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André Barroso

Artista plástico da escola de Belas Artes da UFRJ com curso de pós-graduação em Educação e patrimônio cultural e artístico pela UNB. Trabalhou nos jornais O Fluminense, Diário da tarde (MG), Jornal do Sol (BA), O Dia, Jornal do Brasil, Extra e Diário Lance; além do semanário pasquim e colaboração com a Folha de São Paulo e Correio Braziliense. 18h50 pronto

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O touchdown de Bad Bunny sobre Trump

Performance do artista porto-riquenho transforma espetáculo em ato político contra o supremacismo e reafirma a identidade latina nos Estados Unidos

Bad Bunny no Super Bowl (Foto: Reuters)

Para o mundo todo, Bad Bunny — o papito Benito Antonio Martinez Ocasio — fez a maior pontuação na NFL. Maior que Jerry Rice. Colocou a latinidade, sua mistura de trap e reggaeton, mostrando a representatividade diante de Trump. Desde que o presidente estadunidense iniciou sua política de deportação, também iniciou um processo de guerra civil em um país que notadamente surgiu através da imigração. Porém, a luta de Trump é supremacista. Desde criança, Donald tinha os exemplos da própria casa. Seu pai, Fred Trump, era um conhecido membro da Ku Klux Klan (KKK) em Nova Iorque. A ideia da MAGA trumpista baseia-se em um mundo racista, que separa a humanidade em uma hierarquia de raças. Ao longo da vida, colecionou casos de racismo, como em 1973, quando o Departamento de Justiça processou Trump por violar a Fair Housing Act, ao se recusar a alugar imóveis para pessoas negras. Tudo começou com as deportações em massa e agora as prisões arbitrárias do ICE, tal qual a Gestapo nazista.

Depois das grandes manifestações em Minnesota, escondidas pela grande imprensa brasileira, foi a vez da melhor manifestação, com direito a transmissão ao vivo para o mundo todo: o show provocativo de Bad Bunny. Rico é ser latino. Com essa frase, o cantor porto-riquenho começa seu show, atrás de um canavial e usando chapéu de palha. A PAVA é usada pelos jíbaros para proteção do sol e é a identidade cultural do povo, assim como a roupa branca, herança dos escravos que usavam na extração da cana. A todo o momento, exalta os latinos, não se expressando em inglês e colocando quiosques variados, como de venda de coco e piraguas, mesinha de dominó, manicures e pedreiros trabalhando nos EUA. Ele começa cantando Me perreo sola com a música Party, em uma representação de casa latina, com a participação de nomes como Pedro Pascal, Cardi B, Carol G, Jéssica Alba e Young Miko. A festa rola solta com seus sucessos.

A pontuação da reafirmação da latinidade foi muito importante, em um momento em que Trump invade a Venezuela e rapta Maduro, com a alegação falsa de que ele era o chefe de uma organização de tráfico internacional; rouba o petróleo da maior reserva do mundo; fecha rotas marítimas; explode barcos que, de uma hora para outra, encerram as ações contra supostos envios de drogas aos EUA. Trump já falou, por exemplo: "Infelizmente, a esmagadora quantidade de crimes violentos nas nossas grandes cidades é cometida pelos negros e pelos hispânicos. Um assunto que precisa ser discutido". Ou então, quando falou sobre venezuelanos: "as pessoas mais feias que já viu”. Isso sem contar a postagem racista contra Obama e sua esposa.

A corda fascista sempre foi testada por Trump ao longo de seu mandato. A condenação de Trump, em 2025, por 34 acusações de falsificação de registros comerciais e as recentes acusações do caso Jeffrey Epstein, de pedofilia, parecem não preocupar a maior parte dos estadunidenses para aplicar um impeachment. Trump é citado nos arquivos Epstein mais de mil vezes, com acusações de pedofilia, enquanto Stevie Wonder foi citado uma vez por ser considerado anti-Israel, após se recusar a fazer um show para o exército do país. Parece que, para os liberais, a fome de lucro funciona bem na economia como princípio do prazer mundano. O homem se reproduz e melhora a espécie porque o sexo é bom; o empreendedor produz riqueza e nada vai coibi-lo de sentir vergonha. O povo fica condenado ao voyeurismo, enquanto poucos fazem lucros e se lambuzam com ele. E isso não dá prazer. Só revolta.

Os liberais gostariam que fôssemos como abelhas ou formigas, onde cada um nasce com sua função predeterminada e ninguém, que se saiba, reclama do sistema. O altruísmo não existe na humanidade para fazer funcionar uma sociedade. Se houvesse, não precisaríamos de governos. Governos existem para substituir os altruístas. E hoje, nos Estados Unidos, parece que a elite e o governo se unem para currar a população. Mas a esperança é uma luta constante contra o fascismo.

Como disse Bad Bunny: “Ainda estamos aqui!”.

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.