"O tinhoso Górki relembra conversas com o marrento Tolstói e o suave Tchékhov"
Crítica à leitura de Mario Sergio Conti sobre Górki, Tolstói e Tchékhov em “Três Russos”
O jornalista Mario Sergio Conti publica na Folha de São Paulo deste sábado um artigo sobre o livro “Três Russos”, de Máximo Górki. O título do texto, que copio acima, já anuncia e denuncia o que virá. “Tinhoso”, além de insistente e teimoso, no Nordeste é o mesmo que Diabo. E, pelo que conheço do livro “Três Russos”, esse é o sentido do título de Mario Sergio Conti. No título, ainda se vê “marrento” como adjetivo para Tolstói. Marrento é mais que ter marra, ser ousado e forte. No sentido do texto na Folha, é pessoa que age com arrogância, abusada e atrevida. Eu jamais vi tamanha depreciação contra um dos maiores da literatura russa, um dos gênios do mundo. Pode ser dito que esse marrento se aplica a Tolstói no livro de Máximo Górki. A emenda é pior que o soneto.
No texto de Conti se veem coisas como “A figura mais espantosa do livro é Gorki, cuja reputação de escritor menor e homem execrável está fundamente enraizada”. Não é, nem no livro nem na reputação. Em “Três Russos”, a figura — que digo, a pessoa mais espantosa — é Tolstói. Nesse livro, Górki levantou voo para a sua melhor obra, depois de ter escrito romances, memórias e peças de teatro que marcaram gerações em todo o mundo. Para um escritor menor, é muito. E vemos ainda no texto publicado de Conti:
“Já Tolstói passa a detestar Gorki. Diz a Tchékhov que ele ‘tem alma de espião’, ‘é como um seminarista que foi obrigado a se ordenar e se tornou amargo em relação a tudo’. Tchékhov retruca que ‘Gorki é um homem bom’, e o marrento Tolstói parte para a ignorância: ‘ele tem um bico de pato em vez do nariz, e só os miseráveis e perversos têm nariz assim’.
Tchékhov, que, como médico, tinha de ser frio, chorou ao contar o caso”.
Isso é mentira. Além de um insulto a Tolstói, é uma incompreensão absoluta do que está no texto de Górki. Cito o trecho no livro, que se refere ao caso:
“Com esse riso simpático e cordial, Tchékhov me contou:
— Sabe por que Tolstói é tão instável com você? Ele tem ciúme, acha que Sulerjítski gosta mais de você do que dele. Sim, senhor. Ontem mesmo ele me disse: ‘Não consigo tratar Górki com sinceridade, nem eu mesmo sei por quê, mas não consigo. Desagrada-me até o fato de Súler morar na casa dele. Isso faz mal a Súler. Górki é uma pessoa má. Parece um seminarista que foi forçado a tomar o hábito, e com isso deixaram-no com raiva de tudo. Tem a alma de um informante que veio sei lá de onde a uma terra estranha para ele, a Canaã, e olha tudo atentamente, nota tudo e depois dá parte ao seu Deus. E seu Deus é um monstro — uma espécie de silvano ou de homem das águas, aqueles da mulherada camponesa’.
Contando, Tchékhov ria até chorar e, enxugando os olhos, prosseguia:
— Eu lhe disse: ‘Górki é uma pessoa boa’. E ele: ‘Não, não, eu sei. E ele tem um nariz de pato que só gente infeliz ou maldosa tem...’
Ao recobrar o fôlego, Tchékhov repetiu:
— Sim, o velho está com ciúmes, o que é surpreendente”.
Todos vemos. Ao contar sobre o ciúme do gênio, Górki escreveu que Tchékhov chorou, mas de tanto rir! Bem diferente do “Tchékhov, que, como médico, tinha de ser frio, chorou ao contar o caso”. É claro que existe muita má-fé nessa incompreensão de Mario Sergio Conti.
Que diferença de compreensão para a grandeza. Em mais de dez leituras que me deram um prazer sempre renovado, sobre o livro de Górki anotei:
De todas as leituras que fiz sobre Tolstói para entendê-lo, para ter respostas para “quem é esse louco? De que natureza é feita essa percepção?”, de tudo com que pretendi apreendê-lo, naquela vã vontade de tomá-lo como se pega em bola de sabão, nada mais concreto e complexo se compara ao que sobre Tolstói escreveu Máximo Górki no livro “Três Russos”. Atenção, escritores de todas as tendências, atenção, leitores ávidos de conhecimento, atenção, amantes de todas as literaturas: vocês não verão nenhum livrinho de análise viva e aguda tão precioso quanto esse livro. De Thomas Mann a André Maurois, das vanguardas russas às europeias, das modas de todo o mundo universitário às escolas mais rebeldes, todos reconhecem o valor de “Três Russos”, de Máximo Górki. Os três russos do livro são, “apenas”: Tolstói, Tchékhov e Andreiev. Entendam a razão. Cito com prazer, digito com paciência frases referentes a Tolstói:
“Uma tarde, ao crepúsculo, ele lia, piscando os olhos e remexendo as sobrancelhas, uma variante da cena do Padre Sérgio, em que uma mulher se dirige à casa do eremita para seduzi-lo. Quando acabou de ler, levantou a cabeça e, fechando os olhos, pronunciou distintamente:
— Escreve bem isto, o velho! Muito bem!
Isso nele foi de tão admirável simplicidade, sua admiração pela beleza era tão sincera, que não esquecerei jamais a alegria que senti nesse momento, uma alegria que eu não podia nem sabia exprimir, mas que tive também grande pesar em reprimir. Por um instante meu coração cessou de bater, mas depois tudo, em volta de mim, se tinha tornado novo e de um vivificante frescor”.
Agora notem a crítica a uma personagem de Górki, recuperada no livro:
“Tolstói me fez sentar à sua frente e se pôs a falar de Varenka Olessova e de Vinte e seis e uma. Fiquei atordoado pela voz dele, de tal modo falava crua e brutalmente, demonstrando que o pudor não era próprio da natureza de uma jovem sadia:
— Uma moça que passou dos quinze anos, que tem um bom físico, deseja que a beijem, que mexam com ela. A razão dela teme ainda o desconhecido, o que ela não compreende, e é o que se chama de castidade, pudor. Mas a carne já sabe que o incompreensível é inevitável, legítimo, e exige que a lei se cumpra, a despeito da razão. No entanto, em casa essa Varenka, que você descreve como boa e forte, tem sensações de anêmica. Isso é falso!”.
E mais esta lição fundamental de literatura, que Máximo Górki gravou para todos nós, felizes leitores de “Três Russos”:
“— Em Moscou, perto da Torre Sukharev, num beco, vi no outono uma mulher embriagada. Estava deitada, bem junto ao passeio. Do pátio de uma casa vinha se escoando um enxurro de água imunda, que escorria mesmo por sua nuca e suas costas. A mulher deitada nesse molho frio resmungava, agitava-se. Seu corpo recaía, agitando na imundície. Ela, porém, não conseguia se levantar.
Tolstói estremeceu, fechou os olhos, balançou a cabeça e propôs afavelmente:
— Sentemo-nos aqui... Uma mulher embriagada é a coisa mais horrível e ignóbil que há. Eu quis ajudá-la a se levantar, mas não pude me decidir a isso. Tive um excessivo desgosto: ela estava tão pegajosa, tão molhada; quem a tocasse não teria sido bastante um mês para limpar as mãos. Que horror! E durante esse tempo estava sentado no meio-fio da calçada um rapazinho louro, de olhos pardos, as lágrimas corriam ao longo de suas faces, fungava e repetia numa voz desesperada: “Ma-mãe… então, levante-se”. Ela mexia os braços, dava um grunhido, erguia a cabeça e recaía de novo, flac! com a cabeça na lama.
Calou-se, depois, olhando bem em volta de si, repetiu ansiosamente, quase num murmúrio:
— Sim, sim, é horrível! Você tem visto muitas mulheres embriagadas? Muitas, sim, ah, meu Deus! Não descreva isto, não é preciso!
— Por quê?
Olhou-me nos olhos e repetiu sorrindo:
— Por quê?
Depois disse lentamente, com um ar pensativo:
— Não sei. Eu disse isso assim… tem-se vergonha de escrever porcarias. E, no entanto, por que não? É preciso escrever sobre tudo…
Lágrimas vieram-lhe aos olhos. Enxugou-as e, sempre sorrindo, olhou o lenço, enquanto as lágrimas continuavam a correr ao longo de suas faces.
— Eu choro. Sou velho e me aperta o coração quando evoco uma lembrança horrorosa.
E, me empurrando ligeiramente com o cotovelo:
‘Você também, quando tiver vivido sua vida, ao passo que tudo permanecerá como dantes, você chorará, e ainda mais do que eu, ‘aos baldes’, como dizem as mulheres do povo. Mas é preciso escrever tudo, sobre tudo. De outra forma o rapazinho louro nos quereria mal, nos censuraria. ‘Não é a verdade, não é toda a verdade’, dirá ele. E ele é severo no que se refere à verdade’”.
Em resumo, eu e Mario Sergio Conti não lemos o mesmo livro.
* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.

