscaria dizer quase o ameno: “ela sentia prazer na dor”. Não. É bem provável que, quando tinha sete anos e escapou para ser martirizada pelos turcos que há muitos milhares de quilômetros faziam guerra contra os cristãos, sendo pega logo ali, ao lado, na fazenda do tio, e sendo vítima dos castigos de sua mãe, é bem provável que tenha se enfurecido com a surra, ou mesmo se arrependido. É ridículo pensar que sentia prazer na dor. Mas não é tão ridículo pensar que ela desejava sentir prazer na dor, de tal modo que a dor, e também o prazer, fossem anulados - eviscerados de suas contradições e unidos em um matrimônio impossível. O casamento de um deus e de um animal dentro de um sonho.

Na política como na vida sonhamos com um mundo sem contradições. Leão ao lado do antílope, zebra e tigre ao lado do homem. Dizemos que somos socialistas: Slavoj Zizek diria sobre si mesmo que não é socialista - ser socialista é fácil, é um termo neutro, que busca uma falsa harmonia - mas sim comunista. Mas quando o dizemos não estamos sendo neutros, e sim buscando a neutralidade final, a neutralidade harmônica, suave, da não-contradição. O mundo redimido.

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Nada, porém, mais distante de nossa realidade. Vivemos em crise. A crise em nosso país, em nosso planeta, é inédita - os homens assolados por vírus se voltam com fúria contra o solo, contra as árvores imensas, e o planeta contraditório se inunda e seca, a terra se quebra, seres simiescos e psicóticos chegam ao poder pelo voto. Mas a imagem impossível de Santa Tereza se renova. Faça a experiência e ouça agora o seu coração, dentro do seu peito, detrás dos ossos da sua costela; esse coração que foi feito durante tempo incontável, enquanto no céu explodiam os astros e galáxias maturavam, como frutos frios, na experiência cega da natureza, tentando, errando, matando, dando vida, até que surgisse essa concisa toalha de sangue que agora bate em pura contradição, sístole e diástole, mecânica, uma ferida virada ao avesso sob a aranha branca de seu esterno; ouça esse coração que nasceu antes dos tempos, em outros corpos de outros seres, que foi refeito para ser alocado dentro de você, como um anjo pronto, e sob a jurisdição da tua vontade; o teu coração bate agora, no abismo do último dos mundos. O teu e o meu coração foram conjurados para baterem no fim dos tempos. Sob a força de furiosas contradições e com uma promessa maior do que apenas apagá-las.

Nós agora somos vistos como a única contradição deste país. Para os que estão no poder ou que se imaginam poderosos, por se colocarem como seus soldados pagos ou sem soldo, nós somos os responsáveis pelo tumulto e por toda contradição. Basta que sejamos eliminados e haverá uma teocracia sem tensões, um paraíso verde e amarelo em que águias viverão ao lado de onças, e o restante da criação saberá o seu lugar - como uma espécie de Macunaíma filmado pela Disney. E é porque nós somos para eles a única fonte de contradição que suas mentiras, fake news, difamações e violências não são contraditórias - e que eles próprios não se sintam assim quando neguem o que acabaram de afirmar, como quando nos acusam de “machistas” em episódios da CPI. Eles podem dizer sim ou não, falar ou calar - mas sempre estarão certos, porque querem exterminar a contradição (Pat Garrett, ao trair Billy the Kid no filme de Sam Peckinpah, dizia que estava sempre do lado certo: “o certo é sempre o lugar onde eu estou”). O grande sonho humano do “fim das contradições” é pervertido para se converter em uma sociedade resignada - em que o senhor e o escravo saibam seus lugares - como se a resignação fosse o mesmo que a redenção. Não é.

De um lado, a resignação como utopia - “ame-o ou deixe-o”; de outro, a redenção como utopia - o vago “mundo melhor”.

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São Lourenço em chamas, na visão de Santa Teresa em Ávila. Torquemada queimando hereges na praça do mercado em 1491. São Lourenço que no século III via o papa Sisto II sendo levado pelos romanos e o indagava: “vais ao sacrifício sem a ajuda do teu Diácono?” Ao que o papa teria lhe respondido: “Aguarda-o uma coroa ainda mais bonita”, mencionando seu futuro martírio. E, doze séculos depois, a Igreja vencedora, desse mesmo santo, também em Ávila, faz a fogueira monumental de fumos cacheados, e na noite e no centro da praça do mercado Torquemada coroa e grelha vivos os judeus do caso Santo Niño de la Guardia.

Não se sonha senão com o fim das contradições. É o modo, porém, como o fazemos que nos distingue - sem orgulho, pela necessidade. Santa Tereza vê a imagem do martírio e sonha o mesmo sonho de todas as pessoas, de todos os tempos: a anulação das tensões, o fim das oposições. Mas, também, talvez algo mais.

Porém, se sonharmos sem qualidade, obcecados apenas com o fim das contradições, poderemos estar apenas sonhando com a morte. É essa a necropolítica: Ruy Barbosa achando a escravidão abominável mandou queimar os documentos que a comprovavam, como se assim o evento desaparecesse; seu ato ecoa hoje como ondas na água: as polícias militares exterminando pessoas para ao mesmo tempo prosseguir e apagar o legado da escravidão. Mais frutífero do que almejar apenas o fim das contradições é imaginar seu momento de síntese, algo que o bom e o mau prometem ao se chocar: o melhor, que refaz suas estruturas.

Qual o tamanho da culpa e da esperança de Santa Teresa, no centro do império novo, que nos esmagou há quinhentos anos? Qual a consistência de seus sonhos? É possível imaginar que, para ela, não era propriamente o fim da oposição entre carne  e espírito o que lhe interessava; não desejava ver o santo morto, mas em seu processo de morte e expiação. O cadáver é mórbido e não lhe interessava; era o suplício, um ato, mais do que um fato, o que a magnetizava, produzindo-lhe uma euforia nada mórbida, embora talvez macabra, mas de mania perfeita, absoluta. Ela sentia o que nós sentiríamos se alguém nos dissesse ao ouvido, com certeza inabalável: “a revolução irá acontecer; não posso dizer muito, mas é certo, e está marcada”. É menos o instante e um fato, menos a morte de algo ou alguém, que o processo a ser iniciado, a promessa de que Deus irá se revelar ao nosso coração no instante em que os contrários se chocarem para uma fusão deliciosa, íntima e total. É a união das contradições em um processo de beleza tenebrosa: nesse instante, para os olhos de Teresa, não foram os romanos quem prepararam a fogueira e queimaram o homem; foi o santo, em seu processo de expiação, na culminação de sua vida, que ao unir os opostos mais distantes do universo - na teologia cristã a carne e o espírito - foi esse processo que em seu ápice, como na fusão nuclear, produziu a chama, a grelha, a roda e mesmo a pintura que lhe representava o martírio. Há uma promessa para quem sabe olhar - e não apenas negar - as contradições com seu devido respeito.

 Conhecendo a fundo os trabalhos de Marx e o capitalismo, um dos contraditórios mártires brasileiros - Luís Carlos Prestes, confuso, corajoso e covarde com um santo contemporâneo - disse: “a contradição é a esperança.” A esperança não será mais o fim da contradição, mas antes ela própria. Vejamos com cuidado a cena dos nossos dias, onde não há nada a celebrar, mas na qual surge já a incandescência de um novo conflito do espírito, a emergência em nós de um aço novo, de usinagem imprevisível. O fogo arde sem ser visto. Como percebê-lo? Ao modo de Santa Teresa, de todo antigo: ponha a mão no peito e ouça, como uma gestante ouve o acomodar-se de um filho. Desde o início dos tempos, até agora, ele está ali. É muito mais do que apenas seu. Ouça a máquina orgânica da história. Aí há a profunda capacidade para a afirmação e para a negação, ambas de modo vital; mas também, como diria Santa Teresa, este é um “peito que jamais renegará”. A contradição se repete, sempre nova, para anunciar para nós um mundo novo, de dentro do fim do mundo.

Por enquanto, fica a promessa, feita a nós mesmos, à futura geração e aos nossos mortos: dia 19 nos encontraremos nas ruas.

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