O Vale do Silício quer governar
De Palantir Technologies a outras gigantes do Vale do Silício, corporações deixam de influenciar o Estado e passam a redefinir o próprio conceito de poder
Um novo manifesto escancara o que antes era implícito. Não se trata mais de inovação, mas de uma disputa direta pelo controle da realidade governável, em que a política cede lugar a sistemas e a soberania é reconfigurada por arquiteturas algorítmicas.
O manifesto do novo poder
Durante anos, o Vale do Silício vendeu a si mesmo como laboratório de inovação, conveniência e futuro. Aplicativos, nuvem, redes, dados, interfaces. Por trás dessa estética limpa, porém, amadureceu outra ambição. Ela agora começa a ser dita sem rodeios. O site de The Technological Republic, livro de Alexander Karp e Nicholas Zamiska, afirma que o Vale “perdeu o rumo” e sustenta que, para preservar a vantagem global dos Estados Unidos e de seus aliados, a indústria de software deve renovar seu compromisso com os desafios estratégicos do Ocidente, inclusive a nova corrida armamentista da inteligência artificial. Não se trata de uma metáfora vaga. Trata-se de uma convocação explícita para recolocar engenheiros, empresas e plataformas no coração da segurança nacional, da política de defesa e da própria definição de interesse público.
O dado mais revelador é que esse horizonte deixou de aparecer apenas em entrevistas longas, livros de circulação restrita ou discursos codificados para investidores. Neste domingo, 19 de abril de 2026, a Palantir publicou no X uma versão resumida, em 22 pontos, da visão de mundo de Karp. O texto sustenta que o Vale do Silício tem uma “dívida moral” com o país que permitiu sua ascensão, declara que “e-mail gratuito não basta”, afirma que o verdadeiro poder coercitivo deste século será construído sobre software, defende a construção de armas com IA, celebra uma nova era de dissuasão algorítmica e termina atacando o que chama de pluralismo vazio, inclusividade abstrata e culturas “regressivas e prejudiciais”. O que antes podia ser tratado como subtexto corporativo virou enunciação direta.
Esse ponto é decisivo porque muda a natureza do problema. Já não estamos diante apenas de empresas que exercem influência excessiva sobre governos, financiam campanhas, fazem lobby ou vendem infraestrutura. Estamos diante de corporações que passaram a formular publicamente uma teoria do poder. E essa teoria parte de uma premissa muito clara: a democracia liberal, com seus ritos, mediações e lentidões, já não seria suficiente para proteger o Ocidente, garantir ordem interna e sustentar supremacia geopolítica. Em seu lugar, entraria uma nova aliança entre software, Estado e poder coercitivo. A crítica feita pelo CEO do Bellingcat, Eliot Higgins, após a publicação do texto da Palantir, foi precisa: os 22 pontos não são filosofia solta no espaço, mas a ideologia pública de uma empresa cuja receita depende justamente da política que ela está defendendo.
Lido isoladamente, esse manifesto já seria grave. Lido à luz do que a própria Palantir representa, torna-se ainda mais eloquente. Não se trata de uma companhia qualquer opinando sobre rumos civilizacionais. Trata-se de uma empresa que cresceu vendendo plataformas para defesa, inteligência, polícia, fronteiras e gestão estatal, e que converteu software em instrumento de decisão operacional. É exatamente esse ponto que atravessa, sob outra chave, reflexões que já vinham sendo desenvolvidas em torno do Vale do Silício e de Peter Thiel: a técnica deixa de aparecer como ferramenta neutra e passa a reivindicar para si uma função de ordem, contenção do caos e reorganização da vida coletiva. Essa mutação já aparecia como crítica ao “cristianismo do capital” e à elevação do engenheiro à condição de novo sacerdote de uma civilização fundada em vigilância, hierarquia e promessa de salvação pela máquina.
É por isso que o manifesto da Palantir precisa ser levado a sério. Não porque seja excêntrico ou provocativo, mas porque condensa com rara nitidez aquilo que parte importante da elite tecnológica vinha insinuando havia anos. O que está em jogo não é apenas uma mudança de discurso empresarial. É a passagem de um setor que antes queria vender soluções para o Estado a um setor que agora pretende redefinir o próprio significado de governar. O manifesto é o sintoma visível de uma transformação mais profunda. E, como quase sempre acontece nas crises históricas, o sintoma apareceu em público quando a doença já estava avançada.
O Vale do Silício deixou de querer apenas influenciar
A leitura isolada do manifesto da Palantir Technologies pode levar ao erro de tratá-lo como um desvio, uma excentricidade ou até mesmo uma provocação retórica. Mas, quando situado no interior do Vale do Silício, ele revela algo mais profundo: uma convergência ideológica que se formou ao longo de décadas e que agora começa a se expressar com clareza. O que está em jogo não é uma empresa falando alto demais, mas um campo inteiro de poder que deixou de aceitar o papel de fornecedor de tecnologia para passar a disputar o papel de organizador da realidade política.
Essa transformação não surge do nada. Ela tem raízes na própria formação intelectual do Vale. Nos anos 1970 e 1980, figuras como Stewart Brand e John Perry Barlow projetaram a internet como espaço de liberdade radical, autonomia individual e fuga das estruturas estatais. A famosa “Declaração de Independência do Ciberespaço”, escrita por Barlow em 1996, afirmava que governos não tinham soberania legítima sobre aquele novo território. Era uma utopia libertária, marcada pela crença de que tecnologia e liberdade caminham juntas.
Com o tempo, essa utopia não desapareceu. Ela foi reconfigurada. A promessa de liberdade foi sendo substituída por uma promessa de eficiência, ordem e capacidade de coordenação superior. Nesse ponto, a virada teórica é decisiva. Pensadores como Curtis Yarvin passaram a defender abertamente que a democracia liberal é um sistema ineficiente, incapaz de lidar com a complexidade do mundo contemporâneo. Yarvin propõe, de forma explícita, a substituição da democracia por formas de governança centralizadas, administradas como empresas, onde a autoridade não decorre do voto, mas da capacidade de gestão. Em paralelo, Nick Land radicaliza essa visão ao tratar o capitalismo tecnológico como força autônoma, que deve ser liberada das restrições políticas e morais para acelerar a reorganização da sociedade.
Essas ideias não ficaram confinadas à margem. Elas circulam, influenciam e encontram ressonância em figuras centrais do Vale. Peter Thiel, um dos nomes mais influentes desse ecossistema, escreveu em 2009 que já não acredita que liberdade e democracia sejam compatíveis. A frase não é retórica. Ela expressa uma mudança de horizonte. Se a democracia deixa de ser vista como condição da liberdade, ela pode passar a ser tratada como obstáculo. A partir daí, abre-se espaço para imaginar outras formas de organização do poder, menos dependentes de mediação política e mais orientadas por decisão técnica.
Mesmo atores menos explicitamente ideológicos acabam operando nessa mesma direção. Mark Zuckerberg, por exemplo, não formula uma teoria política sistemática, mas construiu uma das maiores infraestruturas de modulação social do planeta. Suas plataformas não apenas distribuem informação. Elas organizam visibilidade, priorizam conteúdos, influenciam comportamentos e estruturam a esfera pública. O resultado é um deslocamento silencioso: a mediação que antes era feita por instituições políticas, imprensa e debate público passa a ser realizada por sistemas privados, regidos por lógica interna e critérios opacos.
O ponto central é que essas trajetórias, embora diferentes, convergem. Não há um plano único, nem uma coordenação explícita. Há algo mais sofisticado: uma direção comum. Essa direção aponta para a substituição progressiva da política como espaço de disputa por arranjos técnicos de gestão. A decisão deixa de ser concebida como resultado de conflito social mediado por instituições e passa a ser tratada como problema de otimização. A legitimidade deixa de se ancorar no voto e se desloca para a performance. E o Estado, que antes organizava o campo onde essas disputas aconteciam, começa a ser redesenhado a partir das infraestruturas que deveria regular.
Nesse sentido, a Palantir não é uma exceção. Ela é o ponto em que essa transformação se torna visível sem disfarce. Enquanto outras empresas operam de forma mais difusa, modulando comportamento, organizando informação ou capturando dados, a Palantir atua diretamente sobre o núcleo duro do Estado: segurança, inteligência, guerra e administração pública. É por isso que seu manifesto soa mais radical. Não porque esteja isolado, mas porque explicita aquilo que, no restante do Vale, ainda aparece como prática sem teoria.
Do Estado soberano ao Estado executável
A transformação que começa a aparecer no discurso do Vale do Silício não pode ser compreendida apenas como influência política ampliada. Ela aponta para algo mais profundo: uma mudança na própria natureza do poder. Durante séculos, o Estado moderno se organizou em torno de três pilares relativamente estáveis. A decisão política, mediada por instituições. A lei, como forma de estabilizar conflitos. E a burocracia, como mecanismo de execução. Esse arranjo nunca foi perfeito, mas estabelecia uma distinção clara entre quem decide, quem regula e quem executa.
O que está emergindo agora desloca esse eixo. Plataformas como as desenvolvidas pela Palantir Technologies não operam apenas como ferramentas que auxiliam decisões. Elas passam a estruturar o próprio ambiente em que decisões são possíveis. Ao integrar bases massivas de dados, cruzar informações em tempo real e oferecer modelos preditivos, esses sistemas deixam de ser instrumentos e se tornam condicionantes. A decisão política não desaparece formalmente, mas passa a ocorrer dentro de um campo previamente organizado por arquitetura técnica.
Esse deslocamento altera a relação entre soberania e poder. No modelo clássico, soberania implicava capacidade de decidir sobre exceções, definir prioridades e arbitrar conflitos. No modelo emergente, soberania tende a se deslocar para quem controla a infraestrutura que organiza a informação, antecipa cenários e sugere caminhos. Não se trata de uma substituição abrupta, mas de uma transição silenciosa. O Estado continua existindo, mas sua capacidade de decisão passa a depender de sistemas que ele não controla plenamente.
Esse é o ponto em que a ideia de “Estado executável” deixa de ser metáfora e passa a descrever um processo concreto. Governar deixa de ser apenas decidir e passa a ser operar fluxos. A política, entendida como espaço de conflito, negociação e deliberação, é progressivamente comprimida por uma lógica de processamento. Problemas sociais complexos passam a ser tratados como variáveis a serem otimizadas. A ambiguidade, que sempre fez parte da política, é traduzida em métricas. E o tempo da decisão, antes marcado por debate e disputa, é substituído pela exigência de resposta imediata.
Esse modelo se apresenta como solução. Ele promete eficiência, precisão e capacidade de antecipação. Em um mundo atravessado por crises, instabilidade e competição geopolítica, essa promessa tem apelo real. Mas ela carrega um custo estrutural. Ao deslocar o centro da decisão para dentro de sistemas técnicos, reduz-se o espaço de contestação pública. O que antes podia ser debatido passa a ser tratado como dado. O que antes era escolha passa a ser apresentado como resultado de cálculo.
É nesse ponto que a crítica se torna inevitável. Não se trata de rejeitar tecnologia ou ignorar seus benefícios. Trata-se de compreender que, ao transformar a política em problema técnico, corre-se o risco de eliminar justamente aquilo que define o campo político: a possibilidade de discordar, de disputar e de redefinir coletivamente os rumos da sociedade. O Estado executável não é apenas mais eficiente. Ele é, potencialmente, menos permeável à sociedade que deveria representar.
A importância desse deslocamento não pode ser subestimada. Ele não ocorre por decreto nem por ruptura visível. Ele se instala por meio de contratos, integrações, dependências e soluções que parecem inevitáveis. E, uma vez consolidado, torna-se difícil de reverter. Porque, nesse novo arranjo, o poder não está apenas em quem governa, mas em quem constrói e controla os sistemas que tornam o governo possível.
A política da fricção zero
Se o deslocamento do Estado para uma lógica executável parece abrupto, ele se torna mais compreensível quando observado a partir de um princípio que já organiza o cotidiano digital há anos: a eliminação sistemática da fricção. No plano da experiência individual, plataformas foram desenhadas para reduzir esforço, dúvida, hesitação e escolha consciente. Tudo é antecipado, sugerido, otimizado. O usuário não decide plenamente. Ele navega por caminhos previamente estruturados. Essa lógica, que parecia restrita ao design de interfaces e à economia da atenção, revela agora sua dimensão política.
A mesma engenharia que organiza preferências, comportamentos e fluxos de informação começa a operar sobre a própria governança. A política, tradicionalmente marcada por conflito, negociação e tempo de maturação, passa a ser percebida como ruído. Deliberação vira atraso. Debate vira ineficiência. O ideal passa a ser um sistema capaz de absorver dados, processar cenários e entregar respostas rápidas, coerentes e “racionais”. Nesse contexto, a fricção não é mais vista como parte constitutiva da democracia, mas como problema a ser eliminado.
Esse movimento não acontece de forma declarada. Ele se infiltra na forma como problemas públicos são formulados. Questões sociais complexas são convertidas em variáveis mensuráveis. Decisões políticas passam a ser enquadradas como escolhas técnicas. E, sobretudo, constrói-se a ideia de que existe uma resposta ótima para cada problema, desde que se tenha dados suficientes e capacidade de processamento adequada. A política, nesse cenário, deixa de ser espaço de disputa entre projetos de sociedade e passa a ser tratada como um campo de otimização contínua.
A meta intermediação algorítmica, conceito que já descrevia a forma como plataformas organizam o mundo antes que o sujeito o perceba, encontra aqui sua expansão natural. Se antes os sistemas estruturavam o que o indivíduo vê, lê e consome, agora passam a estruturar o que o Estado pode conhecer, interpretar e decidir. A realidade governável deixa de ser um dado bruto e passa a ser um produto mediado por arquitetura técnica. Quem controla essa arquitetura não apenas participa da decisão. Define os limites do que pode ser decidido.
O resultado é uma transformação silenciosa, mas profunda. A democracia moderna sempre operou com algum grau de fricção. Eleições, parlamentos, disputas judiciais, imprensa, movimentos sociais. Tudo isso compõe um sistema imperfeito, mas aberto à contestação. Ao converter governança em fluxo contínuo de processamento, a lógica da fricção zero tende a reduzir esses espaços. Não porque os elimina formalmente, mas porque os torna secundários diante da promessa de eficiência e precisão.
A fricção zero nunca foi apenas uma estratégia de mercado ou uma estética de produto. Ela sempre carregou uma visão de mundo. Uma visão em que a mediação é substituída por fluxo, o conflito por otimização e a decisão por cálculo. Ao ser projetada sobre o Estado, essa lógica deixa de moldar apenas comportamentos individuais e passa a reorganizar a própria estrutura do poder.
E isso redefine o problema central. Já não se trata apenas de perguntar quem governa, mas de entender como a governança está sendo redesenhada. Porque, em um sistema orientado pela eliminação da fricção, a política não desaparece de forma dramática. Ela se dissolve, lentamente, dentro de processos que se apresentam como inevitáveis.
Os sacerdotes da nova ordem
A transformação em curso não é apenas técnica nem apenas econômica. Ela é também simbólica, moral e, em certo sentido, teológica. Para se sustentar, uma nova forma de poder precisa mais do que eficiência. Precisa de legitimidade. E é exatamente nesse ponto que o ecossistema do Vale do Silício começa a operar em um nível mais profundo, articulando uma narrativa que redefine o que significa ordem, autoridade e até mesmo humanidade.
Figuras como Peter Thiel desempenham um papel central nesse movimento. Thiel não é apenas um investidor influente. Ele é um formulador. Ao longo dos anos, deixou claro seu ceticismo em relação à democracia liberal e sua inclinação por formas mais concentradas de poder. Em seus escritos e entrevistas, a liberdade deixa de estar associada à participação política e passa a ser vinculada à capacidade de decisão sem entraves. Nesse deslocamento, a política aparece como limitação, e não como condição da liberdade.
Alexander C. Karp, por sua vez, dá a essa visão uma forma mais institucional. Ao defender uma aliança entre engenharia, Estado e poder militar, ele não está apenas propondo uma estratégia de segurança. Está sugerindo uma nova hierarquia de valores. Nela, eficiência, capacidade técnica e compromisso com a ordem civilizacional ocupam o lugar que antes era reservado à deliberação pública e ao pluralismo político.
Esse conjunto de ideias encontra ecos em correntes intelectuais que orbitam o Vale há décadas. O neorreacionarismo de Curtis Yarvin e o aceleracionismo de Nick Land, por exemplo, oferecem uma base teórica para a crítica à democracia e para a defesa de formas de governança mais hierárquicas e centralizadas. Ainda que não sejam adotadas de forma explícita por todos os atores, essas ideias ajudam a moldar um ambiente intelectual no qual a política tradicional passa a ser vista como obsoleta.
Mas é na relação com a religião que essa transformação revela um de seus aspectos mais sensíveis. O cristianismo, especialmente em sua tradição institucional, sempre operou com uma ideia forte de dignidade universal, mediação moral e limitação do poder. A tensão com o pensamento tecnolibertário surge justamente aí. Ao valorizar eficiência, hierarquia e capacidade de controle, esse novo imaginário entra em choque com a noção de igualdade fundamental entre os indivíduos.
Não se trata de uma oposição frontal ou declarada. Não há uma guerra aberta contra o Vaticano ou contra o cristianismo como instituição. O que existe é uma disputa mais sutil, mas não menos profunda, sobre o fundamento da ordem. De um lado, uma tradição que insiste na mediação, na moralidade compartilhada e na limitação do poder. De outro, uma visão que tende a legitimar autoridade a partir da capacidade técnica e da promessa de estabilidade.
Nesse contexto, a tecnologia passa a ocupar um lugar que antes era reservado ao sagrado. Ela oferece previsibilidade em um mundo incerto, ordem em meio ao caos e soluções onde antes havia conflito. O engenheiro, por sua vez, assume uma posição semelhante à do sacerdote. Não porque represente uma transcendência, mas porque se apresenta como aquele capaz de interpretar sistemas complexos e oferecer caminhos para a organização da vida coletiva.
Essa reconfiguração não elimina a religião. Ela a reinterpreta. Elementos religiosos são incorporados, ressignificados e, em alguns casos, instrumentalizados para sustentar uma nova visão de mundo. O resultado é uma forma de legitimação que combina técnica, moral e poder, criando uma base simbólica para a reorganização política em curso.
É por isso que a análise desse processo não pode se limitar à economia ou à tecnologia. O que está em jogo é a formação de uma nova gramática do poder. Uma gramática em que governar não é apenas administrar recursos ou tomar decisões, mas definir os próprios critérios a partir dos quais a realidade será compreendida e organizada.
O golpe do século XXI
Se os sinais ainda parecem dispersos, é porque o processo não se apresenta como ruptura, mas como transição. Não há tanques nas ruas, suspensão formal de instituições ou declarações abertas de ruptura constitucional. O que está em curso é mais sofisticado. Ele se instala por meio de contratos, plataformas, integrações técnicas e dependências que se tornam, pouco a pouco, indispensáveis. E, quando percebido, já não se trata mais de influência, mas de estrutura.
É nesse ponto que a formulação precisa ser encarada sem hesitação. Hoje, o principal golpe em curso no mundo não se dá contra governos frágeis ou democracias periféricas. Ele ocorre no centro do sistema. É o deslocamento progressivo do poder do Estado para corporações tecnológicas que passaram a controlar a infraestrutura através da qual o próprio Estado enxerga, interpreta e age.
Esse movimento não elimina o Estado. Ele o reconfigura. O aparato estatal continua existindo, mas sua autonomia se reduz à medida que suas funções mais críticas passam a depender de sistemas que não domina integralmente. A soberania, nesse arranjo, não desaparece. Ela muda de lugar. Sai da esfera da decisão política e se instala na arquitetura técnica que organiza a realidade governável.
O que torna esse processo particularmente difícil de enfrentar é sua aparência de inevitabilidade. Cada integração tecnológica é justificada pela necessidade de eficiência, segurança ou modernização. Cada novo sistema é apresentado como solução para um problema real. E, de fato, muitas dessas soluções funcionam. Elas entregam resultados, aumentam capacidade operacional e respondem a demandas concretas. É justamente essa eficácia que torna o processo tão poderoso. Ele não se impõe contra a realidade. Ele se apresenta como resposta a ela.
Mas há um custo que não aparece nos relatórios de desempenho. À medida que a governança se converte em fluxo de processamento, o espaço de contestação política se estreita. Decisões passam a ser tomadas dentro de estruturas que não foram submetidas ao mesmo grau de escrutínio público que as instituições que substituem. O debate não desaparece, mas se desloca para fora do centro da decisão. E, com isso, a própria ideia de política começa a perder substância.
O manifesto da Palantir Technologies não inaugura esse processo. Ele o revela. Ao afirmar que o poder coercitivo do século XXI será construído sobre software e ao propor uma aliança direta entre engenharia, Estado e força militar, ele torna explícita uma direção que já vinha sendo seguida. A diferença é que, agora, essa direção é assumida como projeto.
Diante disso, a pergunta deixa de ser se o Estado está sendo influenciado por corporações tecnológicas. Essa já é uma etapa superada. A questão central passa a ser outra. Quem define os sistemas através dos quais o Estado funciona? Quem estabelece os parâmetros que orientam decisões? Quem controla a infraestrutura que transforma dados em ação?
Porque, no fim, é aí que o poder se fixa. Não apenas em quem governa, mas em quem constrói o mundo no qual governar se torna possível.
E é por isso que o debate precisa mudar de nível. Não se trata de nostalgia institucional nem de resistência abstrata à tecnologia. Trata-se de compreender que, quando a política é substituída por arquitetura, a disputa pelo poder deixa de ocorrer apenas nas urnas ou nos parlamentos. Ela passa a ocorrer no código, nos sistemas e nas infraestruturas que definem, silenciosamente, os limites do possível.
O golpe do século XXI não anuncia sua chegada. Ele se instala. E, quando se torna visível, já reorganizou as engrenagens fundamentais do poder.
* Este é um artigo de opinião, de responsabilidade do autor, e não reflete a opinião do Brasil 247.


