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Gustavo Tapioca

Jornalista formado pela Universidade Federal da Bahia e MA pela Universidade de Wisconsin-Madison. Ex-diretor de redação do Jornal da Bahia, foi assessor de Comunicação Social da Telebrás, consultor em Comunicação do Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) e do (IICA/OEA). Autor de "Meninos do Rio Vermelho", publicado pela Fundação Casa de Jorge Amado.

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O tsunami da inteligência artificial e a nova guerra pelo controle do mundo

A corrida global entre Estados, big techs e complexos militares pela supremacia tecnológica pode redefinir a democracia, a soberania e o futuro da humanidade

Ilustração com letras e mão metálica - 23/06/2023 (Foto: Reuters/Dado Ruvic)

Um alerta que não pode ser ignorado

O alerta mais grave já feito sobre inteligência artificial não veio de um governo, de um órgão regulador ou de um pesquisador alarmista. Veio de dentro do próprio centro do poder tecnológico mundial — o Vale do Silício — e da boca de um dos homens que está construindo a tecnologia que pode redefinir o equilíbrio de forças entre países, empresas e sociedades.

Dario Amodei, ex-OpenAI e hoje CEO da Anthropic, uma das empresas que lideram a corrida global pela chamada Inteligência Artificial Geral (AGI), avaliada em centenas de bilhões de dólares, afirmou, em entrevista à televisão norte-americana, que o mundo pode não estar preparado para o que está prestes a acontecer.

Não se trata de ficção científica.

Não se trata de um crítico externo.

Não se trata de um político em busca de manchetes.

É um dos criadores da tecnologia dizendo que teme a própria criação.

Amodei comparou o avanço da inteligência artificial a um tsunami no horizonte — visível, inevitável e gigantesco. Segundo ele, sistemas capazes de superar a inteligência humana em várias áreas podem surgir ainda nesta década, talvez antes que governos, leis ou instituições democráticas consigam reagir.

Questionado sobre quem autorizou um pequeno grupo de executivos a tomar decisões que podem remodelar a economia mundial, alterar o equilíbrio militar entre potências e influenciar o funcionamento das democracias, a resposta foi desconcertante:

“Ninguém. Honestamente, ninguém".

As big techs tornaram-se atores geopolíticos

Nunca, na história, uma tecnologia com tamanho poder esteve nas mãos de tão poucas pessoas — e sob tão pouco controle público.

A corrida pela inteligência artificial já envolve Estados, forças armadas, serviços de inteligência e as maiores empresas do planeta. Estados Unidos e China tratam o tema como questão estratégica. O complexo militar-industrial acompanha cada avanço. As big techs tornaram-se atores geopolíticos.

A nova corrida armamentista não é nuclear. É digital.

E cresce, entre analistas, a avaliação de que o mundo já entrou em uma fase de confrontos indiretos, guerras híbridas e disputas tecnológicas permanentes, nas quais a inteligência artificial ocupa posição central.

O tsunami já está se formando. E ninguém sabe quem conseguirá controlá-lo.

A nova corrida global pela inteligência artificial

O mundo entrou em uma nova fase histórica, comparável às grandes rupturas que redefiniram o poder entre nações. A diferença é que, desta vez, a disputa não é apenas por território ou recursos naturais. A disputa é pelo controle da inteligência artificial.

Quem dominar essa tecnologia terá vantagem econômica, superioridade militar, capacidade de vigilância e influência política em escala global.

Estados Unidos, China, União Europeia, Rússia e Israel tratam o tema como questão de segurança nacional. Bilhões de dólares são investidos em pesquisa, infraestrutura e sistemas estratégicos. A inteligência artificial tornou-se eixo central da disputa por hegemonia no século XXI.

As grandes empresas de tecnologia deixaram de ser apenas corporações privadas. Tornaram-se infraestruturas globais de poder.

Controlam dados, nuvens, redes sociais, sistemas operacionais e plataformas usadas por bilhões de pessoas. Decisões tomadas em centros tecnológicos na Califórnia ou em laboratórios asiáticos podem afetar economias, eleições e conflitos em qualquer parte do planeta.

Nunca tanto poder esteve concentrado em tão poucas mãos.

A nova corrida não é por território. É pela supremacia digital.

Quem controlar a inteligência artificial poderá influenciar a economia, a segurança, a informação e o próprio funcionamento das democracias.

Big Tech, poder e o novo imperialismo digital

A nova forma de dominação global não precisa de tropas ocupando países. Precisa de servidores, centros de dados, satélites e algoritmos.

Quem controla a infraestrutura digital controla comunicações, mercados, sistemas financeiros e o fluxo de informação que molda a opinião pública.

Hoje, países inteiros dependem de plataformas e tecnologias controladas por um pequeno número de corporações sediadas, principalmente, nos Estados Unidos. Isso cria uma dependência silenciosa, mas profunda. Dependência tecnológica. Sem soberania digital, não existe soberania política plena.

A América Latina entra nessa nova era em posição vulnerável. Importa tecnologia, importa plataformas, importa inteligência artificial. Não controla as redes, não controla os dados e não controla as infraestruturas críticas.

Nesse cenário, a região torna-se campo de disputa entre grandes potências.

Estados Unidos e China competem por influência tecnológica. A Europa tenta preservar autonomia. E países como o Brasil correm o risco de se tornar apenas mercado consumidor e território de uso.

A inteligência artificial deixa de ser apenas tema técnico.

Torna-se tema estratégico, político e eleitoral.

Sistemas capazes de manipular informação em larga escala podem interferir no funcionamento das democracias. Em um mundo polarizado, algoritmos podem amplificar conflitos, direcionar narrativas e influenciar decisões coletivas.

A próxima disputa pelo poder pode não acontecer apenas nas urnas.

Pode acontecer nos algoritmos.

Inteligência artificial e o complexo militar-industrial

A inteligência artificial tornou-se peça central do complexo militar-industrial que sustenta o poder das grandes potências.

Sistemas de IA já são usados em vigilância, reconhecimento de alvos, drones autônomos, análise de dados estratégicos, guerra cibernética e planejamento militar em tempo real.

Estados Unidos, China, Rússia, Israel e países da OTAN investem bilhões nessa área. Documentos oficiais tratam a inteligência artificial como tecnologia decisiva para conflitos futuros.

Empresas que desenvolvem IA mantêm contratos com governos e agências de defesa. Tecnologias criadas para uso civil rapidamente ganham aplicações militares.

Os conflitos recentes mostram que essa transformação já começou.

A guerra na Ucrânia, as tensões entre OTAN e Rússia, a rivalidade entre Washington e Pequim e a escalada militar no Oriente Médio — incluindo ataques envolvendo Estados Unidos, Israel e forças ligadas ao Irã — indicam um período de instabilidade estratégica permanente.

Ataques cibernéticos, drones, operações de desinformação e análise massiva de dados passaram a fazer parte da lógica da guerra contemporânea.

Por isso, cresce, entre especialistas, a avaliação de que a chamada Terceira Guerra Mundial pode não começar com uma declaração formal, mas com uma sequência de conflitos regionais, confrontos indiretos e disputas tecnológicas.

A nova corrida armamentista é digital.

E a inteligência artificial está no centro dela.

A guerra invisível: dados, algoritmos e manipulação

No século XXI, a guerra também é informacional.

A inteligência artificial permite criar textos, imagens, vídeos e vozes indistinguíveis da realidade. Isso transforma a informação em arma.

Algoritmos identificam preferências, medos e crenças de milhões de pessoas. Mensagens podem ser direcionadas com precisão para influenciar opiniões e comportamentos.

Não é apenas propaganda. É engenharia de opinião pública.

Campanhas digitais coordenadas já mostraram capacidade de interferir em debates políticos e processos eleitorais. Com IA generativa, esse poder aumenta exponencialmente.

A fronteira entre verdade e mentira torna-se difusa.

Vídeos falsos parecem reais.

Discursos podem ser fabricados.

Perfis automatizados simulam milhões de pessoas.

Em sociedades polarizadas, isso cria risco real de desestabilização.

O Brasil não está fora desse cenário.

Em um ambiente de disputa política intensa, a combinação entre redes sociais, algoritmos e inteligência artificial cria condições para manipulação em larga escala.

Nunca foi tão fácil influenciar milhões de pessoas.

A guerra moderna acontece também nas telas.

E quem controla os algoritmos pode influenciar o que as pessoas acreditam — e em quem elas votam.

O futuro está sendo decidido agora

A inteligência artificial representa uma mudança estrutural na forma como o poder é exercido no mundo.

Pela primeira vez, uma tecnologia capaz de transformar economia, guerra, política e comunicação avança mais rápido do que a capacidade das sociedades de controlá-la.

Governos reagem tarde.

Leis chegam depois.

Instituições não foram projetadas para essa velocidade.

Ao mesmo tempo, a IA torna-se peça estratégica na disputa entre potências, na modernização dos arsenais e na competição por influência global.

A nova ordem internacional começa a ser definida por algoritmos.

Quem controla os dados controla a informação.

Quem controla a informação influencia decisões.

Quem influencia decisões controla o poder.

Nunca tivemos tanta tecnologia.

Nunca tivemos tanto conhecimento.

E nunca estivemos tão próximos de perder o controle sobre nossas próprias criações.

O alerta vindo de dentro do Vale do Silício não é exagero.

Quando os próprios criadores admitem que não sabem até onde isso pode chegar, o problema deixa de ser técnico.

Passa a ser civilizatório.

O mundo já entrou nessa nova fase.

O tsunami está se formando.

A pergunta não é se ele virá.

A pergunta é quem terá poder para decidir o que restará depois dele.

* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.