O vizinho (e o presidente) da Escuderie Le Cocq

Com mais de 50 anos às costas, aquela criança observa que ele se encontra ocupado por um integrante ativo da Scuderie Le Cocq

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(Foto: Roberto Parizotti/Fotos Públicas)


Quando tinha os mesmos 5 anos que meu filho Enrico tem hoje, um medo me assolava cotidianamente. Morava com meus pais e meu irmão num apartamento conjugado, a poucos passos da praia, na esquina da avenida Nossa Senhora de Copacabana com a rua República do Peru, em Copacabana, no Rio de Janeiro.

Nessa mesma esquina, num domingo ensolarado, em 25 de março de 1973, o delegado Octávio Gonçalves Moreira Júnior, da Polícia Civil de São Paulo, famoso torturador de presos políticos da Operação Bandeirante, foi justiçado por um comando guerrilheiro liderado pela Ação Libertadora Nacional (ALN).

Passados 14 anos do justiçamento de “Otavinho”, durante o lançamento do livro “Combate nas trevas”, de Jacob Gorender, no Instituto de Filosofia e Ciências Sociais da UFRJ, onde acabava de iniciar o curso de História, ao folhear as suas páginas, descobri que havia presenciado a morte a tiros do torturador da OBAN, junto à minha mãe, meu irmão e nossas bicicletas.

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Mas voltemos ao medo que me acompanhava na infância e que, de alguma maneira, se relaciona ao assassinato do delegado-torturador, no escaldante verão carioca de 1973. Do outro lado do corredor do 5º andar em que morávamos, encontrava-se colado à porta do apartamento 503 um adesivo com um horripilante emblema de uma caveira apoiada em dois ossos cruzados.

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Por si só, a imagem do adesivo já horripilava aquela criança de 5 anos, que imaginava o monstro que poderia ali habitar, fazendo-a descer as escadas sempre correndo sem olhar para trás. Porém, à medida em que aquela criança aprendia a ler, ia encadeando as letras até que, por fim, formou-se um nome que escapava completamente à sua compreensão: Scuderie Le Cocq – EM.

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Pois bem, o tempo foi passando, aquela criança foi crescendo, felizmente nunca teve a oportunidade de cruzar com seu vizinho do 503, que depois acabaria se mudando, mas começou a compreender que a pouquíssimos metros de distância do local onde dormia havia um policial que integrava o primeiro grupo de extermínio do Rio de Janeiro.

Da sua fundação em 1964 até os dias de hoje, muito delinquentes comuns e não-delinquentes também foram torturados e executados, seus métodos migraram para a caça a militantes políticos de esquerda, seus integrantes associaram-se a banqueiros do jogo de bicho e traficantes, entraram para a política e criaram o lema “bandido bom é bandido morto”.

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Com mais de 50 anos às costas, aquela criança que tinha pavor do seu vizinho do Esquadrão da Morte olha para o Palácio do Planalto e observa que, agora, ele se encontra como que ocupado por um integrante ativo da Scuderie Le Cocq, com milhares de seguidores Brasil afora trazendo dentro de si a imagem da caveira apoiada em dois ossos cruzados.

Este artigo não representa a opinião do Brasil 247 e é de responsabilidade do colunista.

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