O terreno de batalha contra o bolsonarismo: ideologia e a diversidade LGBT

"O bolsonarismo, como um dos núcleos ideológicos de sustentação do governo, postula-se como antítese a todas as ideias libertárias (aqui incluo o debate sobre a opressão contra a população LGBT, feminismo, anti-racista, legalização do aborto, das drogas, etc...) que ganharam espaço no debate político (e consequentemente, no cotidiano popular) na virada do século XX para o século XXI, intensificado no Brasil principalmente devido à democratização do acesso ao ensino público superior gratuito"

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Nos colocaram na cara, já puída, um sorriso. Enganam-se os que pensam ser esse o sinal da tão anunciada política dos justos, dos bons, dos morais. Não! Nos forçaram na cara um sorrisinho sem graça, daqueles ou de deboche, ou de constrangimento. E continuamos por aí, andando meio que sem rumo, sem saber onde está nosso orgulho, onde ficou nossa motivação. Essa é a cara daqueles e daquelas que no Brasil (em processo apocalíptico) de 2020 se afirmam diversos sexualmente. E a esmo, no sentido mais completo da palavra, ou seja, sem uma direção que nos guie ou uma estrutura que nos contorne, continuamos sem saber como podemos fluir novamente (ou finalmente) em direção à nossa tão sonhada liberdade de expressão, sexual ou de gênero.

O governo autoritário, conservador e ultraliberal de Jair Bolsonaro, em profundo concerto com o consórcio golpista e imperialista, consegue enxergar com nitidez que o que o mantém vivo é  sua constante auto afirmação como um representante do tiozão do boteco, que já estava cansado de segurar a língua (e os punhos) ao referir-se a nós, diversos sexualmente e em gênero. 

Mas acredito enganar-se quem acredita que é sem razões essa investida do governo na construção de uma pauta ideológica fundamentalista. Isso se dá em razão, principalmente, de sua agenda econômica, que para dar sobrevida a um capital em crise, busca destruir os pequenos traços de Estado de bem-estar social construídos no Brasil ao longo do período marcado pela redemocratização pós constituição de 1988 (e intensificado nos governos petistas) em vistas de ampliar o acesso do capital à serviços tipicamente, e até historicamente, públicos.

Esse projeto econômico se inviabiliza como apelo popular, diferente do que fora o projeto de distribuição de renda através da inclusão no mercado consumidor, sustentado pela valorização real do salário mínimo entre outras medidas macroeconômicas que não são o ator central dessa discussão. É essa própria inviabilidade que empurra o governo a construir base social através de um sofisticado programa de agitação e propaganda ideológica. E aqui sim, poderemos nos ater com um pouco mais de atenção, pois nos leva a compreender como a discussão sobre a diversidade sexual e de gênero, está no centro do enfrentamento a ser realizado no período porvir.

O bolsonarismo, como um dos núcleos ideológicos de sustentação do governo, postula-se como antítese a todas as ideias libertárias (aqui incluo o debate sobre a opressão contra a população LGBT, feminismo, anti-racista, legalização do aborto, das drogas, etc...) que ganharam espaço no debate político (e consequentemente, no cotidiano popular) na virada do século XX para o século XXI, intensificado no Brasil principalmente devido à democratização do acesso ao ensino público superior gratuito. Foi definido aqui, por nossos antagonistas, o campo principal de batalha. Um livro antigo, mas de surpreendente atualidade para utilização política “A Arte da Guerra” de Sun Tzu, já nos trazia cinco elementos que se ignorados, levam à derrota em uma guerra, são eles: o caminho, o tempo, o terreno, a liderança e as regras. E aqui eu afirmo que dentre os fatores cruciais na construção do terreno de disputa com o bolsonarismo, está justamente a perspectiva ideológica. E como já afirmava Sun Tzu, “a conformação do terreno é de vital importância na batalha”. 

Muitos acreditam, a partir de uma análise pouco qualitativa, que devido às características conservadoras da sociedade brasileira, investir numa batalha que se trave nesse terreno seria infrutífero. Mas é aí que entramos nós, que temos como única perspectiva a liberdade do ser quem somos, quando e onde quisermos. Como permitir que a batalha principal se trave em outro terreno que não esse que tem como objetivo, se não a nossa eliminação, o nosso completo silenciar? E para além disso, como permitir o avanço das tropas inimigas num terreno que, estabelecido por eles próprios, é o único que sustenta de forma integral sua estratégia de guerra?

Não! É nesse campo que precisamos incidir, e mostrar para a sociedade brasileira, que a esquerda é um contraponto nítido e coeso e que sua estrutura organizacional é a única capaz de apresentar um projeto que realmente represente os anseios de todas as camadas da população que não vivem da exploração alheia.

A problemática então muda de lugar e assume-se que reside num complexo emaranhado de siglas, movimentos e disputas. Mas falarei aqui do lugar específico em que gostaria de tocar: a falta de organização do movimento LGBT, que no fundo, é um movimento libertário, em defesa da diversidade sexual e de gênero.

Nós gays, assim como as lésbicas, bissexuais, transsexuais e transgêneros, fomos elegidos pelo bolsonarismo como inimigos da paz pública e portanto, a defesa de nossa pauta é intrinsecamente, uma luta contra seu projeto e caminha na direção de um novo projeto, democrático e popular. No entanto não somos capazes de fazer os atores da política enxergarem a importância disso, justamente porque nós, entre nós mesmos, não atingimos um nível de nitidez sobre qual é o inimigo central do nosso movimento e qual o caminho para nossa libertação. Acredito que o caminho mais lógico seria a constituição imediata de núcleos de estudos sobre a pauta, que buscassem trazer maior consciência sobre esse debate central, mas é claro que isso só se faz aliado a uma agenda, já em andamento, de luta. O movimento feminista, apesar de suas muitas vertentes, define majoritariamente o patriarcado como seu inimigo central, entendo que ele é por natureza, masculino, branco, capitalista e imperialista. Mas falta-nos compreender que ele é também heterossexista compulsório, ou seja, a construção familiar estruturada em torno do patriarcado é forçosamente heterossexual e cis.

Desenvolver esse debate seria material para muitas e muitas páginas. Busco aqui apenas uma contribuição para um debate que merece e deve ser esquentado. Acredito que a definição do patriarcado como foco do embate do movimento LGBT (diversidade sexual e de gênero) pode ajudar a nos fortalecer enquanto uma estrutura organizativa e isso nos levará a um maior poder de influência sobre o debate político geral. E nesse momento, acreditem, não é só por nós, LGBTs, mas por todas e todos nós que sofremos sob o jugo de um projeto que governa pelo ódio.

Diversas e diversos do mundo, uni-vos!

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