O Tariflávio
Outro dia Flávio tava na Sapucaí, enchendo a cara e fumando vape; ontem ele tava na Marcha para Jesus, orando e chorando
Choveu agora pela manhã.
Raios luminosos rasgaram o céu com suas raízes eletrificadas.
Meu gatinho, Frajola, que farejava o aroma úmido da rua, saltou da janela todo arrepiado, apavorado com o estrondo sombrio do trovão.
Era como se tivesse ocorrido um terremoto no firmamento.
Durou pouco o aguaceiro e o trovejar, nem chegou a formar correnteza no canto da via. A chuva logo foi se esvaindo, serenando em chuviscos finos, como um espirro de São Pedro.
Aproveitei pra ir catar cajus no quintal da vizinha, subindo no cajueiro iluminado pela ponta colorida de um arco-íris.
“Não sei como diabos alguém vota num cabra safado desse”, disse dona Maricota, com uma voz mal-humorada, assim que me viu descer da árvore.
“E a senhora alguma vez votou em mim?”, perguntei, surpreso e ofendido.
Ela gargalhou com as mãos nas cadeiras e disse que não falava diretamente comigo, mas com a minha camisa.
É que, como eu já tô no espírito da Copa do Mundo, eu tava de verde-amarelo FIFA.
“A Copa já vai começar, dona Maricota, e os Bolsonaro andam por aí vestidos com a camiseta da seleção do Esteites, o uniforme deles agora é outro.”
Maricota tava azeda, a filha é veterinária e o marido é comerciante. “Se esses diabos forem eleitos, eles acabam com o Pix.”
O Pix é a moeda corrente na casa de dona Maricota, entrada e saída. A filha, que já foi bolsonarista, também tava revoltada, disse-me a senhorinha.
Mexeram no bolso da médica de bicho e a bicha ficou brava.
Maricota acredita que dessa vez Flávio e Dudu conseguiram separar, definitivamente, patriota de patriotário.
Segundo a velhinha, haverá uma cisão: a direita vai para um lado e o bolsonarismo vai para o outro.
Ela acredita que esse lambirrolismo vira-lata dos irmãos Metralha foi a gota d’água.
“Todo mundo achou estranho aquela foto de Flávio no escritório de Trâmpi”, insistiu a velhinha. “Ele fez aquela pose de mordomo da Casa Branca porque foi lá pra entregar as nossas riquezas de bandeja praquele laranjão”, completou, de forma perspicaz e arguta.
Tagarela, a velha queria mais. “Acredito que Lula vai reverter o tarifaço novamente, ele já marcou uma conversa com Trâmpi. Ele vai lá, joga umas jabuticabas na mesa, faz uma graça, o besta-fera abre um sorriso e o Barba vai pro abraço.”
“Dona Maricota, Flávio negou que tenha algo a ver com o tarifaço, inclusive Dudu desdisse o que disse em relação a negociar o Pix com o tal de Zelle.”
Maricota não caiu nessa lorota.
“Conversa mole, meu filho, outro dia Flávio tava na Sapucaí, enchendo a cara e fumando vape; ontem ele tava na Marcha para Jesus, orando e chorando. Só uma pessoa muito fanática ainda acredita nesses caras.”
Nesse momento, a filha de dona Maricota saiu de casa para ir ao trabalho, metida num jaleco branco, com duas patinhas de gato pintadas no bolso.
“Você acha que o Lula vai conseguir defender o nosso Pix?”, perguntou-me a filha de Maricota, assim, de supetão, já abrindo a porta do carro.
“Vai, sim, minha senhora, no Lula a gente pode confiar.”
A vet me olhou com aquela cara de bicho que acabou de tomar uma vacina, fechou a porta e partiu.
Eu e Maricota ficamos na varanda, chupando cajus e jogando conversa fora.
“E o São João, dona Maricota, vai acender fogueira esse ano...”
* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.

