O terrorismo político dos Bolsonaros e a hipocrisia da segurança seletiva
A família Bolsonaro prefere o atalho da teatralização
Há uma diferença essencial entre defender segurança pública e instrumentalizar o medo como método político. Segurança pública pressupõe Estado, legalidade, inteligência, prevenção, controle democrático das forças armadas e policiais, enfrentamento do crime organizado e proteção da população. Terrorismo político, ao contrário, é a conversão do medo em palanque; é a exploração calculada do pânico social para produzir adesão, inimigos internos, exceção permanente e submissão da soberania nacional a interesses privados, familiares ou estrangeiros.
É exatamente nesse ponto que a família Bolsonaro, agora por meio de Flávio Bolsonaro, revela a sua contradição mais profunda. Apresenta-se como defensora da ordem, da lei e da segurança, mas opera politicamente pela lógica da desordem institucional, do confronto fabricado e da chantagem permanente contra a democracia. Diz combater o crime, mas sempre conviveu com um estranho silêncio seletivo diante das milícias. Brada contra facções criminosas quando isso serve para atacar o governo Lula, mas nunca demonstrou o mesmo entusiasmo quando o tema são os grupos paramilitares que dominaram territórios, exploraram populações pobres, mataram, extorquiram, controlaram serviços, elegeram representantes e penetraram nas estruturas do Estado.
A recente movimentação de Flávio Bolsonaro nos Estados Unidos, buscando apoio para classificar facções brasileiras como organizações terroristas, não pode ser lida apenas como agenda de segurança. Trata-se de gesto político calculado. Ao levar a Washington um problema interno brasileiro, o senador não está apenas discutindo crime organizado: está internacionalizando a segurança pública nacional como arma eleitoral. Mais grave: faz isso perante um governo estrangeiro, buscando produzir constrangimento diplomático contra o próprio país. O que se vende como patriotismo é, na prática, a terceirização da soberania.
Não se trata de negar a brutalidade do PCC, do Comando Vermelho ou de qualquer organização criminosa. Essas organizações impõem terror real às comunidades, corrompem agentes públicos, financiam redes econômicas ilícitas, controlam territórios e submetem a população periférica a regimes paralelos de medo. O ponto é outro: crime organizado não se combate com espetáculo diplomático, nem com a importação oportunista de categorias estrangeiras para alimentar campanha eleitoral. Combate-se com inteligência financeira, cooperação federativa, rastreamento patrimonial, controle de armas, reforma das polícias, proteção de testemunhas, repressão qualificada à lavagem de dinheiro e presença efetiva do Estado nas periferias.
A família Bolsonaro, no entanto, prefere o atalho da teatralização. Sua política de segurança sempre dependeu de imagens simples: o inimigo absoluto, o bandido sem rosto, o cidadão amedrontado, a arma como fantasia de autonomia, a polícia como instrumento de guerra e a democracia como obstáculo. Esse é o núcleo do terrorismo político bolsonarista: produzir uma sensação contínua de ameaça para, em seguida, apresentar-se como única força capaz de salvar a sociedade. Primeiro espalha-se o medo; depois vende-se a salvação autoritária.
A hipocrisia aparece quando se observa o outro lado dessa retórica. A família Bolsonaro não nasceu politicamente como inimiga das milícias. Ao contrário, sua trajetória pública sempre foi acompanhada por proximidades, homenagens, convivências políticas e relações documentadas com personagens ligados a esse universo. No caso de Flávio Bolsonaro, é fato público que seu antigo gabinete na Assembleia Legislativa do Rio empregou familiares de Adriano da Nóbrega, ex-capitão do Bope apontado como chefe de milícia. Também é fato público que Fabrício Queiroz, ex-assessor de Flávio, tornou-se personagem central das investigações sobre a chamada “rachadinha” e apareceu em sucessivos episódios envolvendo dinheiro, assessores, familiares e personagens ligados ao submundo político-policial do Rio de Janeiro.
Aqui se encontra a fratura moral do discurso. Quando o crime organizado é PCC ou Comando Vermelho, Flávio Bolsonaro busca enquadrá-lo como terrorismo internacional, pede socorro aos Estados Unidos e tenta posar como estadista da segurança. Quando o crime organizado assume a forma da milícia — essa mistura perversa de policialismo, exploração territorial, extorsão comunitária, assassinato político e poder eleitoral — o bolsonarismo perde a voz. O rigor desaparece. A indignação diminui. A retórica da guerra contra o crime torna-se subitamente seletiva.
Essa seletividade não é acidental. As milícias não são apenas grupos criminosos; elas constituem uma forma política de ocupação do território. Diferentemente das facções tradicionais, que se estruturam em torno do tráfico e de mercados ilícitos, as milícias nasceram reivindicando aparência de ordem: vendiam proteção, diziam combater o tráfico, apresentavam-se como “limpeza” social. Essa linguagem sempre dialogou com o imaginário autoritário da extrema-direita: o homem armado como solução, a violência como justiça, a ilegalidade como eficiência, a comunidade pobre como espaço a ser dominado e não como território de direitos.
Por isso, a associação simbólica entre bolsonarismo e milicianismo é mais profunda do que a soma de episódios isolados. Ambos compartilham um mesmo discurso político: culto à força, desprezo por mediações institucionais, naturalização da morte, demonização de adversários, privatização da violência e hostilidade à democracia. A milícia é o Estado de exceção em escala territorial; o bolsonarismo é a tentativa de nacionalizar essa lógica como programa político.
Flávio Bolsonaro tenta transformar segurança pública em cartão de visitas internacional, mas carrega atrás de si uma história que não se apaga com reunião em Washington. O problema não é defender medidas duras contra o crime. O problema é defender medidas duras apenas contra determinados crimes, enquanto se relativiza ou se silencia diante de outros, especialmente aqueles que orbitam o próprio campo político. A coerência exigiria enfrentar facções, milícias, lavagem de dinheiro, corrupção policial, financiamento ilegal, tráfico de armas e infiltração criminosa na política com o mesmo rigor. Mas o bolsonarismo não busca coerência; busca utilidade eleitoral.
A retórica bolsonarista sobre segurança é, portanto, uma retórica de conveniência. Quando interessa desgastar Lula, o crime vira terrorismo. Quando interessa mobilizar base radicalizada, a soberania brasileira vira moeda de troca. Quando interessa alimentar ressentimento social, a violência policial vira espetáculo. Quando interessa proteger aliados, relações incômodas são tratadas como coincidência, perseguição ou detalhe irrelevante.
É nesse sentido que se pode falar em terrorismo político. Não porque Flávio Bolsonaro ou sua família sejam juridicamente enquadrados como terroristas, mas porque utilizam o terror como linguagem de poder. O terrorismo político é o método de produzir pânico, crise e inimigo permanente para capturar a sociedade pelo medo. É o uso da ameaça — real ou ampliada — como instrumento de disputa eleitoral. É a aposta de que uma população acuada aceita qualquer coisa: exceção, tutela estrangeira, arbítrio, violência, ruptura institucional.
A família Bolsonaro já demonstrou reiteradas vezes que sua ideia de ordem não é a ordem constitucional, mas a ordem da obediência. Sua ideia de segurança não é a proteção universal da população, mas a autorização para que determinados grupos armados atuem como intérpretes da lei. Sua ideia de patriotismo não é a defesa da soberania nacional, mas a submissão do país a potências estrangeiras quando isso favorece seus interesses políticos. Sua ideia de combate ao crime não é republicana; é facciosa.
O Brasil precisa combater o crime organizado com seriedade. Precisa enfrentar o PCC, o Comando Vermelho, as milícias, os esquemas de lavagem de dinheiro, a captura de territórios e a corrupção institucional. Mas exatamente por isso não pode entregar esse debate a quem transforma segurança pública em espetáculo de medo. A política criminal de um país não pode ser redigida por oportunismo eleitoral, nem patrocinada por quem sempre tratou a violência como capital político.
A hipocrisia de Flávio Bolsonaro está em posar de defensor da segurança enquanto pertence a uma família que normalizou a linguagem da intimidação, estimulou o armamentismo, flertou com rupturas institucionais, relativizou a violência política e conviveu com sombras milicianas. Quem se alinha, direta ou simbolicamente, ao universo da milícia não tem autoridade moral para pedir ao mundo uma cruzada contra o crime organizado como se fosse portador da pureza republicana.
No fundo, o bolsonarismo não combate o terror: ele o administra. Alimenta o medo para colher votos. Amplia a insegurança para vender autoridade. Grita contra o crime quando o crime lhe serve como peça de propaganda. Silencia quando o crime lhe devolve o retrato de suas próprias alianças.
A segurança pública brasileira exige coragem, inteligência e compromisso democrático. O que Flávio e a família Bolsonaro oferecem é outra coisa: pânico como método, soberania como moeda, hipocrisia como discurso e violência como projeto. Isso não é política de segurança. É terrorismo político vestido de patriotismo.
* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.

