O tempo depois da mãe
Ao longo de dez anos, perdas familiares sucessivas transformam o tempo em camadas de luto, sobrepostas com delicadeza, fragilidade e a persistência de viver
Hoje, minha mente gostaria de falar de outras urgências. Gostaria de se ocupar da situação dos direitos humanos no Irã, de refletir sobre o que deve estar guardado nos celulares apreendidos no rumoroso caso do Banco Master, de seguir o fluxo natural do jornalismo, onde a razão organiza o mundo em fatos, dados e responsabilidades. Mas meu coração quer falar de outra coisa. Algo mais antigo, mais íntimo e, talvez por isso mesmo, mais urgente. Hoje, ele insiste em falar da minha mãe.
Janeiro não é apenas um mês. É um estado do tempo. Há janeiros que não passam; permanecem como uma dobra invisível no calendário da vida. Foi em janeiro de 2016 que minha mãe morreu e, desde então, todo começo de ano traz consigo essa sensação de desalinho interior, como se o mundo continuasse girando com precisão matemática enquanto algo em mim permanecesse atento, à escuta do que não retorna. O tempo cumpre seu ritual, mas não nos pede licença para avançar.
Nascemos, somos nutridos, partimos — e ficamos. Essa sequência simples, quase biológica, contém uma filosofia inteira da existência. Minha mãe partiu, mas ficou. Ficou no modo como organizo o silêncio, na forma cuidadosa de amar, na vigilância afetiva que herdei sem perceber.
Sentimos falta do som das pessoas que amamos; muitas vezes, é a primeira coisa que perdemos. A voz, o chamado, o “chegou bem?”. Chamamos para que voltem, mesmo sabendo que certas presenças não retornam ao mundo — apenas se instalam dentro de nós.
O luto pela mãe é um abalo profundo nas placas tectônicas do nosso universo interior. Nada permanece na mesma órbita.
Ao longo desses dez anos, os lutos foram se acumulando lentamente, quase sem trégua: primeiro meu pai, depois dois irmãos, depois minha única irmã. Tudo nesse breve espaço de dez anos. Não foi uma queda súbita, mas um processo contínuo de desgaste afetivo. Para quem se comoveu com Éramos Seis, talvez seja possível imaginar essas perdas como camadas finíssimas depositadas sobre uma alma cuja principal característica sempre foi a leveza — e, por isso mesmo, a fragilidade. Se minha história fosse romance, chamar-se-ia Éramos Oito. Neste ano, somos apenas três. Existem ausências que impõem sua presença, como se a vida, em sua pedagogia severa, nos obrigasse a aprender a seguir.
Minha mãe tinha 78 anos. Esse é o dado objetivo, tem tintura jornalística.
O que não cabe nos números é que ela tinha a idade do mundo. Com meu pai, construiu algo raro e silencioso: uma família sem espetáculo, sem encenação de felicidade. Uso o verbo “partiu” com cuidado. Partir sugere ausência definitiva quando, na verdade, ela apenas mudou de lugar dentro de mim — como quem atravessa um cômodo invisível da casa e passa a morar onde a luz não falha, em nossos corações.
Dez primaveras que renascem, dez verões que incendeiam, dez outonos que desfolham, dez invernos que nos fecham em silêncio. Não é só geometria celeste: são dez anos que passam, levando juventudes, trazendo rugas, mudando cidades, governos, amores.
O calendário gira, impiedoso, e o que era promessa se transforma em memória. O tempo não negocia; ele apenas avança.
Hoje faz dez anos que minha mãe morreu. A saudade não diminuiu — amadureceu. Tornou-se mais silenciosa, mais funda, mais estrutural. Já não grita; sustenta. É ela que orienta meus afetos, que dá espessura às escolhas, que me lembra da urgência de amar enquanto é possível.
Posso escrever sobre paz e guerras, escândalos e crises institucionais. Falo e falarei. Mas hoje, o que verdadeiramente importa é isso: a idade do tempo não se mede em anos, e sim na ausência que aprendemos a carregar sem deixar de viver.
* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.
