O Tsunami Cavalo Preto
No plano nacional, o grande beneficiário da inevitável desidratação de Flávio Bolsonaro será, sem dúvida, o presidente Lula
O tempo é realmente uma força peculiar. Uma narrativa que catapultou o extremismo no Brasil em 2018 — e contribuiu decisivamente para que ele se espraiasse pelo país — pode agora ser o instrumento de sua própria ruína. Lá, pelas telas e páginas da imprensa; aqui, pela grande tela. A narrativa sobre a facada, que alguns até hoje duvidam ter ocorrido exatamente como contada, e que seria transformada em filme a ser lançado nos cinemas, pode representar a pá de cal sobre as pretensões eleitorais da família Bolsonaro.
No plano nacional, o grande beneficiário da inevitável desidratação de Flávio Bolsonaro — ou até mesmo de sua eventual desistência — será, sem dúvida, o presidente Lula. Inclusive, e talvez com ainda maior intensidade, caso a candidatura insista em carregar o mesmo sobrenome que hoje acumula tanto peso quanto bagagem judicial.
Mas o problema para o projeto extremista-familiar não se limita ao plano federal. Ele deve se espalhar pelos estados com força própria. As candidaturas que se penduraram no potencial eleitoral que o projeto Bolsonaro oferecia até ontem terão de se explicar — e sangrarão juntas. Talvez não com a mesma intensidade da crise nacional, mas carregarão feridas expostas. O discurso dos "limpinhos", probos, anticorrupção que muitos deles utilizam como sustentáculos de suas imagens públicas simplesmente ruirá.
E quem ganha com isso, à primeira vista? A esquerda ou a centro-esquerda? Em um primeiro momento, provavelmente não. Fora nos estados em que o PT governa — onde serão os grandes beneficiados —, nos demais tende a se abrir de imediato uma avenida para as candidaturas de centro-direita que foram alijadas do projeto nacional bolsonarista, e para aquelas que, posicionando-se ao centro, corriam em raia própria.
A médio e longo prazo, porém — ou seja, até o dia das eleições em primeiro turno —, candidaturas de centro-esquerda podem emergir como grandes beneficiadas. E aqui se revelará acertada a estratégia da campanha de Lula de abrir-se para alianças nos estados. Na região Sul, com Juliana Brizola no Rio Grande do Sul, Gelson Merisio em Santa Catarina e Requião Filho no Paraná, o campo progressista pode colher bons frutos desse processo. O mesmo vale para candidaturas como a da Dra. Janaína no Mato Grosso e outras espalhadas pelo Brasil.
A onda que começou a se formar no centro do país crescerá, levando consigo os destroços do projeto da extrema-direita para todos os cantos. Os responsáveis pelo filme escolheram a data de 11 de setembro para o lançamento — coincidência ou não com o aniversário dos ataques às Torres Gêmeas nos Estados Unidos. Mas há uma ironia cruel na escolha. Em 2001, os terroristas planejaram um ataque devastador que mudou o mundo e fortaleceu aqueles que pretendiam destruir. Aqui, a lógica se inverte: quem tentou construir um instrumento de propaganda eleitoral no dia símbolo do terror global acabou detonando uma bomba nos próprios pés. Não produziram um ataque às torres gêmeas do adversário — produziram um tsunami contra si mesmos, de proporções que ainda não conseguem medir.
* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.

